"Andar com Fé": musical de Gilberto Gil resgata tempos da tropicália
Espetáculo com texto de Newton Moreno e direção de Miguel Falabella estreia nesta quinta-feira (20), no Teatro Santander, em São Paulo
Com texto de Newton Moreno e direção de Miguel Falabella, "Andar com Fé: O Musical" estreia nesta quinta-feira (20), no Teatro Santander, em São Paulo, transformando a vida do músico, considerado uma das principais vozes da música brasileira, em uma grande festa.
No palco, o público acompanha a jornada iniciada do exílio em Londres para mergulhar no sertão, nas ruas de Salvador e, posteriormente, nos encontros que revolucionaram a indústria nacional. Por lá, passado se conecta com o futuro por meio de "Tempo-Rei", figura emblemática que leva o nome da música e conduz com humor o encontro entre o Gil jovem e o Gil maduro.
Movido por clássicos como “Andar com Fé”, “Aquele Abraço” e “Drão”, o espetáculo reúne nomes marcantes como Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia e Flora. Ao final, apresenta-se um musical solar, emocionante e feito para cantar junto.
À CNN Brasil, Gui Ventura, que encarna Gil nos palcos, conta como foi ter recebido o retorno positivo diante do processo de seleção. "Assim que recebi a notícia da seleção tranquei a minha agenda e fui me 'empapuçar' mais de Gilberto. Fui revistar documentários, a obra, entender o ritmo, o tempo, os gestos, imitando mesmo para, depois, não pensar tanto nesses gestos, porque já estaria empossado deles e isso passaria de maneira natural".
Segundo o ator, a preparação contou com outros dos momentos cruciais. "No segundo momento, comecei um trabalho com a preparadora de elenco, para entender o corpo, essa coluna, esse caminhar, essa brincadeira. E o terceiro processo é esse encontro com outros atores, o jogo em cena. Como é o Gil em determinadas situações que a gente não tem acesso? Como é o Gil em casa? É uma coisa que vem do nosso imaginário", comenta.
"O teatro tem essa intenção de criar fantasia, é a grande mágica. Você senta aqui e sabe que alguém está se passando por ele, mas [ao mesmo tempo] você olha e não vê mais o ator, mas vê o Gilberto Gil", acrescenta.
Gui também confessou ter ficado completamente desconcertado ao encontrá-lo pela primeira vez. "Eu sou fã e fiquei diante de alguém que, para mim é, está muito à frente, do ponto de vista espiritual, e que se propõe a isso. [Fiquei] diante de um mestre e você fica ali, se nutrindo, quase uma coisa oracular", recorda.
Ao mesmo tempo, a conexão o levou para uma reflexão sobre sua própria caminhada artística. "Passa um filme na cabeça. É um caminho árduo, cheio de dúvida, mas, de repente, eu me vi ali, diante do resultado dessa fé, dessa entrega exaustiva, na concretude de Gilberto Gil", entrega.
Já Calu Manhães, na pele de Maria Bethânia, com quem Gil traça uma grande força ancestral e afetiva desde a explosão do Tropicalismo até a união dos Doces Bárbaros, diz que subir ao palco para contar essa história "é como contar a história de um Deus".
"Sempre tive Gil em um lugar muito sagrado, de muito apreço. Ele constrói a nossa vida. Estar aqui, contando essa história e interpretando Bethânia, é uma grande honra, me sinto numa missão", explica à CNN Brasil.
"Acho importante estar aqui e levar isso para novas gerações, para que eles entendam a importância dessas peças em nossas vidas, seja na política, na arte e principalmente na formação de pensamentos", acrescenta.
Lado a lado, Bethânia e Gil representam a própria essência da Bahia e da brasilidade — um elo solar e sagrado que transforma cada hino cantado a duas vozes em uma celebração coletiva de resistência e pura poesia. "Eu quero que as pessoas saiam do espetáculo sentindo Gil, sentindo que ele é uma luz gigante que invade nosso coração. Quero que elas saiam transbordando alegria", adiciona.
Henrique Zamith, que encarna Caetano Veloso, um dos maiores cúmplices de Gil, revela que fazer sua estreia em musicais assumindo esse papel é de uma responsabilidade muito grande, mas carregada de amor e afeto.
"A relação deles representa a possibilidade de um homem amar outro homem, e isso é o que mais traz para mim a sensibilidade dos dois. Essa relação é muito linda e, se o mundo fosse assim, acho que seria outra coisa", garante ele sobre a conexão singular entre os cantores.
"O Brasil precisa louvar o que precisa de fato ser louvado. Sabe-se lá onde estaríamos se não fosse a luta de Gil e Caetano para continuar lutando pela arte, pela sensibilidade e pelos direitos de todos os seres humanos. Contar essa história é reafirmar a luta de que a gente precisa existir, de que o amor está acima de tudo, e de que a censura jamais pode nos apagar", pontua.


