Voluntários de vacina fazem relatório diário e medem tamanho do braço

Participantes de testes relatam expectativa de colaborar com o fim da pandemia como motivação para encarar consultas e procedimentos frequentes

Guilherme Venaglia, da CNN, em São Paulo
19 de dezembro de 2020 às 05:00
O médico Dennis Noronha, de 38 anos, recebe injeção durante teste da Coronavac, vacina produzida pelo Instituto Butantan e pela Sinovac
Foto: Acervo pessoal

Em todo o mundo, há dezenas de projetos de vacinas contra a Covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus que já provocou mais de 1,6 milhão de mortes. A corrida pelo imunizante busca dar um fim à pandemia que matou pessoas, afastou amigos e famílias e quebrou empresas.

As possíveis vacinas têm muitas diferenças de composição e origem, mas guardam entre si a semelhança em um componente fundamental: os voluntários.

Da idealização dos cientistas até as seringas dos postos de saúde, as vacinas precisam ser testadas, em um processo que mede a segurança e a eficácia de cada imunizante.

Ser um voluntário pode representar o privilégio de ser imunizado antes, mas é muito mais do que isso, envolve também um delicado equilíbrio entre expectativas, riscos e uma míriade de responsabilidades, conforme relatam à CNN participantes de dois testes em andamento hoje no país.

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CNN entrevistou o médico do trabalho Dennis Noronha, de 38 anos, voluntário da Coronavac, a vacina do Instituto Butantan com a farmacêutica Sinovac; e a jornalista e professora universitária Tatiana Ferraz, de 48 anos, que integra os testes do imunizante produzido pela Janssen, braço farmacêutico do grupo Johnson & Johnson.

Neste sábado (19), Noronha vai pela terceira vez ao Hospital Emílio Ribas, quando vai passar por uma consulta com uma colega.

Desde 21 de novembro, o médico precisa repetir a cada quinze dias esse procedimento, como parte dos testes da Coronavac. Ele não sabe até quando precisará guardar dois sábados por mês para esse compromisso, mas não se queixa.

"Eu me sinto um grão de areia no meio de um todo, fazendo a diferença. Vivemos um momento muito difícil e é gratificante me sentir útil, fazendo parte daquilo que pode ser a solução para essa pandemia. Por mais que seja uma coisa imperceptível, eu fico feliz", afirmou à CNN.

A jornalista e professora Tatiana Ferraz, voluntária dos testes da vacina da Janssen
Foto: Acervo pessoal/Tatiana Ferraz 

As consultas são ainda apenas uma parte. Os voluntários são frequentemente monitorados e acionados pelo celular e devem registrar a sua rotina em diversos momentos no intervalo das visitas ao hospital.

Para tanto, recebem kits, com insumos diversos, como diários e termômetros e podem até incluir um kit de auto-testagem.

A vontade de ajudar a ciência obriga os voluntários a superarem alguns temores. Tatiana Ferraz conta que ao passar pela triagem, o interessado pode se assustar com o termo de consentimento que é apresentado. 

"Se você levar o termo de consentimento ao pé da letra, talvez você não participe. É como uma bula de remédio. Prevê todas as possibilidades, mesmo as muito remotas, do que pode acontecer", afirma. A assinatura desse termo é um procedimento necessário para que a participação seja confirmada.

Voluntária de vacina da Janssen, a jornalista Tatiana Ferraz assina termo de consentimento livre e esclarecido sobre testes
Foto: Acervo pessoal/Tatiana Ferraz

Tatiana recebeu a injeção no dia 14 de novembro e também conta ser movida pela intenção de ajudar a ciência. Jornalista e oriunda de uma família de médicos, ela é doutoranda do Programa de Pós Graduação de Saúde Baseada em Evidências, da Unifesp.

"Eu não fui para ser imunizada, eu fui com a intenção em ajudar com a vacina. Eu me sinto ajudando, uma parte de todo esse processo, que é tão importante", conta a professora. Os testes da vacina da Janssen acontecem na cidade onde Tatiana vive, São Caetano do Sul, na região metropolitana de São Paulo.

Vacina ou placebo?

A pandemia é repleta de incertezas para todos. Qual risco que cada pessoa corre, de acordo com a sua idade, biotipo e estado de saúde, quando poderá voltar a sair, se é arriscado ou não encontrar amigos, treinar na academia ou ir ao mercado.

Para o voluntário dos testes, isso não é diferente. Para saber quão efetiva é determinada vacina, os estudos dividem aleatoriamente os voluntários em dois grupos. Todos recebem injeções, mas o conteúdo das seringas muda. 

Para metade, o imunizante que está sendo testado. Já a outra metade recebe o placebo, uma substância neutra que não tem efeitos práticos. A intenção é poder olhar os resultados descontando-se os efeitos psicológicos de ter sido imunizado.

