Como uma floresta submersa de 60 mil anos pode ajudar na fabricação de remédios

Cientistas exploram potencial de bactérias encontradas em molusco marinho para a fabricação de medicamentos

Da CNN
08 de abril de 2020 às 11:25
Cientistas descobrem floresta submersa cujas árvores podem ajudar a desenvolver novos medicamentos
Foto: Francis Choi

Há quase 60 mil anos, quando seres humanos pré-históricos começaram a se aventurar fora da África, uma floresta de ciprestes crescia nas margens de um rio próximo ao Golfo do México. Conforme as árvores ficavam velhas, elas caíam na água e ficavam sob sedimentos. Quando o nível do mar subiu, os restos ficaram submersos. Agora, cientistas descobriram essa vegetação e acreditam que ela esconde segredos para desenvolver novos medicamentos e salvar vidas.

Por milênios, a floresta permaneceu intocada, segundo a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA, em inglês), que publicou um artigo sobre ela na semana passada. Mas em 2004, o furacão Ivan atingiu a Costa do Golfo, varrendo o fundo do mar e os sedimentos que mantinham a floresta sepultada.

Desde então, o local, que agora está a cerca de 18 metros abaixo da água na costa do Alabama, em Mobile Bay, recebe a visita de cientistas. Em dezembro, uma equipe da Universidade de Northeastern e da Universidade de Utah conduziu uma expedição financiada pela NOAA para entrar nessas águas e recolher pedaços de madeira para estudo.

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As condições estavam abaixo do ideal, com a visibilidade muito ruim, e o fato de que grupos de mergulhadores anteriores viram tubarões na área tornou a expedição arriscada. Entretanto, quando os cientistas finalmente chegaram à floresta submersa, ficaram admirados.

Apesar de a madeira encontrada ter 60 mil anos, estava extremamente bem preservada, pois havia sido enterrada sob camadas de sedimentos que impediram o oxigênio de realizar a decomposição do material.

“Parecia algo dos tempos atuais. Ainda tinha toda a coloração por dentro. Só ficou fechada por 60 mil anos”, disse Brian Helmuth, professor de ciências marinhas e ambientais na Universidade de Northeastern e um dos cientistas que mergulhou na floresta.

Do fundo do mar para o laboratório

A verdadeira surpresa para os cientistas surgiu quando eles levaram a madeira para o laboratório. “Pudemos observar que tipo de organismos tiraram proveito dessa madeira antiga e exposta. Os diferentes tipos de animais enterrados ali e os que viveram em sua superfície”, afirmou Francis Choi, diretor de laboratório do Centro de Ciências Marinhas da Northeastern.

Dentre os mais de 300 animais que foram retirados da madeira, os cientistas focaram em apenas um: o teredo (ou cupim-do-mar), um tipo de molusco marinho que converte madeira em tecido animal, segundo a NOAA.

Pedaço de madeira encontrada pelos cientistas na floresta submersa
Foto: Brian Helmuth

Teredos não são novidade na ciência. Eles são comuns e podem ser encontrados na maioria dos oceanos onde houver madeira. Mas a bactéria encontrada neles é a grande novidade.

“Conseguimos isolar as bactérias deles e obter uma com a qual nunca havíamos trabalhado antes. Estamos muito empolgados”, contou à CNN Margo Haygood, professora de química medicinal na Universidade de Utah.

Em busca de novos medicamentos

Os teredos da madeira encontrada produziram 100 tipos de bactéria — muitas delas, novas — e 12 estão em processo de análise da sequência de DNA para avaliar o potencial de elas serem utilizadas na fabricação de novos medicamentos.

Pesquisas anteriores sobre bactérias de teredos resultaram em ao menos um antibiótico, que está sendo estudado para tratar infecções parasitárias, informou a NOAA. Com isso, os cientistas, incluindo Haygood, estão muito otimistas com relação à descoberta. 

Enquanto a pandemia do novo coronavírus coloca qualquer mergulho futuro na floresta submersa em espera, Haygood disse que ela e a equipe de cientistas continuarão estudando as amostras na esperança de publicar os resultados dentro de um ano.

Choi afirmou que eles também estão tentando obter veículos submarinos autônomos (robôs subaquáticos não tripulados) para capturar imagens e compartilhar com o restante do mundo a beleza da floresta de 60 mil anos.

(Com reportagem de Alicia Lee)