Filho de Elis Regina sobre "Elis & Eu": "Descobri coisas que não sabia"
Documentário estreia nesta terça (25) no Universal+ e revisita a trajetória da cantora por meio das memórias de João Marcello Bôscoli

Quarenta e quatro anos após a morte de Elis Regina (1942-1985), ainda há histórias sobre a cantora capazes de surpreender até quem cresceu ao lado dela. É o que acontece com João Marcello Bôscoli, filho mais velho da estrela, que revisita a relação com a mãe em “Elis & Eu”, documentário que estreia nesta terça-feira (25), exclusivamente no Universal+.
Conduzido pelas memórias de João Marcello e inspirado no livro "Elis e Eu: 11 anos, 6 meses e 19 dias com minha mãe", lançado por ele em 2019 pela Editora Planeta, o longa dirigido por André Bushatsky parte da memória afetiva para reconstruir a mulher por trás do mito.
Em entrevista exclusiva à CNN Brasil, João Marcello contou que, apesar de anos dedicados a pesquisar e falar sobre a mãe, o próprio processo de produção do documentário o levou a descobrir novas histórias.
“Nos depoimentos, eu descobri coisas que eu não sabia”, afirmou. “Eu acho que o livro estimulou as memórias dessas pessoas e elas contaram coisas que estimularam a minha memória também."
O documentário reúne imagens raras de arquivo, registros históricos, dramatizações e depoimentos inéditos de pessoas que dividiram com Elis palcos, estúdios, amizades e momentos decisivos da música brasileira. Ao todo, a equipe pesquisou mais de 1.500 imagens de arquivo e cerca de 200 horas de vídeos.
Entre os depoimentos de arquivo estão entrevistas com nomes como Rita Lee, Milton Nascimento, Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal. O longa também traz entrevistas inéditas com Pedro Mariano, filho de Elis; Wanderléa; Celina Silva, ex-secretária pessoal da cantora; Natan Marques; e o jornalista Julio Maria, autor da biografia "Elis Regina – Nada Será Como Antes".
“Então, no final das contas, é uma obra que trata de lembrança, de memória e de amor, de afeto, de cuidar de uma pessoa que a gente ama e ser cuidado por ela”, destacou Bôscoli.
Elis Regina para além do palco
A cantora, conhecida pela voz potente, pela presença de palco e pela personalidade intensa, aparece também como mãe, mulher e personagem de uma vida cotidiana.
O filme mostra Elis cozinhando para os filhos, participando de reuniões escolares, cultivando hortas e tentando equilibrar maternidade, carreira, casamento e vida empresarial.
Para João Marcello, nenhum documentário ou livro é capaz de “explicar” definitivamente Elis Regina. O que existe, segundo ele, é a possibilidade de revelar novas camadas de uma artista que deixou uma quantidade extraordinária de registros.
“Eu acho que a Elis faz parte de um tipo de pessoa que faz uma reportagem daquele tempo que viveu, capta o que está acontecendo, transforma numa obra, numa entrevista, em alguma coisa e registra, encapsula o tempo ali”, disse.
Para ele, a permanência da cantora no imaginário popular também está ligada à emoção. “A Elis tem esse lado que tudo fala através da sua emoção”, afirmou. “Até de pessoas que não entendem o que ela está falando.”
Uma memória que continua aparecendo
A quantidade de materiais que continuam vindo à tona é, para João Marcello, uma das maiores provas da dimensão da trajetória da mãe.
Entre as descobertas mais recentes está uma carta que Elis escreveu em um dia aparentemente comum, pedindo que uma gravação fosse enviada novamente e fazendo pedidos relacionados a uma música.
“É uma puta carta. Eu fiquei lendo e falei: ‘Caramba!’. É uma coisa que ela escreveu num dia qualquer”, contou.
“Fiz um PhD na Elis”
A convivência com Elis foi curta. Ela morreu quando João Marcello tinha cerca de 12 anos. Depois, ele passou a conviver intensamente com o pai, Ronaldo Bôscoli, até os 24, quando também o perdeu.
Foi nas conversas com Ronaldo que ele continuou reconstruindo a mãe que havia perdido tão cedo.
“Eu acho que entendo a Elis, entendo minha mãe, porque tenho impulsos e características parecidas”, afirmou.
A longa investigação pessoal acabou se transformando em livro, depois em documentário e, agora, em uma nova forma de olhar para a cantora.
“Eu acho que fiz um PhD na Elis. Mas apenas acho, não tenho certeza”, brincou.
Como seria Elis Regina diante das transformações que a música sofreu nas últimas décadas?
Segundo João, a mãe era fascinada por novidades, incluindo as do mundo da música. “Videocassete, sempre tivemos em casa. Microondas, sempre tivemos em casa.”
Se estivesse viva, Elis talvez continuasse fazendo aquilo que sempre fez: questionando e tendo opiniões fortes.
“Acho que reclamar no sentido de ter uma opinião contrária. Essas fricções, as dissonâncias e tal, acho que fazem parte até dos acordes. Tem o acorde maior, tem o acorde menor, tem as dissonâncias. Acho que traduzem a vida”, afirmou.
Falar sobre a mãe é um assunto que nunca se encerra para João Marcello. E, depois de tantas décadas, ainda há algo novo a descobrir. “Eu fico surpreso de ver a quantidade de coisas que ela fez”, disse.
Quando perguntado se ainda há espaço para novas histórias, a resposta vem sem hesitação: “Quando for falar de Elis, é só me ligar. É meu assunto favorito.”
Ao longo do documentário, algumas situações contadas por amigos e familiares são dramatizadas. A atriz Lílian Menezes, protagonista de "Elis, A Musical", interpreta Elis nas sequências dramatizadas. Já Antônio Menqui e Victor Constantino interpretam João Marcello aos 6 e 11 anos, respectivamente.


