Distância segura em caminhada é de 1,5 metro, diz estudo

José Brito Da CNN, em São Paulo
09 de abril de 2020 às 20:15
Movimentação no Parque Ibirapuera em São Paulo na segunda-feira (6.abr.2020)
Foto: DANILO YOSHIOKA/FUTURAPRESS/ESTADÃO


Um estudo prévio feito por engenheiros holandeses e belgas, especialistas em aerodinâmica do esporte, constatou que, para se proteger do novo coronavírus, é necessária uma distância mínima de 1,5 metro para quem faz caminhada, corrida ou pedala lado a lado. Se for uma corrida de mais de 30 km/h com uma pessoa à sua frente, essa distância pode chegar a 30 metros.

A orientação é diferente da sugerida pela OMS (Organização Mundial da Saúde), que, por conta do isolamento social necessário para impedir o avanço do COVID-19, orienta que a população se exercite em casa, mas, caso saia para caminhar ou fazer atividades físicas, que mantenha uma distância de pelo menos um metro de outras pessoas. 

Segundo os pesquisadores da Universidade Tecnológica de Eindhoven, na Holanda, e da Universidade Católica de Leuven (KU Leuven), na Bélgica, quem tosse ou espirra enquanto pratica esses exercícios ao ar livre pode criar uma nuvem de gotas que se estende por um fluxo de corrente por mais de 1,5 metro para quem vem atrás, o chamado “slipstream”. Então, o estudo recomenda: se você não estiver numa trilha ou vácuo de uma pessoa a sua frente, como caminhar, correr ou andar de bicicleta lado a lado ou em um arranjo escalonado, 1,5 metro é uma distância considerada segura. Já se você estiver no fluxo de deslizamento de algum corredor ou ciclista da frente, precisará:

Manter 5 metros de distância ao caminhar a 4 km/h
Manter uma distância de 10 metros ao correr a 14 km/h
Manter uma distância de 20 metros ao pedalar a 30 km/h

Para obter esses resultados, a equipe de pesquisa simulou correntes de deslizamento em caminhada com 4 km/h e corrida forte com 14,4 km/h. A técnica normalmente é usada para melhorar o nível de desempenho de atletas de elite, corredores e ciclistas. 

Ao ser contactado pela CNN, um dos pesquisadores do estudo, o professor Bert Blocken, confirma os resultados prévios e explica que o estudo completo ainda não foi publicado, mas eles decidiram divulgar essa informação por acreditarem que ajudará na luta contra a pandemia.

“Discutimos na equipe de pesquisa e com as agências de imprensa da universidade: o que devemos fazer? Espere meses, talvez um ano antes de avisar o público, e provavelmente seja acusado depois de reter informações essenciais para a saúde pública? Ou forneça as informações já agora e envie o trabalho de pesquisa mais tarde? Escolhemos a opção dois. Eu ainda a sustento, embora algumas pessoas não concordem, recebi hoje mais de cem mensagens de pessoas que apoiam nossa escolha”, disse Bert.

Para o infectologista José Valdez Ramalho Madruga, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), este estudo é importante para conscientizar as pessoas que saem às ruas sobre como elas devem se manter seguras. “A gente já viu várias imagens de pessoas em calçadões de praias e como elas ficam próximas. Quanto mais a gente tiver uma distância social, é melhor para contar o número de casos.”, diz o médico.    

Na série de animações feitas pelo pesquisadores holandeses e belgas, uma nuvem de gotas fica claramente visível. “As simulações mostram que o distanciamento social desempenha um papel menor para duas pessoas que andam ou correm lado a lado em clima calmo. As gotas acabam por trás da dupla. Aqueles que se movem em um arranjo escalonado também têm menos probabilidade de pegar gotículas de saliva do antecessor, pelo menos quando não há um vento cruzado substancial. O risco de contaminação é maior quando as pessoas andam ou correm próximas umas das outras e, portanto, na corrente de fuga uma da outra”, conclui a pesquisa.

O documento mostra ainda que, atualmente, há um intenso debate entre cientistas em todo o mundo para responder até que ponto o resíduo das microgotas com o vírus, após a evaporação, ainda apresenta risco de infecção e concluem que mais pesquisas em virologia são necessárias para esclarecer mais essa questão.

“Esse é um estudo puramente aerodinâmico, não virológico. A única informação que usamos da virologia é uma das únicas concordâncias dos virologistas em todo o mundo: que o vírus é efetivamente transmitido por gotículas respiratórias. Com isso em mente, determinamos quais seriam as distâncias equivalentes para caminhar, correr, andar de bicicleta, para ter o mesmo nível de não exposição a gotículas que os 1,5 m para duas pessoas paradas”, disse o especialista.