Na UTI de um dos maiores hospitais de São Paulo, COVID-19 não escolhe idade

Na UTI do Conjunto Hospitalar do Mandaqui, visitada pela CNN, o paciente mais velho tem 82 anos; o mais novo, 32.

Daniel Mota e Talis Mauricio, da CNN em São Paulo
23 de abril de 2020 às 23:56 | Atualizado 24 de abril de 2020 às 06:23
 
Uma respiração forte e ofegante, que sem a ajuda de um aparelho respirador não seria possível. Às vezes, a dificuldade em puxar o ar vira uma grave crise de tosse. É assim que reage um paciente internado na UTI com o novo coronavírus. Na Unidade de Terapia Intensiva, quase não há enfermos de olhos abertos. Todos estão entubados, inconscientes e em estado gravíssimo. 
 
A CNN teve acesso à UTI do Conjunto Hospitalar do Mandaqui, o maior hospital público da Zona Norte de São Paulo, que atende 250 mil pessoas por ano e está com 85% da UTI ocupada para o tratamento de pacientes com o novo coronavírus. A entrada foi autorizada pela direção da unidade, mediante a utilização de toda a paramentação obrigatória, o chamado EPI (Equipamento de Proteção Individual). 

Lá dentro, a constatação de que o COVID-19 não escolhe idade, sexo nem raça. E pode ser fatal, como registrado pela reportagem no momento em que estávamos no local. 

“É um óbito, sim, Paciente com suspeita de COVID. Tinha 77 anos e outros diagnósticos, como hipertensão, diabetes”, explica a técnica de enfermagem Jéssica de Souza.

O trabalho para higienizar o local é rápido e, em menos de uma hora, uma nova vaga para tratamento intensivo está aberta. O idoso que morreu é envolvido em duas mortalhas. A partir de então, ninguém mais verá seu rosto. A última pessoa será, de fato, a Jéssica.

“A gente pensa na família, como deve se sentir. Não poder nem ver o paciente. É muito triste", disse ela.

O idoso, Luiz Santana Matos, ficou menos de sete dias internado. A causa da morte foi confirmada pelo hospital: COVID-19. O enterro ocorreu nesta quinta-feira (23), em uma cerimônia discreta com apenas cinco familiares, sem direito a velório. 

'Covidário'

O médico plantonista Pedro Gomes, que trabalha no “covidário”, como é chamada pelos profissionais da saúde a ala reservada para o tratamento de pacientes com o novo coronavírus, disse que é assustador como a doença ataca de forma rápida os pacientes. "Trabalho em outras UTIs e aqui os pacientes exigem demais. A atenção tem que ser redobrada”, afirma.

Na UTI visitada pela CNN, o paciente mais velho tem 82 anos; o mais novo, 32. A faixa etária democrática exige grandes habilidades dos profissionais, que correm para cima e para baixo a qualquer alerta de instabilidade.

“Mostram falta de materiais quando ocorre, falhas que por ventura podem ocorrer. Mas não mostram essa dura realidade, essa batalha dia e noite que nós travamos para poder assistir à população", disse o diretor técnico do hospital, Marcelo Viterbo.

O Hospital do Mandaqui conta com 40 leitos de UTI. Para ajudar na batalha contra o novo coronavírus, nesta semana foram abertas outras 20 vagas para tratamento intensivo. A iniciativa se deu por meio de uma parceria da Secretaria Estadual da Saúde e uma universidade privada. Os novos leitos contam respiradores e aparelhos para monitoramento dos pacientes. 

“Vinte novos leitos de UTI significam, no mínimo, vinte vidas a mais que iremos salvar”, destacou o diretor do hospital.

Viterbo explicou ainda que, embora exista uma polêmica no uso dos medicamentos cloroquina e hidroxicloroquina, os hospitais públicos de São Paulo estão fazendo uso em pacientes, baseados em uma norma do Ministério da Saúde. "Também é usado, Em um primeiro momento [usávamos] apenas em pacientes graves. Agora, também usamos em pacientes que estão na enfermaria”, explicou. 

Limite

Desde o início da pandemia, o Hospital do Mandaqui recebeu 196 pacientes com suspeita de COVID-19. Desse total, 50% têm entre 18 e 60 anos. Até agora, foram registradas nove mortes confirmadas pelo novo coronavírus, sendo que a vítima mais nova tinha 37 anos, e a mais velha, 87. As duas, mulheres, tinham comorbidades. 

Além do Mandaqui, outros hospitais públicos do estado operam perto do limite. O Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo tem mais de 90% da UTI ocupada, e o Instituto de Infectologia Emílio Ribas atingiu 100%.

O filho do paciente de 77 anos que morreu deixa o recado. "A mensagem é a seguinte: se preocupem, porque a gente só percebe o tanto que essa doença é ruim quando a gente perde um familiar. Quando não acontece com a gente, tudo é normal. Mas quando você perde um pai, alguém da família, aí você vê a importância que tem de dar pra essa doença. Não é uma gripezinha, não", desabafou o analistas de sistemas Arnaldo Matos.

UTI do hospital do Mandaqui, em São Paulo, está repleta de pacientes com COVID-19
Foto: CNN