Correspondente Médico: O que é imunidade de rebanho e quais as consequências?

De acordo com o neurocientista Fernando Gomes, esse estágio de imunização 'acontece naturalmente', mas pode ser ao custo de mortes e sofrimento

Da CNN
23 de setembro de 2020 às 10:00

Na edição desta quarta-feira (23) do quadro Correspondente Médico, do Novo Dia, o neurocientista Fernando Gomes esclarece o que é a imunidade de rebanho e quais as consequências – positivas e negativas – diante de uma doença como a Covid-19.

Um estudo preliminar, realizado por pesquisadores brasileiros em cooperação com instituições internacionais, sugere que a cidade de Manaus, capital do Amazonas, já atingiu a imunidade de rebanho contra a Covid-19. Cerca de 66% de população já teria sido infectada com o novo coronavírus.

De acordo com Gomes, esse estágio de imunização "é algo que acontece naturalmente com uma doença infecciosa em uma população que ainda não tenha tido contato com agente infeccioso". 

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Correspondente Médico: o neurocientista Fernando Gomes
Correspondente Médico: o neurocientista Fernando Gomes explica o efeito da imunidade de rebanho na propagação de um vírus, mas ressalta que o custo são as vidas perdidas
Foto: CNN (23.set.2020)

"Depois que passa a onda de infecção, as pessoas que sobrevivem e criam anticorpos acabam constituindo, lenta e progressivamente, uma barreira contra a propagação do vírus", destaca.

Com metade da população protegida por imunidade de rebanho, a taxa de transmissão cai. Trata-se de um processo natural, mas com um agravante. "Independentemente do que a gente faça, isso está acontecendo no horizonte de tempo, mas o preço acaba sendo muito caro, com mortes e sofrimento. Então, se não dizima a população, acaba acontecendo dessa forma", aponta.

Gomes ressalta que a grande preocupação da pandemia era que toda a população de um local fosse infectada ao mesmo tempo e precisasse de um recurso avançado de tratamento. Diante disso, ele alerta que o isolamento e o distanciamento devem ser mantidos, e que ninguém deve se arriscar a ser infectado com o vírus a fim de criar imunidade. 

"Sé é algo pelo qual todos vão passar, que seja lento e progressivamente, porque assim teremos um sistema de saúde capaz de oferecer às pessoas, pelo menos, o direito de serem tratadas. Se todos passarem ao mesmo tempo e tivermos uma taxa muito alta de contaminação – e complicações – nenhum país do mundo conseguiria tratar de uma forma simultânea", defende.

Manaus

A pesquisa, publicada no portal MedRxiv e ainda não revisada por pares, analisou a presença de anticorpos em cerca de 6,3 mil amostras de sangue da Fundação Hospitalar de Hematologia e Hemoterapia do Amazonas entre fevereiro e agosto.

Nos dois primeiros meses analisados, menos de 1% apresentava anticorpos. Já em agosto, entre 44% e 66% das amostras apresentavam os anticorpos contra o vírus.

O número pode indicar que a cidade atingiu a imunidade de rebanho, após apresentar alta taxa de transmissão e mortalidade em março e abril e a rápida queda desses dados nos meses seguintes.

Os pesquisadores reconhecem que a amostragem é considerada pequena e inclui apenas doadores de sangue. Além disso, o estudo considera que outros fatos, como o aumento do uso de máscara e a ampla prática do isolamento social também colaboraram com a queda no número de casos na região. 

Até essa terça (22), Manaus já registrou oficialmente 47.599 casos de Covid-19 e 2.462 mortes, que representam 62% dos óbitos registrados em todo o estado.

(Com informações de Henrique Andrade, da CNN, em São Paulo)