Eleanor Coppola transforma bastidores de “Maria Antonieta” em carta de amor
Documentário póstumo da mãe da diretora Sofia Coppola, "Making Marie Antoinette", chega ao streaming
Aos 34 anos, em 2005, a vencedora do Oscar Sofia Coppola iniciou as gravações do seu maior filme: “Maria Antonieta”, uma cinebiografia da rainha da França. Foi a primeira produção a ter permissão para filmar no Palácio de Versalhes. Foram 57 dias de filmagens, um orçamento de US$ 40 milhões (cerca de R$ 220 milhões) e muitos profissionais envolvidos.
Uma das pessoas no set era Eleanor Coppola, documentarista e mãe da diretora. Com uma câmera na mão, ela registrou os detalhes desse projeto desafiador e ambicioso, com um olhar curioso, íntimo e materno.
"Ela adorava ser a observadora e comentava, surpresa, sobre como sua vida se transformou no que acabou sendo -- e como pôde acompanhar, de um lugar privilegiado, tantos ambientes e mundos fascinantes que jamais imaginou conhecer. Foi maravilhoso tê-la no set. Eu estava sobrecarregada com uma produção ambiciosa, mas fiquei muito feliz com sua presença serena e com o encantamento que ela demonstrava diante da beleza visual", disse Sofia.
Vinte anos depois do lançamento de “Maria Antonieta” e dois desde a morte de Eleanor, essas gravações viraram um documentário: “Making Marie Antoinette”, que chega ao catálogo da Mubi nesta sexta-feira (6), editado por Aaron Matthews e produzido por Sofia.
Os registros são complementados com narrações de seu próprio diário e entrevistas feitas no set, apresentando uma narrativa profundamente pessoal e autoral. Em suas escritas, Eleanor reflete sobre a grandeza de Sofia, os desafios enfrentados e a sensibilidade da filha.
Ela destaca o caminho que a filha decidiu seguir, o lugar que ela ocupa em uma produção tão grandiosa e a fidelidade aos seus gostos e visões. A documentarista também observa como, ainda naquele tempo, os sets eram dominados por homens.
"[O documentário] Me permitiu ver partes que eu ainda não conhecia — fileiras intermináveis de perucas na área dos figurantes, uma multidão de pessoas e a imensa quantidade de trabalho envolvida. Foi difícil me ver ali, como uma diretora jovem, ainda insegura sobre como afirmar minha própria voz. Espero que quem aprecia o filme consiga sentir como era estar naquele set e o que significava defender um ponto de vista feminino em uma época em que isso não era comum", escreveu Sofia.
"Sinto-me grata por compartilhar esse presente que minha mãe me deixou, convidando o público a visitar, junto conosco, aquele set em Versalhes — por meio do olhar dela."
Embora os textos de Eleanor sejam pessoais, por vezes soam universais. "Making Marie Antoinette" é sobre os bastidores de um filme, mas também sobre ser mulher, mãe e filha, amadurecimento e família.
Documentarista da família
Casada há mais de 60 anos com Francis Ford Coppola (“O Poderoso Chefão”), Eleanor diz ter abdicado da carreira para acompanhar o marido e cuidar da família. Em seu diário, ela escreve sobre isso e reflete
Os três filhos, Gian-Carlo, Roman e Sofia, foram criados nos sets e seguiram carreira no cinema. O primogênito foi produtor de alguns filmes do pai antes de morrer em 1986, aos 22 anos, em um acidente de lancha. Roman e Sofia seguiram os passos de Francis como produtores, roteiristas e diretores.
Ao longo dos anos, Eleanor registrou os bastidores desses filmes, entre eles o de "Apocalypse Now" (1979). O documentário sobre o polêmico épico de guerra de Francis, intitulado “Hearts of Darkness: A Filmmaker's Apocalypse”, inclusive, lhe rendeu um Emmy e o prêmio do Directors Guild Awards.

Os passos contrários de Sofia são pontos observados pela mãe. "Maria Antonieta" foi o terceiro longa dirigido pela cineasta e o primeiro após ganhar o Oscar de Melhor Roteiro Original por "Encontros e Desencontros" (2003) e se divorciar de Spike Jonze ("Quero Ser John Malkovich"). Eleanor exalta o olhar sensível e a firmeza da filha, enquanto demonstra cuidado e admiração.
