Com a chegada da vacina contra Covid-19, como lidar com o medo de agulhas?

Aicmofobia é o nome dado para quem tem medo excessivo de agulhas

Larissa Santos, colaboração para a CNN
21 de dezembro de 2020 às 05:00
Enfermeiro prepara seringa e agulha para aplicar vacina contra o novo coronavírus
Foto: Michael Weber/Reuters

Se sentir desconfortável ou até mesmo não gostar de ter que tirar sangue ou tomar injeções, é absolutamente normal. Mas para alguns, ter que fazer um procedimento médico simples que envolva uma agulha, pode ser um grande pesadelo pelo medo excessivo de agulhas. Por vezes, pessoas que têm fobia de injeções, tendem a ‘escapar’ de vacinas e tratamento intravenosos. Porém, com a iminência da vacina para o novo coronavírus no próximo ano, todos teremos que ser ‘picados’ para sermos imunes. E agora, como lidar?

A aicmofobia, como é chamado o medo de agulhas, faz parte de um grupo de fobias que condiciona três outros medos juntos: a fobia de sangue, injeção e ferimento. O médico psiquiatra do Grupo de Estudos e Tratamentos dos Transtornos Ansiosos do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, Alan Campos Luciano, conta que pessoas que sofrem dessa fobia tendem a ter a saúde pior do que as pessoas no geral, demorando até 4 vezes mais para procurar um tratamento médico.

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Esse é o caso da auxiliar de escritório Laleska de Souza, que tem fobia de agulhas desde a infância. Ela conta que por diversas vezes só ‘fugiu’ do hospital quando precisava tomar soro e que não autorizou tomar uma medicação para realizar uma ressonância. “Ainda só tiro sangue, por exemplo, quando de fato é muito necessário, e sempre vem acompanhado com uma sensação de desespero”, comenta.

A fobia de agulhas também tem outras consequências para os que são afetados por ela. O psiquiatra descreve a reação de bradicardia, que é quando a frequência do batimento cardíaco diminui, abaixando a oxigenação do cérebro, o que leva à tendência de desmaios.  A reação acomete cerca de 3 / 4 das pessoas que sofrem da fobia. A auxiliar de escritório conta que já teve vários desmaios ao ter que tirar sangue e em uma ocasião teve paralisia no lado esquerdo do corpo devido a tensão.

O momento da picada

Enfermeira aplica vacina em britânico em Cardiff
Foto: Justin Tallis/Reuters via Pool (8.dez.2020)


“Sabendo que eu preciso ir num médico para tomar vacina, eu começo a ficar branco, transpirar, terror mesmo”, narra o estudante Renan Souza, de 23 anos. “Sempre aviso que tenho medo, eu nunca desmaiei, mas fico tremendo. O momento da picada é terrível, eu aperto o que tiver perto, a mão de alguém que eu sempre levo. Uma vez eu apertei tanto a mão da minha mãe que quase machuquei ela.”

O médico psiquiatra explica que nesses momentos o essencial é propor um ambiente confortável para que o medo não seja ampliado. Deitar o paciente em uma maca é essencial para evitar a bradicardia e por consequência um desmaio. Outro fator importante comentado por Renan é sempre levar um acompanhante. “Eu geralmente levo minha mãe, mas também já fui com minha namorada. Preciso ter alguém, senão eu fujo.”

“É importante evitar que a pessoa que vá tomar a vacina não veja as outras pessoas tomando vacina, e acabe assistindo uma reação negativa, como medo, desconforto ou manifestação de dor”, explica o especialista em ansiedade.

“Geralmente o pior momento é o que antecede o da picada em si, na hora mesmo costumo falar para mim mesma “Está vendo Laleska? É só isso, pronto já passou”, lembra a jovem.

O tratamento
Tanto Laleska quanto Renan já trataram sua fobia com acompanhamento psicológico, que é o tipo de tratamento mais indicado para a aicmofobia. “Ela (a psicóloga) tentou buscar o que havia por trás do medo de agulha, entender não o medo da agulha em si, mas o que a agulha representava”, comenta a jovem. Porém ambos, não deram continuidade no tratamento.

“A base é o processo de extinção, seria basicamente a gente expor a pessoa ao que ela tem medo, nos níveis mais suaves, desde falar a respeito, depois imaginar situação, ver imagens, vídeos e depois até sujeitar a situação (...) para ter o aprendizado emocional de que aquilo não é tão impactante quanto ela tem predisposto que tenha. separar a experiência emocional do fato real”, explica o psiquiatra do Hospital das Clínicas. Alan continua apontando que o mais indicado é o tratamento de psicoterapia comportamental individualizado, onde o profissional avalia cada caso e planeja o tratamento de acordo com a necessidade do paciente. A melhora pode ser de até 80%.

Vacina do Covid-19
Mesmo sofrendo de fobia de agulha, Laleska e Renan não pretendem deixar de tomar a vacina. Inclusive já tem planos de como vão conseguir superar o medo e não perder a imunização. “Eu vou arrastar qualquer pessoa que estiver disponível. Entendo a importância mesmo com medo, pode ser qualquer vacina, se é imunizante, eu tomo”, completa o estudante.

“Essa sinceramente eu estou tão ansiosa pra tomar, e poder voltar a abraçar aqueles que eu amo sem medo, que nem estou pensando na questão das agulhas... Com certeza vou tomar, inclusive pela primeira vez, posso falar que estou ansiosa por uma injeção”, termina Laleska.