O que significa platô em uma pandemia? Epidemiologista explica


Paula Mariane, da CNN em São Paulo
03 de julho de 2020 às 18:02
Testes, coronavírus, Covid-19

Profissionais da saúde aplicam testes para detecção do novo coronavírus em São Paulo

Foto: Amanda Perobelli - 26.jun.2020/Reuters

Durante a pandemia do novo coronavírus, a palavra “platô” foi utilizada em diversos contextos por representantes da sociedade ao tratar de uma possível estabilização no número de casos e mortes pela doença. Mas o que isso significa, afinal? 

Na área médica, há uma estratégia para descrever o comportamento das doenças, dividindo-a em três fatores: o indivíduo, o lugar e o tempo.

“Se você observar nos boletins epidemiológicos, há sempre uma distribuição da doença em um determinado tempo, um pequeno mapa que mostra a distribuição geográfica dos casos [o lugar] e tem também as características relacionadas às pessoas, como idade, sexo etc.”, explica o epidemiologista e professor da Unicamp Marcelo de Carvalho Ramos.

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Para compreender estas informações, Ramos explica que é preciso organizar uma curva de incidência, “que leva em conta o tempo, como o dia e o mês em que pessoas ficaram doentes, e a quantidade de doenças de maneira acumulativa”. 

Ele continua: “Há uma doença infecciosa que entrou numa população que é inteiramente suscetível. Ela vai acometer todo mundo: a hora que as pessoas morrerem ou se curarem, as elas vão ficando resistentes àquele agente. A hora que o agente [infeccioso] alcançar a maioria da população, geralmente algo em torno de 70% da população, esse número de casos começa a se extinguir”. 

Neste estágio da contaminação, uma redução no número de casos em relação aos dias acontece. “Então, a curva que está se dirigindo na vertical começa a dobrar, que nem a bengala, porque a doença não encontra mais suscetíveis na população”, explica Ramos. 

“A hora que ela começa a dobrar, é a hora que a gente chama de platô. É a hora que a curva começa a envergar.”

Platô natural x artificial 

Se para acontecer o platô é necessário que 70% da população tenha contato com o vírus, como isso seria na prática? “O platô natural é um desastre”, alerta o médico. O epidemiologista explica que, neste caso, para evitar esta situação, há formas de criar um platô “artificial” – por meio de intervenções, como a quarentena e as medidas restritivas – de modo que a população fique menos exposta ao vírus.  

“A intervenção, por exemplo, pode ser vacinar as pessoas. Ao invés das pessoas se tornarem resistentes porque se infectaram, elas se tornam resistentes porque tomaram uma vacina. Esse agente não vai encontrar onde se propagar.” 

É possível exemplificar a situação de um platô natural: segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o estado de São Paulo tem 45 milhões de habitantes. Se esperássemos por este platô, por exemplo, 32 milhões de habitantes precisariam ter contato com o vírus. Na visão de Ramos, isso causaria um grande número de mortes, além de um enorme colapso no sistema de saúde. 

“Se você não tiver um lugar para internar, a mortalidade vai ser maior ainda. Isso seria um desastre”, explica. Para ele, a melhor forma de “achatar” a curva, ou seja, alcançar um platô, é por meio de uma intervenção. 

“A estratégia da quarentena é a melhor que existe pra não deixar a população adoecer”. Além disso, Ramos ressalta a eficácia do uso de máscaras e a lavagem das mãos e superfícies para evitar o contágio. 

“Por exemplo, [na medicina, pode existir um] remédio que se eu der para a pessoa, elas não adoecem. A gente chama isso de profilaxia. No caso da Covid-19, não temos isso. Nem vacina e nem profilaxia”, alerta. “A única estratégia que a gente dispõe para fazer curva envergar, é atuar sobre contágio.”

Esse tipo de intervenção também pode, portanto, levar ao platô. “Artificialmente – porque é uma intervenção e não deixo a doença evoluir à própria sorte – faço a curva dobrar. Esse também é um platô, mas é um platô artificial.” 

E quando há uma flexibilização nas medidas restritivas? Neste contexto, o número de casos e mortes podem voltar a crescer. “A hora que eu suprimir essas medidas, a doença pode voltar a crescer. Estamos vendo isso acontecer.”

Neste caso, Ramos defende que as medidas de proteção continuem sendo aplicadas, de modo que a população consiga exercer suas atividades com maior segurança.

“A estratégia é diminuir o contágio o máximo possível para que a gente possa dar conta de tratar os casos e dar tempo de aparecer uma vacina que, eu acredito, é a única coisa que vai resolver esse problema”, conclui.