Essa sensibilidade de Sofia parece ter sido herança da própria mãe. A câmera de Eleanor perpassa os mais diversos ambientes das filmagens em Versalhes, com uma atenção especial às conversas particulares e aos mais de 150 figurinos desenhados por Milena Canonero.
A sensação que passa é que Eleanor consegue se realizar, de certa forma, com o sucesso e o caminho de Sofia. Enquanto a cineasta carrega as referências, a serenidade, o olhar e o apoio da mãe.
Um ambiente familiar
Assim como o pai, que levava a família aos sets e os colocava em filmes, Sofia também mantém o círculo familiar por perto. O seu primo, Jason Schwartzman, é quem interpreta o rei Louis XVI. Sob o olhar de Eleanor, o telespectador percebe a proximidade e afeto entre os dois.
O irmão da cineasta, Roman, é um rosto recorrente no set, inclusive como segundo diretor. Em seu diário, a mãe escreve que a relação dos dois é o seu bem mais precioso.
À Eleanor, Kirsten Dunst, a Maria Antonieta de Sofia, disse que considera a diretora uma irmã mais velha. Elas já haviam trabalhado juntas no primeiro longa de Sofia, "As Virgens Suicidas" (1999), quando a atriz tinha 17 anos. Elas continuaram a parceria -- fizeram "Um Estranho Entre Nós" (2017) e estão trabalhando em um novo projeto.
A sobrinha de Sofia, Gia Coppola, é uma das figurantes da cena do baile de máscaras em Paris. E o pai, Francis, visita o set, passeando pelos corredores de Versalhes.
Eleanor conversa com todos eles e pergunta sobre o trabalho de Sofia, transformando os registros de um set pomposo e cheio de gente em um olhar singular e afetuoso de uma mãe para uma filha.
A documentarista registrou também a visita de Thomas Mars, o recente namorado de Sofia à época e que, hoje, é seu marido e pai das suas duas filhas, Romy e Cosima.

"Making Marie Antoinette" é carta de amor de mãe para filha, mas também uma carta de amor de Sofia a Eleanor, definiu a crítica e pesquisadora sobre cinema feminino Paula Jacob em uma exibição especial do filme em São Paulo.
Ao finalizar esse projeto após a morte da mãe, Sofia homenageia "a mulher que muito me ensinou sobre beleza e arte e como ser real e forte à sua maneira". Essas foram as palavras usadas pela cineasta para se despedir de Eleanor em 2024.
Assista ao trailer de "Making Marie Antoinette"
Quem foi Eleanor Coppola?
Eleanor Coppola (1936–2024) foi uma cineasta, roteirista e diretora de obras de não ficção, premiada com um Emmy e um prêmio do Directors Guild of America, o sindicato de diretores dos Estados Unidos. Conhecida por seu estilo documental observacional, por retratos íntimos dos bastidores do cinema e por longas-metragens de ficção realizados mais tarde em sua carreira, sua trajetória no cinema abrangeu mais de seis décadas.
Após obter o bacharelado em Design Aplicado pela UCLA, Coppola ingressou na indústria cinematográfica em 1962, trabalhando como assistente de direção de arte no filme de terror e suspense "Demência 13". Foi nessa produção que ela conheceu o jovem diretor do filme, Francis Ford Coppola; os dois casaram-se em 1963, dando início a uma parceria pessoal e criativa que duraria a vida toda.
Eleanor ganhou grande destaque no cinema pela cobertura documental do polêmico bastidores de "Apocalypse Now", nas Filipinas. Suas filmagens brutas em 16mm e as gravações em áudio de seu diário deram origem ao "Hearts of Darkness: A Filmmaker's Apocalypse" (1991).
Aos 80 anos, estreou na direção de longas-metragens de ficção com a comédia dramática romântica "Paris Pode Esperar" (2016), estrelada por Alec Baldwin e Diane Lane, que é, inclusive, quem faz a sua voz em "Making Marie Antoinette".
Paralelamente à carreira no cinema, Coppola manteve uma trajetória notável como artista visual conceitual, expondo fotografias, desenhos e instalações multissensoriais em diversos países. Ela também escreveu dois livros de memórias: "Notes on the Making of Apocalypse Now" (1979) e "Notes on a Life" (2008).
Eleanor Coppola morreu no dia 12 de abril de 2024, em sua casa na Califórnia, nos Estados Unidos.


