Campanha antivacina nas aldeias preocupa lideranças indígenas

Lideranças de povos indígenas alertam que informações falsas sobre a vacina circulam nas aldeias e estão resultando em recusas ao imunizante

José Brito, da CNN, em São Paulo
16 de fevereiro de 2021 às 17:54 | Atualizado 16 de fevereiro de 2021 às 18:16

 

Mais de 42 mil indígenas foram infectados com o novo coronavírus
Foto: Marcello Casal Jr. - 19.abr.2019 / Agência Brasil

Até o final da tarde da última segunda-feira (15), a Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), órgão vinculado ao Ministério da Saúde, contabilizava 42.781 indígenas infectados pela Covid-19 e 567 mortos em todo o Brasil. Apesar de serem grupo prioritário no Plano Nacional de Imunização, lideranças de povos indígenas alertam que informações falsas sobre a vacina contra o novo coronavírus circulam nas aldeias e estão resultando em recusas ao imunizante.

Em um dos vídeos enviados à CNN, um pastor evangélico fala durante um culto que o propósito da Covid-19 seria dizimar boa parte da população, que as pessoas vão morrer de câncer por causa da vacina e que ele não tem coragem de ser imunizado pela vacina de origem chinesa.   

“Um cientista francês soltou um vídeo todo em francês agora. Ele alertando sobre a vacina. (...) Aí o cientista soltou a nota dizendo que: ‘Olha, essa vacina que está vindo aí quem tomar, o que que vai acontecer, vai atingir o seu DNA. Quando ele atingir o seu DNA, o que que vai acontecer, você não vai sentir nada, mas depois de um tempo, doenças aparecerão’. Muitas pessoas vão morrer de câncer, achando que foi câncer, porque comeu alguma coisa, porque era hereditário, porque tem família, por causa de um tumor, alguma coisa. Mas, na verdade, foi por causa da vacina”, diz o religioso. 

Profissionais não entram em comunidades

Segundo a líder da etnia Kokama, da região do Alto Solimões, no estado do Amazonas, e mestranda em antropologia social pela UFAM (Universidade Federal do Amazonas), Suni Kokama, líderes religiosos impedem até que profissionais de saúde entrem nas comunidades. 

“Eles dizem que a vacina está vindo contaminada com o vírus da Aids. Muitos indígenas estão deixando de tomar. Umas 15 pessoas que eu conheço já não tomaram. Um até foi na comunidade do meu pai, outro foi na comunidade de um primo meu. E eles não tomaram, porque dizem que podem morrer, virar gay, virar jacaré… É interior do interior. Tudo que você fala eles acreditam. Aí, praticamente todo o dia morre um indígena de Covid-19 que eu fico sabendo.”, disse. 

O município de São Gabriel da Cachoeira, também no Amazonas, tem 76% da população indígena, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). De acordo com a Secretaria Municipal da Saúde, apenas neste ano, já foram registradas 32 mortes pelo novo coronavírus, mais da metade das 59 contabilizadas em todo o ano de 2020.

Para o presidente da Foirn (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro) e líder indígena do povo baré, Marivelton Baré, a situação em São Gabriel da Cachoeira é preocupante e urgente. 

“Só em janeiro, acompanhamos o caso de 30 pessoas entubadas e apenas uma sobreviveu. A maioria era de indígenas. É um índice muito alto. As internações só estão reduzindo por conta de mortes”, afirmou. 

Marivelton diz ainda que as autoridades precisam melhorar o planejamento para a imunização acompanhar as especificidades regionais, principalmente sobre as ações de informação sobre a vacina, porque há muita desinformação.

“Esses pastores divulgam vídeos que não é para tomarem vacina e isso causa um alto impacto nas aldeias. Aqui no Alto Rio Negro já precisamos de uma logística complexa. Tem áreas, como a região do rio Ayari, do povo Baniwa, com mil pessoas e apenas 164 aceitaram tomar a primeira dose”, afirmou. 

Desinformação

Durante atendimento pelo Projeto Xingu/Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) no Parque Indígena do Xingu, no estado do Mato Grosso, o médico Clayton Coelho afirmou que as recusas estão acontecendo com viés religioso. 

"No momento, estou no Xingu, apoiando a ação de imunização na área do polo base Diauarum. Até o momento, poucas recusas. Mas as poucas recusas que tivemos ocorreram em famílias indígenas convertidas ao pentecostalismo. É perceptível um certo grau de desconfiança na vacina, até certo ponto esperado, especialmente diante desse cenário de tanta desinformação”, disse.

Sobre as vacinas recusadas, Coelho garante que elas não são descartadas. “Temos expertise desenvolvido ao longo de mais de 50 anos de atividade de imunização em área de difícil acesso, conseguindo garantir a cadeia de frio e a qualidade das vacinas. Assim, mesmo que essas doses não sejam aplicadas nessa etapa, poderão ser utilizadas quando começarmos a aplicação da segunda dose”, afirmou.

Procuradas pela CNN, a Sesai e a Funai (Fundação Nacional do Índio) não responderam aos questionamentos enviados até o momento da publicação desta reportagem.