Só 47% dos hospitais de campanha previstos no Brasil já foram entregues

Dificuldades para encontrar equipamentos e profissionais atrasam a conclusão dos hospitais, também afetada por suspeitas de corrupção

Denise Ribeiro, Giulia Pereira e Talis Mauricio, da CNN, em São Paulo
28 de maio de 2020 às 20:16 | Atualizado 30 de maio de 2020 às 11:46

Menos da metade dos hospitais de campanha previstos nos estados brasileiros para atender pacientes com Covid-19 foram entregues. É o que mostra um levantamento da CNN junto às secretarias municipais e estaduais de saúde. Os dados indicam que apenas 47% das 196 unidades prometidas foram finalizadas, ou 94 estruturas. Ainda restam 102 a serem concluídas.

O estado com o maior número de hospitais de campanha previstos é São Paulo, epicentro da doença no país. Ao todo, o governo paulista prevê 37 unidades, sendo que 32 foram entregues. Depois vem Pernambuco, que planejou 20 e entregou 15, Rio de Janeiro (14 – 7), Ceará (11 – 7) e Minas Gerais (10 – 4). Nenhum, no entanto, entregou 100% do que foi planejado. Juntos, os 94 hospitais de campanha prontos oferecem 9.914 leitos. 

Entre as dificuldades para a implantação das unidades estão a falta de equipamentos hospitalares no mercado, como os respiradores, e a dificuldade em encontrar e treinar profissionais da saúde para que se tornem capacitados.

"Estruturas de atendimento podem ser construídas rapidamente. Já equipes intensivistas, dado o caráter técnico do seu conhecimento, não são tão simples de serem treinadas. Leva tempo para chegar a profissionais adequados intensivistas. Por esse motivo que não basta expandir a rede, é preciso também garantir que haverá profissionais de saúde para habilitar o serviço. Isso pode ser feito de duas maneiras: uma é através da articulação entre entes federados, ou seja, entre municípios e estados para a cessão de servidores e outros recursos. E uma outra maneira, que foi inclusive recomendada pelo Conselho Nacional de Saúde, é por meio de requisições de serviços privados, de maneira organizada, avaliando a capacidade e a taxa de ocupação de cada serviço", explica Ana Navarrete, conselheira nacional de Saúde.
 
Outro fator que dificulta as entregas são as suspeitas de irregularidades. Nesta semana, por exemplo, o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), foi alvo de uma operação da Polícia Federal. A investigação apura supostas fraudes na compra de equipamentos hospitalares e na instalação de hospitais de campanha.

Em Brasília, o Ministério Público Estadual investiga direcionamento na contratação da empresa responsável pelo gerenciamento do hospital de campanha do estádio Mané Garrincha. O contrato é de cerca de R$ 70 milhões. Já em São Paulo, a promotoria está de olho em Mauá, na região metropolitana. A suspeita é de que a prefeitura tenha pago um valor 700% maior na aquisição de 30 leitos para o hospital de campanha da cidade.

"O que chama a atenção é o elevado custo tanto da estrutura quanto da prestação de serviço propriamente dita. Aparenta ser desproporcional, ser desigual, em relação a outras contratações feitas por outros municípios, como por exemplo, de São Paulo e Mogi das Cruzes", destacou o promotor de justiça responsável pelo inquérito, José Luiz Saikali.

O regime de contratações públicas foi flexibilizado por causa da pandemia do novo coronavírus. Com isso, a necessidade de licitação para contratações emergenciais de atendimento à saúde foi extinta. Mas isso não exime as autoridades de serem transparentes, como explica o professor de Direito Administrativo da Universidade de São Paulo, Gustavo Justino de Oliveira.

"Existe uma flexibilização, mas existe sim a necessidade de comprovar o valor da aquisição. O gestor público, por exemplo, precisa fazer uma estimativa de preços. Essa estimativa de preços só em alguns casos vai ser excepcionada, deixada de lado. Ele precisa também verificar a documentação de uma empresa para saber se é uma empresa idônea, se tem experiência naquela área. Então, há uma série de requisitos que precisam ser observados".

Por dentro de um hospital de campanha

Para entender o funcionamento dos hospitais de campanha, a CNN teve acesso ao Hospital Municipal de Campanha do Pacaembu, em São Paulo, o primeiro do país. A unidade oferece 200 leitos e foi erguida no início de abril, em dez dias. Dos 1182 pacientes atendidos desde a implantação, 860 foram curados da Covid-19. Um óbito foi registrado, de um morador em situação de rua que tinha comorbidades, segundo informações da direção da unidade.

Os profissionais que atuam no local explicaram que, numa pandemia, os hospitais de campanha têm a função de desafogar o sistema de saúde das cidades, que não tem capacidade para receber tanta gente ao mesmo tempo. Essas estruturas são recomendas pela OMS, a Organização Mundial da Saúde. Sem elas, o risco de colapso dos hospitais é grande. 

