Kasino relembra hit "Can't Get Over" 20 anos após meme e detalha volta

Em entrevista à CNN Brasil, dupla anunciou que lançará música com ex-parceiro de David Guetta

Edward Pepe, da CNN Brasil, São Paulo

Sabe aquelas músicas que conseguem te transportar imediatamente para uma época específica? Muitas trazem essa sensação, mas "Can't Get Over", do Kasino, com certeza é uma delas.

Talvez você não se lembre pelo nome. Mas, duas décadas atrás, a canção dominava as rádios, estava na trilha da novela das oito e era um dos sucessos da icônica coletânea "Summer Eletrohits".

Porém, se você é da geração Z, talvez conheça pelo meme "Aê, Kasinão!", que completa 20 anos neste mês. Nele, a internet "resgatou" um trecho da apresentação do grupo no extinto "Sabadaço", programa da Band TV comandado por Gilberto Barros.

Agora, o Kasino está de volta. Em 6 de novembro, a dupla lança "Heartbeats", primeira parceria internacional do projeto, gravada com o americano Chris Willis, parceiro de David Guetta em hits como "Love Is Gone".

Em entrevista à CNN Brasil, os fundadores do Kasino, Fabio Almeida e Ian Duarte, contaram bastidores da criação da música, falaram sobre volta da dupla e relembraram a participação no programa que deu origem ao meme.

Uma música em 45 minutos, entregue de motoboy

Criado em 2003, o Kasino já tinha emplacado faixas discretas em trilhas da TV Globo, como as de "Mulheres Apaixonadas" e "Celebridade". No entanto, segundo a dupla, tudo mudou em 2005, quando veio o convite da gravadora Som Livre para uma música na novela "América".

"Eu falei com o Ian: a gente tem tantos minutos para resolver isso aqui. É pegar ou largar, e eu peguei", relembra Fábio. De acordo com ele, a gravadora então enviou um briefing de como deveria ser a canção e a dupla deixou de lado uma outra música que já estava praticamente pronta para dar início à produção.

Composição, arranjo, mixagem e masterização levaram cerca de 45 minutos, segundo os músicos. O resultado foi gravado em um CD e enviado de motoboy para a emissora. Sem nenhum retorno da gravadora, a faixa seguiu direto para o Projac, porque a cena com a canção precisava ir ao ar naquela mesma noite.

Na época, a trama de Glória Perez -- que depois virou um dos maiores sucessos da TV Globo na década de 2000 -- enfrentava problemas de audiência no início e passava por uma reformulação. "Eu gosto de pensar que a gente colaborou também positivamente para essa virada", diz Fabio.

Ele relembra que, na semana seguinte, já ouviu a música tocar em uma rádio da Serra Gaúcha e foi aí que teve dimensão do sucesso.

"'Can't Get Over', quando saiu, era um produto da casa, da própria Som Livre. E era um orgulho dentro da Som Livre porque era uma música que deu muito certo. Depois que ela entrou na novela e foi exibida pela primeira vez, me lembro que estava viajando na semana seguinte na Serra Gaúcha. Liguei a rádio e ouvi [a música]. Os programas de DJ na Serra Gaúcha já estavam tocando. Eu falei: 'Cara, como isso é possível?'. Isso numa época, se parar para pensar, que não tinha internet, não tinha WhatsApp, não tinha um YouTube tão difundido. Foi no boca a boca. Foi uma viralizada analógica."

A faixa ainda apareceu no "Summer Eletrohits 2", uma das coletâneas mais vendidas do país. "Um CD que vinha lotado de hits e a gente estava no meio. Ou seja, para nós era a coisa mais maravilhosa do mundo", diz Ian.

"Aê, Kasinão!"

A apresentação que virou meme foi ao ar no "Sabadaço" em outubro de 2006. Enquanto o grupo tocava "Can't Get Over", o apresentador narrava a performance aos gritos: "Aê, Kasinão!", "Vai, DJ!", "O som da noite!", "As baladas".

