China afirma que EUA retiveram respiradores comprados por estados do Nordeste

Segundo embaixada, não houve quebra de contrato por parte de Pequim, mas problema com empresa que intermediou negócio

André Spigariol Da CNN, em Brasília
10 de abril de 2020 às 17:02
Modelo de respirador usado em pacientes de COVID-19
Foto: Stephane Mahe/File Photo - 20.mar.2020/Reuters

A Embaixada da China no Brasil afirmou nesta sexta-feira (10) que o carregamento de 600 respiradores mecânicos comprados pelo Consórcio Nordeste na China e retidos em Miami na semana passada sofreu retenção da alfândega nos Estados Unidos. De acordo com ministro-conselheiro Qu Yuhui, porta-voz do governo chinês no Brasil, a compra, no valor de R$ 43 milhões, foi feita através de uma empresa intermediária que tem sede em Los Angeles (EUA). 

“A informação que nós temos é que não houve nenhuma quebra de contrato pelo governo chinês nem pela fornecedora na China”, disse o diplomata, em videoconferência com jornalistas. “Neste caso, quem fez a compra para o Governo da Bahia é uma ‘trading company’ com sede em Los Angeles. Em seguida, houve um problema na alfândega dos Estados Unidos. Essa mercadoria foi retida pela alfândega e nós temos a informação que, posteriormente, os equipamentos foram vendidos para outra cidade”, afirmou. Segundo ele, a Embaixada sequer tinha conhecimento da compra antes de a retenção da mercadoria ser noticiada.

Com relação às compras feitas através das chamadas tradings, empresas que intermediam negociações com fornecedores na China, a Embaixada disse que “pouco pode fazer” para ajudar os compradores dos produtos no Brasil. “Nesse caso, aconselhamos que os compradores pesquisem bem e tenham atenção com os contratos”, disse Qu Yuhui. 

"O que pode acontecer é que alguns compradores oferecem condições de aquisições mais vantajosas para os fornecedores. Nós recomendamos cautela aos compradores na negociação dos termos concretos de cada contrato comercial com essas empresas", admitiu o porta-voz da embaixada chinesa.

Quando as compras são feitas diretamente através de contatos do governo com o governo chinês, a Embaixada da China no Brasil encaminha as solicitações ao Ministério do Comércio chinês, em Pequim. Em seguida, são disponibilizadas listas de fornecedores chineses com seus respectivos prazos de entrega para que os governos estaduais e federal negociem com as empresas. A embaixada acompanha esses pedidos e relata que já recebeu solicitações de 248 produtos diferentes do Ministério da Saúde e de outros 14 governos estaduais. 

Na terça-feira, o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Todd Chapman, negou que o governo americano tenha interceptado aquisições feitas pelo Brasil. "O Governo dos EUA não comprou nem bloqueou nenhum equipamento da China com destino ao Brasil”, disse o embaixador em videoconferência com jornalistas.

“Muitos fornecedores estão jogando: querendo vender para lá e depois vender para cá. Isso é contra a lei norte-americana. Não pode superfaturar. Não pode ter uma máscara que custa 10 e eu guardo para depois vender por 15”, completou Chapman.

Cadeia de suprimento

O porta-voz disse que a China detém 1/5 da capacidade mundial de produção de respiradores, mas que as indústrias chinesas não conseguem operar a plena capacidade por causa das proibições de exportações de produtos médicos adotadas pelos Estados Unidos e pela União Europeia. “Com isso, empresas chinesas não conseguem adquirir peças importadas que são necessárias para produção dos equipamentos”, afirmou.

A embaixada chinesa informou que 58 países já fecharam contratos com empresas do país para fornecimento de produtos que combatem o novo coronavírus. O governo central chinês está apoiando 27 países e quatro organizações internacionais com doações para ajudar no combate à pandemia. 

Cooperação com o Brasil

Quinze empresas chinesas doarão ao Brasil cerca de um milhão de máscaras, além de outros equipamentos, como respiradores, disse o porta-voz. A China informou que também está em fase final de negociação com o Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) um acordo para que o país forneça equipamentos de proteção individual para o governo federal. 

Após a conversa por telefone entre o presidente Jair Bolsonaro e o presidente Xi Jinping, no final do mês passado, os dois países criaram um mecanismo de troca de informações e experiências. Até o momento, já foram realizadas quatro videoconferências de médicos chineses com médicos brasileiros para realizar esse compartilhamento. 

O porta-voz também disse que as declarações sobre a China do ministro da Educação, Abraham Weintraub, dadas no último final de semana nas redes sociais, não irão “tirar a disponibilidade e a disposição do lado chinês para cooperar com o Brasil na luta contra a COVID-19. A China e o Brasil continuarão trabalhando juntos nessas áreas”. 

O ministro-conselheiro colocou panos quentes sobre a polêmica, afirmando que “é importante desenvolver a parceria estratégica global com o Brasil e os dois países têm trabalhado para fortalecer essa relação na área comercial, política e econômica. Nós acreditamos que essa é a posição oficial do governo brasileiro”.