"O hospital de campanha é muito importante para absorver a demanda dos hospitais que já estão sobrecarregados. Recebemos pacientes de leve a moderada complexidade. Então, o hospital de campanha é fundamental para dar esse suporte. É como um pulmão, uma válvula para dar suporte. Sem hospital de campanha, com certeza, essa população de pacientes teria menos chances, ou não teria chance alguma", explica a enfermeira Juliana Silva Cruz, uma das mais de 500 profissionais de saúde que atuam no local. 

Ala interna do Hospital Municipal de Campanha do Pacaembu
Foto: Talis Mauricio/CNN

O Hospital de Campanha do Pacaembu funciona 24 horas. A entrada da CNN foi autorizada pela Prefeitura de São Paulo e o hospital Albert Einstein, responsável pela administração. Nossa equipe seguiu todas as regras de segurança, entre elas a paramentação. Parte da vestimenta é colocada no mesmo vestiário onde os atletas, antes, se preparavam para um jogo de futebol. A diferença é que, agora, a partida é pela vida. 

O técnico em enfermagem Heber Souza é do Rio de Janeiro e, há dois anos, esteve no Pacaembu para assistir Corinthians e Fluminense. Nunca imaginou que voltaria nas atuais condições. "Jamais iria passar pela minha cabeça que nós estaríamos nesse palco, adentrando, né. Porque nós [profissionais da saúde] nos vestimos lá, no vestiário deles [atletas], nos paramentamos e adentramos literalmente em campo para poder atender os pacientes que precisam dos nossos cuidados. Salvar vidas, esse é o nosso lema. A enfermagem luta a favor da vida”, disse, emocionado. 

Dentro da tenda onde ficam os pacientes com Covid-19, os leitos são disponibilizados lado a lado, por uma distância de aproximadamente um metro cada. As alas de atendimento são divididas por letras. Tivemos acesso à ala K, onde ficam pacientes em estado leve. Foi lá que conhecemos o manobrista Edson Carlos da Silva, de 54 anos. Ainda fraco, ele conversou conosco e disse que ficou dez dias entubado. "Eu achava que, pela idade, não sairia dessa. Fiquei dez dias entubado e cheguei num hospital, quando acordei, já estava em outro. A doença está aí, eu sei disso, porque eu fiquei apagado por dez dias, inconsciente. Só consegui sair dessa mesmo por milagre de Deus", disse.

Manobrista Edson Carlos da Silva, de 54 anos, que ficou dez dias em respiração artificial no Hospital Municipal de Campanha do Pacaembu
Foto: Talis Mauricio/CNN

Na visita virtual que teve com a família, via telefone, Edson mandou uma mensagem aos familiares, com lágrimas nos olhos: “Se cuidem, essa doença é muito grave. Não facilitem. Fiquem em casa, por favor”. 

Em outro leito, o aposentado José Paulo da Costa, de 88 anos, só pensava na família e no retorno para casa. “Quando eu voltar para casa vou terminar de me tratar, né meu filho. Cuidar dos meus probleminhas nas pernas, braços. Cortar o cabelo, fazer barba, ficar mais elegante (risos). E, claro, pedir a Deus que não volte mais essa doença pra mim, nem pra ninguém". 

Gripe espanhola

Há aproximadamente 100 anos o Brasil também precisou de hospitais de campanha. Segundo registros históricos, foi durante a pandemia da gripe espanhola. Em 1919, um presidente brasileiro, Rodrigues Alves, morreu da doença, aos 70 anos. Estima-se que até 50 milhões de pessoas tenham morrido em todo o mundo de gripe espanhola. Cerca de 35 mil só no Brasil.

Autor do livro "Pandemias - a Humanidade em Risco", o médico infectologista Stefan Cunha Ujvari conta que vários locais no país foram usados para atender pacientes infectados. "Na Gripe Espanhola, clubes forneceram alojamentos para enfermarias, fábricas também, entidades religiosas. Nos Estados Unidos, por exemplo, os ginásios das universidades ficaram lotados de camas, de leitos hospitalares, para acomodar as pessoas doentes". 

Outro lado

Sobre as suspeitas de irregularidades citadas na reportagem, a Prefeitura de Mauá, na Grande São Paulo, informou que a apuração do Ministério Público Estadual está baseada em comparações equivocadas, e que não há fraudes na contratação do hospital de campanha.

A Secretaria de Saúde do Distrito Federal declarou que apenas uma empresa apresentou proposta para a construção do Hospital de Campanha do estádio Mané Garrincha, e que o contrato seguiu os trâmites legais, com base em análises técnicas e de preços.

Já a Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro informou que criou um comitê de fiscalização para apurar eventuais denúncias de irregularidades na construção dos hospitais de campanha. O órgão faz apurações diárias e acompanha o andamento das obras. A pasta declarou, ainda, que a compra de equipamentos, contratação de pessoal e abertura de leitos são alguns dos temas abordados junto a OS Iabas, responsável por erguer e operar sete hospitais de campanha no Rio, região metropolitana e interior.