China diz que não há necessidade de vacinar toda a população contra Covid-19


Jessie Yeung, da CNN
14 de setembro de 2020 às 09:00 | Atualizado 14 de setembro de 2020 às 09:14
Pesquisadores da Coronavac, a vacina chinesa, fazem procedimentos em laboratório

Pesquisadores da Coronavac, a vacina chinesa, fazem procedimentos em laboratório

Foto: CNN (11.set.2020)

Nem todos na China precisarão ser vacinados contra o novo coronavírus, de acordo com Gao Fu, diretor do Centro Chinês para Controle e Prevenção de Doenças (CDC), já que Pequim busca priorizar trabalhadores da área da saúde e as populações de alto risco em uma ação que reforça a confiança crescente do país em sua capacidade de conter o vírus.

"Desde que a primeira onda de Covid-19 apareceu em Wuhan, a China já sobreviveu ao impacto da Covid-19 várias vezes", afirmou Gao, em uma cúpula de vacinas na cidade de Shenzhen no sábado (12), de acordo com a agência de notícias estatal China News Service.

A questão de vacinar a população envolve equilibrar "riscos e benefícios", acrescentou ele, apontando para fatores como custo e potenciais efeitos colaterais. “Atualmente, não há necessidade de vacinação em massa neste estágio – embora isso possa mudar se outro surto grave ocorrer”, disse Gao.

Essa política distingue a China de muitos governos, principalmente da Austrália, que traçaram planos para realizar campanhas de vacinação em massa.

Os números de infecções pelo novo coronavírus na China permanecem baixos há vários meses. Houve alguns surtos – concentrados na província de Jilin em maio, um surto em Pequim em junho e outro na capital de Xinjiang, Urumqi, em julho – mas eles foram atendidos com medidas imediatas de bloqueio e testes em massa, e contidos em poucas semanas.

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Gao citou esses breves surtos como evidência das medidas eficazes de contenção da China. "Os fatos provaram que temos várias armas mágicas para responder à epidemia", disse ele, de acordo com o China News Service.

Qualquer vacina potencial será priorizada para aqueles na linha de frente de combate a doença: médicos, cidadãos chineses que trabalham no exterior em locais com circulação do vírus e pessoas que trabalham em ambientes densos e de alto risco, como restaurantes, escolas ou serviços de limpeza, explicou Gao.

No sábado, a Comissão Nacional de Saúde da China (NHC) registrou apenas 10 novos casos confirmados sintomáticos na China, todos importados do exterior. Também relatou 70 novos casos assintomáticos, que são contados separadamente, todos também importados.

A CNN entrou em contato com a NHC para obter mais informações.

Corrida global pela vacina

Apesar dos comentários de Gao, a China tem sido um dos mais importantes players na corrida global para desenvolver uma vacina contra o novo coronavírus.

A China é o maior produtor e consumidor mundial de vacinas e pode fornecer mais de 1 bilhão de doses de vacinas, anualmente, a partir de 40 fabricantes em todo o país, de acordo com o Relatório da Indústria de Vacinas Humanas da China 2018-2022.

Profissional de saúde segura caixa da Coronavac, vacina contra Covid-19

Profissional de saúde segura caixa da Coronavac, vacina contra Covid-19 da chinesa Sinovac, durante testes em Porto Alegre

Foto: Diego Vara - 8.ago.2020/ Reuters

Das mais de 30 vacinas contra Covid-19 atualmente em testes em humanos em todo o mundo, 9 são da China – o país com a maior quantidade. E entre nove vacinas em testes de estágio final, quatro são desenvolvidas por empresas chinesas.

Na semana passada, a Universidade de Hong Kong anunciou que foram aprovados testes clínicos para uma vacina em spray nasal, desenvolvida em colaboração com pesquisadores da China continental.

E a China já colocou em uso algumas vacinas antes de sua eficácia ser totalmente comprovada.

No final de junho, o país aprovou uma vacina experimental para uso por seus militares. E, desde julho, a China tem usado uma vacina experimental em pessoas que trabalham em empregos de "alto risco", como médicos e agentes de fronteira. Nenhuma das vacinas concluiu os testes clínicos de Fase 3.

Outros países podem seguir o exemplo. O ministro da saúde indiano disse no domingo (13) que o governo estava considerando conceder autorização de emergência para vacinas contra Covid-19 antes da conclusão dos testes de Fase 3.

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O próprio Gao recebeu uma vacina experimental em julho, em um movimento que "pretendia aumentar a confiança do público nas vacinas", de acordo com o jornal estatal Global Times.

Especialistas disseram anteriormente que a vacinação é fundamental para países como a China, onde a porcentagem de pessoas infectadas na população é relativamente baixa devido a medidas de contenção rígidas.

"A imunidade geral é muito baixa. Então, nesses lugares, definitivamente o caminho a seguir são as vacinações", disse Ivan Hung, especialista em doenças infecciosas da Escola de Medicina da Universidade de Hong Kong, no final de agosto.

Mas Gao alertou no sábado que o desenvolvimento da vacina ainda é um trabalho em andamento, com riscos de efeitos colaterais indesejados.

"Uma vez que nunca houve uma vacina contra Covid-19 desenvolvida antes, o que torna este caso o primeiro na ciência, é possível que ela possa induzir efeitos ADE (aprimoramento dependente de anticorpos) como qualquer outra inovação que possivelmente enfrentaremos", disse ele, de acordo com o Global Times.

ADE é quando anticorpos específicos ajudam um vírus a entrar nas células e se replicar – ou seja, quando um tratamento piora a doença. “A pesquisa científica é um processo muito rigoroso, precisamos dar aos cientistas um pouco mais de tempo”, acrescentou.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês)