O que sabemos sobre a vacina da Moderna e como ela difere da vacina da Pfizer

Imunizantes usam tecnologia semelhante, mas têm temperaturas de transporte diferentes; veja

Eric Levenson e Jacqueline Howard, da CNN
17 de dezembro de 2020 às 15:00 | Atualizado 20 de dezembro de 2020 às 15:43
Vacina contra Covid-19 da Moderna
Foto: Adriana Toffetti/A7 Press/Estadão Conteúdo (15.dez.2020)

A vacina contra a Covid-19 produzida pela farmacêutica Moderna, aprovada para uso emergencial nos Estados Unidos, é semelhante à vacina da Pfizer-BioNTech que foi autorizada e enviada aos primeiros norte-americanos no início desta semana.

Mas existem algumas diferenças importantes. A mais crucial é que a vacina da Moderna pode ser armazenada em freezers normais e não requer uma rede de transporte superfria, tornando-a mais acessível para instalações menores e comunidades locais.

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Veja o que sabemos sobre a vacina Moderna e como ela se compara à da Pfizer.

O que é a Moderna?

Enquanto a Pfizer é uma gigante farmacêutica, a Moderna – abreviação de RNA modificado – é uma empresa de biotecnologia com sede em Cambridge, Massachusetts.

Estabelecida em 2010, a Moderna nunca lançou um produto no mercado ou obteve qualquer uma de suas nove ou mais vacinas candidatas aprovadas para uso pela FDA. Também nunca conseguiu levar um produto à fase três de um ensaio clínico anteriormente.

Os cientistas da empresa já vinham colaborando com pesquisadores dos Institutos Nacionais de Saúde em uma vacina para outro coronavírus, causador da Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers). Quando os pesquisadores chineses divulgaram a sequência genômica do novo coronavírus, causador da Covid-19, em meados de janeiro, eles já tinham um salto inicial.

A vacina, chamado mRNA-1273, teve ajuda de desenvolvimento do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas. A Autoridade de Pesquisa e Desenvolvimento de Avanço Biomédico dos Estados Unidos, conhecida pela sigla BARDA, apoiou os testes clínicos em estágio final e ajudou a aumentar a produção.

A FDA deu luz verde aos ensaios clínicos da vacina da Moderna em 3 de março, a primeiro a ser lançada. Seu ensaio clínico em estágio avançado começou em 27 de julho e foi o primeiro de Fase 3 financiado pelo governo para uma vacina para Covid-19 nos Estados Unidos. A empresa solicitou à FDA a autorização de uso emergencial da vacina em 30 de novembro.

Sede da Moderna em Massachusetts, nos Estados Unidos
Foto: Brian Snyder/Reuters (18.mai.2020)

A vacina funciona?

A vacina da Moderna foi eficaz na prevenção de casos de Covid-19 no total e na limitação de Covid-19 grave durante os testes. A eficácia da vacina contra a Covid-19 foi de 94,1%, ocorrendo pelo menos 14 dias após a segunda dose, de acordo com um documento informativo divulgado por um comitê consultivo da FDA.

No ensaio da Moderna, 15 mil participantes do estudo receberam um placebo, que é uma injeção de solução salina sem efeito. Ao longo de vários meses, 185 deles desenvolveram Covid-19, com 30 desenvolvendo formas graves da doença. Um deles morreu.

Outros 15 mil participantes receberam a vacina, e apenas 11 deles desenvolveram Covid-19. Nenhum dos 11 ficou gravemente doente.

A vacina foi eficaz em todas as faixas etárias, sexos, grupos raciais e étnicos e participantes com comorbidades médicas associadas ao alto risco de Covid-19 grave, de acordo com o documento informativo. Cerca de 10% dos participantes do estudo eram negros e 20% eram hispânicos ou latinos.

Como funciona?

Assim como a vacina da Pfizer, a da Moderna é feita usando o RNA mensageiro, ou mRNA, que é uma receita genética para fazer um pedaço dos espinhos que caracterizam o aspecto externo do coronavírus. Uma vez injetado, o sistema imunológico da pessoa vacina produz anticorpos contra os espinhos. Se uma pessoa vacinada for exposta posteriormente ao coronavírus, esses anticorpos devem estar prontos para atacar o vírus.

A vacina da Moderna, em particular, contém um mRNA sintético que codifica uma estrutura chamada “glicoproteína de espinho estabilizada em pré-fusão” do vírus.

A vacina também contém materiais gordurosos chamados lipídios, trometamina, cloridrato de trometamina, ácido acético, acetato de sódio e sacarose.

Qual a diferença entre a vacina da Moderna e a da Pfizer?

As duas vacinas são muito semelhantes, mas têm algumas diferenças importantes que tornam a vacina da Moderna “mais flexível”, segundo o Secretário de Saúde e Serviços Humanos (HHS) dos Estados Unidos, Alex Azar, disse no mês passado.