No palco, ninguém percebeu. "Eu estava lá atrás no teclado, e de onde eu estava era tão distante dele que eu nunca nem soube que ele falou alguma coisa", relembra Fabio. "A gente não tinha retorno, então não sabia o que estava indo ao ar."

Os músicos atribuem a distração à correria de um programa de auditório, com câmeras se movendo e muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. O que Gilberto Barros fazia, segundo eles, era "vinhetar" a música. "A gente não se ateve a esse detalhe", diz Ian.

O vídeo ficou mais de uma década esquecido e só explodiu nas redes em 2018. "Ninguém imaginava que aquilo ia virar um meme anos depois", pontua Ian. Segundo eles, o viral apresentou o Kasino a uma geração que nem sabia que o projeto existia e ajudou a pavimentar a volta.

Este mês, a gravação completa 20 anos, e a dupla encara a fama do trecho com humor. "Isso virou atemporal. Olha o perigo de nossas ações atuais", brinca Fabio.

"Era aquilo ou a gravadora não levava à frente"

Apesar da dupla ter sido criada por Ian e Fabio, quem aparecia nos clipes e nos programas de TV como o Kasino era Fher, nome artístico do carioca Fernando Biscaia, chamado para o projeto quando o primeiro hit do grupo já estava gravado.

Segundo Ian e Fabio, isso ocorreu porque a Som Livre impôs um formato com um vocalista na frente. Os dois explicam que, em 2005, em um período sem Alok e Vintage Culture, uma dupla de produtores de música eletrônica como protagonista, que cantava em inglês, ainda não era algo que o mercado brasileiro entendesse de primeira.

"A gente não tinha o know-how dentro da música eletrônica para dizer: não, nós somos uma dupla eletrônica", afirma Fabio, que era a voz por trás de "Can't Get Over" e "Stay Tonight".

A dupla só revelou publicamente quem cantava em 2023. "A partir desse momento, a agenda começou a bombar", diz o DJ. Para ele, a nova geração valoriza transparência: "Não existe como você mascarar nada."

De cinco pessoas na plateia a 200 do lado de fora

O retorno do Kasino começou nos bastidores. Em 2013, Fábio criou a Massiva, selo que hoje lança o grupo.

Em 2020, em plena pandemia da Covid-19, os dois perceberam uma demanda grande pelas músicas antigas, que não estavam nas plataformas digitais. As faixas tinham sido lançadas pela Som Livre, mas eram licenciadas e pertenciam à dupla. Subiram tudo, e "Can't Get Over" já passa de 60 milhões de execuções somadas, de acordo com os músicos.

O primeiro show da nova fase, em 2022, teve cinco pessoas na plateia. Diante disso, no ano seguinte, a dupla planejou uma "despedida digna" em São Paulo, para 400 pessoas. "[Lotou] e outras 200 ficaram do lado de fora. Aí a gente falou: Não, peraí, então existe algo aí", conta Fabio.

A surpresa maior foi o público. Os dois esperavam fãs acima dos 30 anos e encontraram muita gente entre 21 e 30. Para Fabio, a pandemia elevou a nostalgia a "um outro patamar". E o fenômeno também atravessa gerações: "A gente tem uma relação com o pai, que passa para o filho, que passa para o neto. Recebemos uma porção de stories de bebezinhos dançando Kasino".

Atualmente, o grupo roda o país com a Ultimate Tour. "O mais bacana é que a gente não precisa mais se submeter a 'vai ser assim ou não vai ter'", pontua Fabio.

"Heartbeats" e a primeira parceria internacional

Desde a volta, o Kasino vem colaborando com artistas brasileiros. Agora, parte para fora do país: "Heartbeats", com Chris Willis, que sai em 6 de novembro.

O cantor ficou conhecido como a voz de faixas de David Guetta, como "Love Is Gone". A dupla antecipou à CNN que a música é mais pop e mais próxima de "Can't Get Over" do que de um hit de festival.

 

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