Aulas online deixam bullying escolar em segundo plano

Lisa Selin Davis, da CNN
17 de junho de 2020 às 10:11
Estudante em frente ao computador.
As aulas online criaram um ambiente que simplificou a dinâmica social dos alunos em alguns casos, aliviando o bullying e a pressão das mídias sociais.
Foto: Fizkes/Shutterstock

Quando estava fisicamente presente na escola, Angelina Fusco era "zoada" por muitos de seus colegas. Os "amigos", ou assim ela pensava, falavam que ela era pegajosa, irritante e rude. 

Faziam planos na frente dela, sem convidá-la. Perguntavam: “Por que você lê tanto? Por que você se veste assim?”.

“Eu normalmente deixava as pessoas passarem por cima de mim e falarem o que quisessem, e mesmo que me machucassem, eu não as enfrentava”, disse a estudante de 14 anos. Angelina gostava do trabalho escolar em si, mas conviver com as amizades no ambiente era doloroso e avassalador. Além disso, os professores que tentaram intervir mostraram-se ineficazes. Até que, em janeiro, ela se cansou.

Mesmo antes da pandemia fechar a maioria das escolas físicas, com a ajuda dos pais, Angelina se matriculou em uma escola on-line chamada Western Christian Academy. Lá, ela é capaz de aprender no próprio ritmo, sem os valentões (ou bullies) para distraí-la ou perturbá-la.

Com o avanço da pandemia, a rápida transição para a escola online (para aqueles que não fizeram essa escolha livremente) veio com muitas desvantagens, desde o aumento da desigualdade até a chamada “queda pela Covid-19”, na qual que as crianças perdem parte do aprendizado deste ano, ficando menos preparadas para avançar.

No entanto, depois que milhões de crianças em idade escolar foram, repentinamente, transferidas para a escola cibernética, algumas estão encontrando uma vantagem surpreendente: dinâmicas sociais complicadas podem simplificar, às vezes desaparecer, à medida que aprendem de forma online.

Um declínio no drama digital

A escola online pode ter menos do que os psicólogos chamam de “drama digital”, quando comportamentos excludentes e cruéis, como os que Angelina experimentou, se transferem para o mundo cibernético.

Isso pode incluir coisas como postar fotos de festas no Instagram e fazer com que aqueles que não foram convidados se sintam deixados de fora. Não é o cyberbullying, no qual uma criança é alvo de ataques por um período prolongado, mas sim o comportamento que faz com que ela se sinta excluída, ferida, triste e confusa.

Tal comportamento pode estar em queda, simplesmente, porque as crianças não estão nos mesmos espaços para criar, pessoalmente, o drama que levam para o mundo virtual.

“O drama digital é frequentemente uma extensão do que acontece na escola”, disse Diana Graber, autora de "Raising Humans in a Digital World" (“Criando seres humanos em um mundo digital”, em tradução livre) e fundadora da Cyber Civics, entidade que ensina alfabetização digital a crianças em 44 estados dos EUA e mais sete países. “Como eles não estão vivendo isso no cotidiano da escola, isso não está penetrando na vida online”.

“Durante a pandemia, ouvi inúmeros exemplos de bons comportamentos, de crianças demonstrando crescente empatia pelos outros”, relatou Stacey Kite, professora da Faculdade de Artes e Ciências da Johnson & Wales University e especialista em bullying.

“Além disso, as crianças que não querem ir à escola porque sofrem bullying estão agora indo muito bem com o aprendizado online e encontrando maneiras de se conectar com seus colegas por esse modo, que pode se transformar em amizades reais”, completou a professora.

Uma razão para isso é que a ausência física gera mais afeição. “As crianças sentem saudades dos seus colegas e falta de pessoas com quem nem estavam tão perto antes”, explicou a autora.

Podando os contatos

Graber observou e ouviu falar de crianças sendo menos excludentes do que eram antes da Covid-19, agora que precisam interagir com colegas online ou em pequenos grupos com a supervisão dos professores. “Além disso, aquelas normalmente tímidas em contato pessoal, muitas vezes acham mais fácil se comunicar com colegas virtualmente”, comentou.

Segundo contou a professora da minha filha mais velha, na sala de aula dela as crianças que mais perturbavam os outros se acalmaram, estão fazendo o trabalho e não estão brigando com outros alunos.

Crianças e adolescentes podem ser muito mais intencionais sobre com quem interagem no mundo virtual.

Os únicos amigos com quem Angelina interage são os que ela escolhe – digitalmente, por enquanto. Eles não estão sujeitos aos caprichos e crueldades das panelinhas, ao clima muitas vezes cruel das lanchonetes e pátios no intervalo, onde essas crueldades se desenrolam às costas dos adultos.

A crueldade ainda encontra seu caminho

Isso não quer dizer que o cyberbullying tenha sido apagado ou que algumas crianças não continuam sendo cruéis.

Uma em cada três crianças em 30 países foi vítima de bullying online, de acordo com uma pesquisa divulgada em setembro de 2019 pela UNICEF e pela Representante Especial da ONU sobre Violência contra Crianças. Um em cada cinco deixou a escola por causa disso. Além disso, 15,5% dos estudantes do ensino médio foram vítimas de cyberbullying, segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA em 2017.

O problema não desapareceu completamente.

Uma mãe de uma escola pública de Boston disse que uma aluna da escola primária descobriu como invadir o email de outra criança e enviou mensagens de intimidação aos colegas. 

“Ela estava apenas procurando atenção”, aliviou a mãe, e os administradores da escola, pais e professores se reuniram para conversar com a aluna e sua família.

Mas Graber disse que, embora alguns previssem que a transição para a escola online fosse multiplicar esses incidentes, “procuramos evidências de que o cyberbullying aumentou durante a Covid-19, e realmente não encontramos nenhum dado sólido para apoiar esse fato – felizmente”.

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Não é o novo normal

Em algum momento, obviamente, a maioria das crianças retornará à escola física. E mesmo essas instituições educacionais de ensino à distância geralmente têm algum componente pessoal.

Muitos seguem um modelo de “aprendizado misto”, no qual as crianças aprendem em seu próprio ritmo, em casa, e veem pessoalmente seus colegas de classe para estudar em pequenos grupos ou eventos sociais. Eles precisam de amigos e precisam vê-los na vida real.

“Nós retiramos algo que é muito necessário no estágio de desenvolvimento”, disse Graber.

Angelina conta que conhece menos pessoas agora, mas as que ela conhece são mais gentis, mais generosas e mais divertidas. “Eu procuro sair com gente que não é tóxica para mim", disse.

Mas se as crianças estão se comportando melhor online, os adultos não estão seguindo o mesmo caminho. “O discurso de ódio vem aumentando entre os adultos”, revelou Graber. “É triste, porque as crianças nos veem como modelo. Espero que elas olhem para isso e sigam na direção oposta”.

Lisa Selin Davisé a autora de “Tomboy:The Surprising History and Future of Girls Who Dare to Be Different” [“Tomboy: A história surpreendente e o futuro das meninas que ousam ser diferentes”, em tradução livre]. Ela escreve para o New York Times, CNN, The Wall Street Journal, The Guardian e muitos outros veículos.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).