Distanciamento social pode ser necessário até 2022, diz estudo de Harvard

A pesquisa ressalta a necessidade de testagem da população para entender o comportamento da COVID-19

Giulia Pereira e Jairo Nascimento, da CNN, em São Paulo e no Rio
14 de abril de 2020 às 19:33
Teste da COVID-19
Foto: Diy13/Shutterstock

O distanciamento social feito de forma intermitente pode ser indispensável contra a disseminação do novo coronavírus (SARS-Cov-2) até 2022, de acordo com um estudo da Universidade de Harvard (EUA) divulgado nesta terça-feira (14) na revista Science. Mesmo no caso de eliminação aparente do vírus, será importante manter o SARS-Cov-2 em observação, pois um ressurgimento do contágio poderá ser possível até 2024. 

Os autores do estudo reconhecem que o distanciamento prolongado, mesmo que intermitente, terá consequências econômicas, sociais e educacionais profundamente negativas, mas afirmam que a pesquisa visa informar o potencial catastrófico que o distanciamento social ineficaz e de curto prazo podem ocasionar. 

Segundo o estudo, as medidas de distanciamento social poderiam ser relaxadas por volta de 2021, a depender de outras medidas pra mitigar a doença, como aumentar a capacidade de atendimento médico. Os pesquisadores relataram que, na ausência de vacinas, tratamentos e outras medidas que intervêm no distanciamento social -- como rastreamento agressivo de contatos e quarentena -- o isolamento poderá precisar ser mantido até 2022, principalmente se o tempo de imunidade do vírus for inferior a dois anos.  

A pesquisa ressalta a necessidade de testagem da população para entender o comportamento da doença. Em um estudo recente, estima-se que só 4% dos indivíduos com o novo coronavírus procuraram atendimento médico, e apenas uma fração deles foi testada. 

Leia também:

Brasil pode ter 12 vezes o nº de casos oficiais de COVID-19, diz estudo

85% dos brasileiros acreditam que vida voltará ao normal até junho, diz pesquisa

Projeções

O estudo usou estimativas de sazonalidade, imunidade e imunidade cruzada, com informações de outras doenças, a partir de dados de séries temporais dos EUA, para projetar surtos de contágio até o ano de 2025.  Em todos os cenários modelados, o SARS-CoV-2 foi capaz de produzir um surto substancial e houve um ressurgimento da infecção quando as medidas simuladas de distanciamento social foram suspensas. 

No entanto, o distanciamento social temporário mais longo e mais rigoroso nem sempre se correlacionou com maiores reduções no tamanho do pico da epidemia. No caso de um período de 20 semanas de distanciamento social com redução de 60% em contaminados, o tamanho do pico de ressurgimento era quase o mesmo do pico da epidemia não controlada: o distanciamento social era tão eficaz que praticamente nenhuma imunidade populacional foi construída, de acordo com a pesquisa. 

O estudo projeta que surtos da doença poderão ser recorrentes por pelo menos cinco anos, principalmente durante os invernos, assim como a gripe, caso não haja uma imunidade permanente, ou seja, uma vacina contra a doença.  

A inexistência de tratamentos farmacêuticos cientificamente comprovados também demandam períodos prolongados de distanciamento social, que são necessários contra a transmissão e o ressurgimento da doença.  

Após a pandemia inicial, o SARS-CoV-2 pode seguir seu parente genético mais próximo, o SARS-CoV-1, e ser erradicado por medidas intensivas de saúde pública, apesar de profissionais considerarem esse cenário improvável.