Dose aplicada em voluntário da vacina Coronavac -- que pode ser a vacina em si ou um placebo
Foto: Acervo pessoal

Ou seja, metade de todos os voluntários do país não sabem se estão de fatos imunizados. Os voluntários ouvidos pela CNN contam que essa realidade faz com que os promotores dos estudos reforcem pedidos para que os integrantes dos testes não abandonem as medidas de distanciamento social.

"Para mim, o ensaio clínico não mudou nada. Eu mantive a mesma rotina. Fico isolada, uso máscara e evito visitar meu pai, que é do grupo de risco", conta Tatiana.

A jornalista relembra ter sentido sintomas leves, dor de cabeça e dores leves no braço, nos dias após a injeção, mas ressalta não ter sido "nada que impedisse de manter as atividades normalmente".

O médico Dennis Noronha afirma não ter sentido nenhum sintoma após a aplicação, o que disse ser o padrão para o seu sistema imunológico em outras aplicações.

Ele também pondera que a sua experiência como médico lhe deixou absolutamente tranquilo, de que sintomas brandos, como febre leve e dor local, eram o pior cenário possível.

'Kit voluntário'

Oriundos de estudos clínicos diferentes, Tatiana e Dennis receberam kits e orientações para os momentos seguintes. Ambos os kits incluíram termômetros, essencial para a verificação de eventuais casos de febre, informação essencial para os pesquisadores que conduzem os estudos.

No caso de Tatiana, o pacote incluiu ainda um oxímetro, uma régua para medir um eventual "inchaço" do braço onde o imunizante foi aplicado e até um kit para que ela realizasse em si mesma um teste do tipo RT-PCR caso suspeitasse de contaminação pela Covid-19.

Kit recebido por voluntários em teste de vacina da Janssen inclui termômetro, oxímetro, régua e insumos para realização de teste RT-PCR
Foto: Acervo pessoal/Tatiana Ferraz

Caso necessário, ela deve colher o teste e informar os pesquisadores da Janssen para que possa enviar o material.

Já Dennis recebeu um diário, com a orientação de que anotasse dia a dia, sempre no mesmo horário, a temperatura corporal. A cada consulta, o médico entrega o caderno e recebe um novo em branco, para repetir o procedimento pelo mesmo período. 

O voluntário da Coronavac é procurado cerca de duas vezes por semana através do WhatsApp. Nessas oportunidades, deve responder sobre a temperatura e eventuais sintomas da Covid-19 e de outras possíveis doenças. O médico conta que, felizmente, não teve febre ou qualquer sintoma nesse período.

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"Ser voluntário é ter um comprometimento muito sério. Você têm que estar totalmente atento aos sinais do seu corpo, porque os pesquisadores dependem disso", argumenta Noronha.

Para o monitoramento, Tatiana precisou baixar um aplicativo, em que preenche conforme solicitado as informaçoes sobre o seu estado de saúde e vivências ao longo do período de acompanhamento.

'Vacina chinesa?'

Para os voluntários ouvidos pela CNN, um papel importante deles enquanto participantes dos estudos também é disseminar o conhecimento científico e dirimir eventuais dúvidas ou notícias falsas a respeito da imunização.

Para Dennis Noronha, que testa a Coronavac, é importante reforçar a confiança nas entidades reguladoras e rejeitar o que chama de "teorias da conspiração" a respeito da vacina.

"Estamos vivendo entre muitas especulações, mas eu, como médico, não deixo elas entrarem na minha cabeça. Não deveria entrar na cabeça de ninguém, mas principalmente de quem trabalha com a ciência, que é médico", disse.

Tatiana Ferraz está em um estudo considerado um pouco menos adiantado no Brasil, o que impõe uma nova questão: caso alguma outra vacina esteja disponível antes, ela deve se vacinar?

A jornalista conta que a orientação é a de que ninguém impedirá, mas que isso não é recomendável, uma vez que invalidaria a participação no estudo.

O médico Dennis Noronha, de 38 anos, recebe injeção durante teste da Coronavac, vacina produzida pelo Instituto Butantan e pela Sinovac
Foto: Acervo pessoal/Dennis Noronha

"Eles não podem impedir, sempre dizem apenas para informar qualquer informação relevante. Eu pessoalmente não vou tomar, porque sei que uma grande dificuldade dos estudos clínicos é mitigar ao máximo as 'perdas', que é o termo usado para os voluntários que não podem mais ser considerados", explica.

O doutorado de Tatiana na Unifesp parte de uma pesquisa sobre a formação dos jornalistas brasileiros na área da saúde.

Ela afirma esperar que toda a corrida pela vacina possa permitir um maior conhecimento do funcionamento da ciência.

"No Brasil, há pouquíssimo conhecimento de como funciona o processo científico, como funciona cada etapa. Agora, estamos ouvindo mais sobre o que acontece em cada fase, mas é preciso mais", diz a professora à CNN