Como funcionam as técnicas mais usadas na produção de vacinas contra a Covid-19


Luana Franzão e Karla Chaves Da CNN, em São Paulo
11 de agosto de 2020 às 18:30 | Atualizado 11 de agosto de 2020 às 18:51

Enquanto nenhum tratamento contra a Covid-19 tem eficácia comprovada, os cientistas correm atrás da produção de vacinas contra o novo coronavírus, e vários métodos de produção estão sendo testados.

Em entrevista à CNN, Gustavo Cabral, imunologista formado em Oxford, Reino Unido, e Berna (Suíça), tirou dúvidas sobre o assunto.

Entenda as principais técnicas em andamento no momento:

Vírus morto ou atenuado

Essa técnica é amplamente utilizada em vacinas já aprovadas, como a vacina da gripe, por exemplo. Por se tratar de um método já conhecido, seus efeitos a longo prazo não são um mistério para os imunologistas, algo positivo para a execução de projetos de novas vacinas.

“Essa estratégia de trabalhar com o vírus inativado, ou seja, morto, já foi utilizada para várias outras vacinas, então nós já sabemos os prós e os contras”, afirmou Gustavo Cabral. 

Segundo dados da Fiocruz (Fundação Instituto Oswaldo Cruz), o procedimento consiste em injetar vírus inativados por agentes químicos ou físicos no organismo, fazendo com que o sistema imunológico identifique o invasor e produza defesas contra ele. Assim, quando o corpo entrar em contato com o vírus ativo, não será infectado.

Uma variação famosa dessa tática é o uso do vírus atenuado. Neste caso, o vírus não está completamente inativado. Ele está ativo, ou seja, sem capacidade de desenvolver a doença. Algumas vacinas que usam esse método são as contra a febre amarela e a poliomielite (oral). 

A farmacêutica chinesa Sinovac está testando vacinas contra o novo coronavírus produzidas através desse método. O projeto está sendo testado no Brasil em parceria com o Instituto Butantan. 

A desvantagem desse método, segundo Cabral, é o fato de que ele utiliza o vírus inteiro. "Como estamos trabalhando com um vírus que se espalhou pelo mundo inteiro, precisamos entender se ele tem associação com outros coronavírus, por exemplo, SARS-CoV-1 e o MERS. Países que tem esses outros coronavírus, precisam saber se ele faz uma associação entre um vírus e outro", afirmou.

Na prática, isso significa que pode existir uma chance de que os anticorpos produzidos para a Covid-19 podem afetar a imunidade do organismo contra outros tipos de coronavírus. "Um exemplo, para esclarecer, é o vírus da dengue. Por exemplo, quando a pessoa adoece pelo vírus do soro tipo 1, nos protegemos do soro tipo 1. Mas se a infecção acontece novamente, mas pelo soro tipo 2, ao invésde proteger, pode levar a doença a se tornar mais grave, como a dengue hemorrágica. Então essa ligação ao invés de proteger pode induzir a piorar outra doença", explicou. 

Engenharia genética

Outro método utilizado atualmente é produzido através da engenharia genética. Ele utiliza a informação genética de patógenos responsáveis pela codificação de proteínas importantes para a prevenção, segundo informações da Fiocruz.

Essa técnica é usada em vacinas como a contra a hepatite B e contra o papilomavírus, ou seja, a vacina do HPV. Ela também está sendo utilizada pela pesquisa de Cabral para o desenvolvimento de uma vacina brasileira contra a Covid-19.

“Nós sabemos que quando o vírus chega no corpo, o sistema imunológico reage, ‘isso é estranho vamos atacar’. Então usamos partículas que são semelhantes, mas que não têm nenhum material genético, é só um emaranhado de proteínas. Elas são quase iguais ao vírus. Então naquilo ali, colocamos pequenos pedaços do coronavírus - ou de outros patógenos, a depender da vacina desenvolvida - e inserimos no corpo, que gera uma resposta imunológica contra aquele vírus 'fake' (nesse caso um fake bom)”, disse o cientista à CNN

Um dos empecilhos para a produção extensiva desse tipo de vacina é a dificuldade na produção em massa no Brasil, por ser uma tecnologia cara e avançada. 

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Novas técnicas

Na corrida contra o tempo por uma vacina contra o novo coronavírus, alguns novos métodos de produção estão sendo testados. 

A Moderna, farmacêutica estadunidense está desenvolvendo uma vacina que induz a imunização através da utilização do RNA mensageiro (mRNA).

“Isso é como se fosse um passo a mais para encurtar o processo de produção da vacina”, afirmou Cabral. Nessa técnica, a cadeia de proteínas do mRNA é produzida em laboratório e encapsulada para que possa ser introduzida no organismo. Este, ao entender as informações fornecidas, seria capaz de produzir células que sejam capazes de combater o invasor.

Apesar de ser uma tecnologia muito avançada, alguns empecilhos podem atrasar a chegada dela para a população geral. Nenhuma vacina aprovada para uso em seres humanos anteriormente a utilizava. Além disso, a substância seria instável e precisaria de muitos cuidados e refrigeramento, dificultando seu acesso à regiões mais remotas.

Enquanto isso, a Universidade de Oxford, em parceria com a farmacêutica AstraZeneca está testando uma tecnologia também inovadora, mas diferente da citada anteriormente. 

“A estratégia que eles usam é chamada de 'vetores virais'. Basicamente se usa um vírus chamado 'adenovírus', um adenovírus do macaco. Se modifica o vírus acrescentando uma parte do vírus do corona, o SARS-CoV-2. E injeta esse vírus na cobaia, primeiro utilizou ratinhos, macacos, e agora está testando em seres humanos”, explicou o pesquisador.

Essa tática já funcionou em vacinas feitas contra outros tipos de coronavírus, mas ainda não se concluiu seu impacto no organismo humano na defesa do SARS-CoV-2.

Dr. Gustavo Cabral e Karla Chaves conversam em frente à fundo com coronavírus

Dr. Gustavo Cabral responde às perguntas acerca das pesquisas em vacinas contra a Covid-19

Foto: CNN Brasil