Diretor do Butantan nega reação adversa grave em testes da Coronavac

Em entrevista coletiva, Dimas Covas diz que evento adverso com voluntário não tem relação com a vacina e questiona forma como Anvisa interrompeu estudo clínico

Murillo Ferrari, da CNN, em São Paulo
10 de novembro de 2020 às 11:24 | Atualizado 10 de novembro de 2020 às 13:27

O diretor-geral do Instituto Butantan, Dimas Covas, afirmou nesta terça-feira (10) que os estudos clínicos da Coronavac não apresentaram reações adversas graves nos voluntários e questionou a forma como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) suspendeu o andamento dos testes.

"Quando fazemos um teste clínico é esperando que existam reações adversa e efeitos adversos. Essa distinção é importante. Neste estudo que está em andamento, existiram reações adversas, eu mesmo já apresentei esses dados", disse Covas, em entrevista coletiva.

"Reações que foram leves. Não tivemos nenhuma reação adversa grave. Não tivemos, não temos e continuamos a não ter", completou. Ele afirmou ainda que considerou a suspensão do estudo clínico uma notícia desagradável, que preocupa os voluntários e causa "surpresa, insegurança, e, até, indignação".

"Indignação é um sentimento, não um valor, porque o processo da forma como aconteceu, poderia ter sido diferente", afirmou, ressaltando que o Butantan é responsável por 75% das vacinas usadas pelos brasileiros e preza pela segurança das pessoas que se submetem a estudos clínicos.

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O diretor do Butantan disse que durante os testes clínicos pode haver o que é classificado como evento adverso na população do estudo, que são acontecimentos que não tem relação direta com a vacina ou o medicamento em teste.

"As pessoas tem sua vida normal, levantam, vão ao trabalho, ao lazer. Em 10 mil pessoas, podemos ter eventos os mais diversos possíveis. Por exemplo: uma dessas pessoas levanta de manhã e é atropelada depois de sair de casa e morre – não estou dizendo que foi esse o caso. Isso é um evento adverso", afirmou.

"Estamos tratando aqui de um evento adverso grave que não tem relação com a vacina. Repito: não tem relação com a vacina. Essa informação está disponível para a Anvisa desde o dia 6, quando foi notificado o evento adverso grave. A Anvisa recebeu um documento dizendo: 'um participante do estudo clínico teve um evento adverso grave não relacionado com a vacina'", explicou Covas. 

Ele disse que o esperado, neste caso, era que houvesse uma reunião para avaliar as causas do evento, mas isso só aconteceu depois da agência reguladora tornar público a interrupção dos estudos.

Coronavac
Coronavac, vacina contra a Covid-19, é testada no Brasil pelo Instituto Butantan
Foto: Governo de SP/Divulgação

"Ontem, dia 9, às 20h40, encaminharam um e-mail ao Butantan dizendo que haveria uma reunião hoje [terça-feira] para tratar do evento adverso grave, mas ao mesmo tempo anunciavam a suspensão do estudo. Vinte minutos depois, essa notícia estava em rede nacional", afirmou.

"Suspenderam um estudo clínico para causar incerteza, medo nas pessoas, fomentar um ambiente que já não é muito propício, pelo fato de ser [uma vacina] feita em associação com a China. Fomentar esse descrédito gratuito a troco de quê?", acusou.

Na mesma entrevista, João Gabbardo, coordenador-executivo do Comitê de Contingência do Coronavírus de São Paulo, disse estar chocado com o fato de alguns líderes políticos torcerem contra o sucesso da Coronavac.

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“Coincidentemente, no mesmo dia em que o governo de São Paulo anuncia a chegada das primeiras doses da vacina, que apresenta o início de obras para que o Instituto Butantan possa ter condições de produzir a vacina para toda a população e, eventualmente, até ajudar outros países, algumas pessoas festejam o fato de ter aparecido um óbito”, disse.

“E criam essa confusão para tentar desmoralizar a vacina que está sendo fabricada e produzida nessa parceria do Instituto Butantan com o laboratório [Sinovac] da China.”

Explicação da Anvisa

Em nota divulgada ainda na segunda-feira (9), a Anvisa afirmou que após a ocorrência de evento adverso grave “determinou a interrupção do estudo clínico da vacina Coronavac”. Com a interrupção do estudo, nenhum novo voluntário poderá ser vacinado. 

“O evento ocorrido no dia 29/10 foi comunicado à Anvisa, que decidiu interromper o estudo para avaliar os dados observados até o momento e julgar sobre o risco/benefício da continuidade do estudo”, diz o texto.

“Esse tipo de interrupção é prevista pelas normativas da Anvisa e faz parte dos procedimentos de Boas Práticas Clínicas esperadas para estudos clínicos conduzidos no Brasil”, completou a agência.

Reação de Bolsonaro

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Foto: Reprodução/CNN

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) se manifestou nesta terça-feira (10) sobre a interrupção dos testes da vacina Coronavac. No Facebook, ao ser questionado por um internauta sobre a possibilidade de compra da vacina em caso de comprovação científica, o presidente contestou.

Na resposta, Bolsonaro citou o governador de São Paulo João Doria (PSDB) e disse que é mais uma que o "presidente ganha ao mostrar a interrupção dos testes".

"Morte, invalidez, anomalia... Esta é uma vacina que o Doria queria obrigar a todos os paulistanos tomá-la. O presidente disse que a vacina jamais poderia ser comprada. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha", afirmou a conta oficial de Bolsonaro na rede social.