Eficácia: Tanto a vacina da Moderna quanto a da Pfizer-BioNTech mostraram níveis de eficácia semelhantes de quase 95%.

“Elas parecem ser mais ou menos equivalentes”, afirmou o doutor Paul Offit, membro do comitê consultivo de vacinas da FDA, durante uma aparição no programa “New Day” da CNN norte-americana na terça-feira (15).

Estrutura: Ambas as vacinas dependem do mRNA, ou RNA mensageiro, para funcionar, embora com estruturas e composições ligeiramente diferentes.

“Embora ambas sejam vacinas de RNA mensageiro, são moléculas de RNA mensageiro bem diferentes, com diferentes sistemas de entrega de lipídios, ou seja, o tipo de gota de gordura na qual o RNA mensageiro está localizado”, disse Offit. “É por isso que elas têm diferentes características de armazenamento e manuseio”.

Armazenamento a frio: Mais importante ainda, a vacina da Moderna não precisa ser mantida em temperaturas superfrias, como a da Pfizer.

A vacina da Pfizer precisa ser armazenada a cerca de -75 graus Celsius, cerca de 50 graus abaixo do que qualquer vacina atualmente usada nos Estados Unidos. A vacina pode ser colocada no geladeira por apenas até cinco dias antes que expire. Para acomodar isso, o CDC criou um conjunto complexo de requisitos de manuseio e armazenamento conhecidos como “cadeia de frio”, que incluem congeladores ultrafrios caros e muito gelo seco.

Em contraste, a vacina da Moderna pode ser mantida em cerca de -20 graus Celsius, valor próximo da temperatura de um freezer doméstico, de acordo com Moncef Slaoui, chefe do esforço dos EUA para desenvolver uma vacina para Covid-19. A vacina da Moderna também pode ser mantida na geladeira por 30 dias antes de expirar.

“Isso é mais administrável e muito mais comumente disponível”, afirmou Slaoui na terça-feira.

Essas diferenças sugerem que a vacina da Pfizer pode ser usada mais para grandes instituições com infraestrutura estabelecida, como hospitais, enquanto a da Moderna pode ser mais útil para instalações menores, como uma rede local ou as farmácias.

Dosagem e tempo: A vacina da Moderna é administrada em duas doses de 100 microgramas aplicadas com 28 dias de intervalo. A vacina da Pfizer é administrada em duas doses de 30 microgramas, aplicadas com 21 dias de intervalo.

Idade: Se autorizada, a vacina da Moderna seria usada em pessoas com 18 anos ou mais, enquanto a vacina Pfizer é autorizada para pessoas com 16 anos ou mais.

É segura?

A vacina tem um perfil de segurança “favorável”, diz o documento informativo à FDA, “sem preocupações específicas de segurança identificadas” que a impediriam de obter autorização de emergência.

As reações adversas mais comuns à vacina foram dores no local da injeção, fadiga, dor de cabeça, dores musculares, dores nas articulações e calafrios, de acordo com o documento. Gânglios linfáticos inchados também foram relatados.

No geral, “a frequência de eventos adversos graves não fatais foi baixa e sem desequilíbrios significativos” entre o grupo que recebeu a vacina e o grupo que recebeu o placebo. Um participante do estudo, Yasir Batalvi de 24 anos, disse à CNN que teve febre baixa, fadiga e calafrios depois de receber a segunda injeção do que ele acreditava ser a vacina real. Ele estava bem na manhã seguinte.

Slaoui, o conselheiro científico chefe da Operação Warp Speed, criada para acelerar tratamentos e vacinas, disse que cerca de 10 a 15% dos participantes dos testes que foram imunizados “tiveram efeitos adversos bastante perceptíveis”.

Quando poderei tomá-la?

Os EUA compraram inicialmente 100 milhões de doses da vacina da Moderna, e na semana passada, acertaram a compra de mais 100 milhões de doses. A Moderna começou a fabricar as primeiras 100 milhões de doses enquanto os testes clínicos estavam em andamento, segundo um comunicado do HHS.

Serão mais de 6 milhões de doses de vacinas da Moderna enviadas para mais de 3.200 locais, muito mais do que os 636 locais para os quais as vacinas da Pfizer foram enviadas.

A partir daí, as vacinas serão administradas na ordem estabelecida pelas autoridades estaduais e locais. Os consultores de vacinas do CDC recomendaram que profissionais de saúde e residentes de instalações de cuidados de longo prazo sejam os primeiros na fila para quaisquer vacinas de coronavírus que obtenham aprovação de emergência.

O correspondente médico-chefe da CNN, Sanjay Gupta, estimou que as vacinas estarão geralmente disponíveis para o público em geral no final do primeiro semestre.

Com informações de Jen Christensen, Elizabeth Cohen e Naomi Thomas, da CNN

(Texto traduzido, leia o original em inglês)