Estamos escondendo nossas emoções com máscaras? Não necessariamente

Segundo especialista em comunicação, maioria das pessoas consegue detectar sentimentos apenas pela expressão dos olhos e das sobrancelhas

Katie Hunt, da CNN
15 de junho de 2020 às 15:10
Especialista em comunicação afirma que a parte superior do nosso rosto compensa a presença da máscara para expressar as emoções
Foto: Reprodução/Pixabay

O Reino Unido é o último de uma longa lista de países a tornar obrigatório o uso de máscaras para retardar a propagação da Covid-19, com coberturas faciais obrigatórias no transporte público a partir de 15 de junho.

Muitos já estão optando por usar uma máscara ao fazer compras, encontrar amigos ou consultar um médico. Mas usar uma máscara afeta o modo como interagimos ou nos comunicamos com os outros?

Um sorriso é uma maneira fácil de aliviar as tensões sociais, mas isso ainda é possível quando uma máscara está cobrindo a metade inferior do rosto? E as emoções das pessoas que encontramos serão mais difíceis de decodificar?

A CNN conversou com a especialista em comunicação Ursula Hess, psicóloga e professora da Universidade Humboldt, de Berlim, e de psicopatologia do desenvolvimento na Universidade de Cambridge.

Como comunicamos emoções

De acordo com Hess, é errado supor que as máscaras dificultarão a interação.

Expressamos nossos sentimentos de muitas maneiras diferentes, que não dependem da parte inferior do rosto, disse ela. Pode ser algo sutil, como levantar uma sobrancelha, por exemplo, ou explícito, como bater com o punho na mesa.

Além do mais, de acordo com a professora, sorrisos não precisam ser vistos: eles podem ser ouvidos. Isso ocorre porque a voz é alterada quando a boca muda de forma. “A diferença é clara. Todos podemos ouvir quando alguém está sorrindo ao telefone.”

E algumas emoções não aparecem em nossos rostos, acrescentou. Esperança, por exemplo.

“Como você poderia comunicar esperança na sua face? Mas temos essa expressão ‘com uma voz esperançosa’, o que nos faz pensar que vozes podem expressar esperança – mas não os rostos."

Está tudo no olhar

Hess explica que a maioria das pessoas é boa em detectar uma variedade de emoções diferentes nos olhos e na parte superior do rosto, mesmo que não perceba isso. Uma avaliação amplamente usada, desenvolvida na década de 1990 para ajudar a detectar o autismo, criada pelo psicólogo britânico Simon Baron-Cohen, mostrou que a maioria das pessoas pode reconhecer estados mentais sutis, como estar pensativo, apenas observando as mudanças na expressão dos olhos.

O teste "A leitura da mente nos olhos" mede como você consegue ler as emoções dos outros. Como explica Hess, as pessoas são convidadas a olhar para fotos de diferentes áreas ao redor dos olhos e atribuir a elas os estados emocionais corretos. Você pode fazer o teste aqui (em inglês).

Leia também:

A Ásia pode estar certa sobre o uso de máscaras, o que o resto do mundo só percebe agora

A professora conta que normalmente nossos olhos são atraídos para a atividade e, se a boca estiver coberta, focaremos na parte superior do rosto.

“Você vê mais do que apenas os olhos; você vê toda a região. Você vê as rugas na testa, as rugas entre os olhos, e a subida das bochechas quando a pessoa sorri", explicou.

“Você deveria pensar duas vezes antes de aplicar botox. Se você está cobrindo a boca e imobilizando a parte superior do rosto, não está favorecendo seu parceiro de interação”.

Medo e surpresa

Existem algumas emoções, no entanto, que podem ser difíceis de decodificar se você não conseguir ver a boca de alguém.

“No medo e na surpresa, a parte de cima do rosto fica parecida. A principal diferença é o formato da boca, que é mais relaxado na surpresa e mais esticado para as laterais no medo. É um forte candidato à confusão.”

Para pais preocupados com o fato de as máscaras poderem assustar as crianças na volta às aulas, a professora diz que isso não deve afetar a maior parte das crianças com mais de cinco anos.

“Sabemos pela pesquisa comportamental que as crianças são muito boas em reconhecer as emoções alheias assim que entram na escola, e elas têm acesso às mesmas ferramentas dos adultos.”

“Quando são muito pequenas, coisas que cobrem o rosto podem ser perturbadoras para as crianças. Elas podem ter medo de barbas, por exemplo", disse.

Hess acrescentou: “Mas é uma questão de hábito. Elas vão se acostumar com o fato de mamãe e papai usarem essas coisas engraçadas no rosto”.

As máscaras também não devem interferir na natureza contagiosa das emoções. Hess estudou em profundidade como imitamos os sentimentos dos outros – lágrimas nos olhos quando vemos alguém chorar, medo ao ver alguém tremer de medo ou feliz ao ver alguém sorrir.

Em uma nova pesquisa ainda não publicada em uma revista científica, a psicóloga e professora analisou como os indivíduos reagiam às pessoas que usavam cachecol e niqab [o véu usado por algumas mulheres muçulmanas para cobrir o rosto], mas mantêm a área dos olhos limpa.

“Percebemos que eles continuavam imitando as expressões das outras pessoas, embora pudessem vê-las apenas parcialmente", disse ela.

Como você se sente em relação às máscaras?

Enquanto Hess afirma que a maioria de nós tem as habilidades inatas para decodificar e responder às emoções da região dos olhos, outros fatores em jogo podem interferir no fato de fazermos isso.

Por exemplo, o que um indivíduo sente sobre os méritos do uso de máscaras provavelmente afetará a forma como ele se comunica com alguém que está usando uma cobertura facial. A orientação oficial em lugares como os EUA e o Reino Unido tem sido contraditória, principalmente nos primeiros dias da pandemia, levando à confusão sobre o uso da máscara.

No caso dos Estados Unidos, o uso de máscaras se tornou uma questão controversa, que uma reportagem recente da CNN definiu como um "ponto de inflamação política e cultural".

“Máscaras são uma forma de sinal social – elas dizem algo sobre a pessoa que a usa”, pontuou a pesquisadora.

“Se você acha que usar uma máscara é desnecessário ou total idiotice, isso pode fazer com que você desenvolva preconceitos com quem o faz, dificultando a comunicação."

O inverso também é verdadeiro.

“Mas se você entender as razões por trás das máscaras e as apoia, terá uma perspectiva totalmente diferente da pessoa com cobertura facial, e a comunicação provavelmente será muito mais suave".

Na realidade atual, até que os pesquisadores desenvolvam uma vacina eficaz, precisaremos nos acostumar com a prática de medidas preventivas, como o uso de máscaras.

(Este texto foi traduzido da CNN Internacional, para ler o original em inglês clique aqui)