Só pensava em salvá-la, diz enfermeira que empurrou paciente em estrada no Pará

Rebeka da Fonseca e Wadson Diniz abandonaram ambulância e andaram durante 40 minutos com paciente na maca para salvá-la

Weslley Galzo, da CNN, em São Paulo
17 de fevereiro de 2021 às 19:07 | Atualizado 17 de fevereiro de 2021 às 19:20
maca enfermeiro transamazônica
Foto: Reprodução/ Twitter

A enfermeira Rebeka da Fonseca, de 24 anos, e o motorista de ambulância Wadson Diniz, de 27 anos, viraram símbolos de heroísmo durante a pandemia da Covid-19, por socorrerem a pé uma paciente, empurrando uma maca em plena BR-230.

A ação da dupla salvou a vida de uma idosa com Covid-19. Em entrevista à CNN, Rebeka e Wadson narram momentos de tensão na remoção da paciente. A dupla precisou empurrá-la a pé por cerca de 2 quilômetros da estrada, na altura do município de Itaiuba, no sudoeste do Pará.

“Eu fiquei muito desesperada porque eu não tinha noção da distância. Eu olhava para frente e para trás e só via caminhão. Caminhava por muito tempo e não via a ambulância de apoio. Foi como um filme. Eu não estava pensando na distância, só pensava em salvar a dona Ruth”, disse Rebeka à CNN.

A jovem atua profissionalmente como enfermeira há apenas um ano.

A decisão de deixar a ambulância foi tomada para salvar a vida da enferma antes que o cilindro de oxigênio chegasse ao fim. A estimativa era que o cilindro utilizado pela paciente tivesse capacidade para apenas mais 40 minutos a partir do momento em que a decisão foi tomada.

Pela sua experiência, Wadson Diniz estimou à Rebeka que não haveria tempo suficiente para que aguardassem o tráfego. "Não dava para ver fim da fila", relembra o motorista.

O caminho que leva ao hospital estava bloqueado por um engarrafamento envolvendo mais de 5 mil carretas que aguardavam o acesso à Estação de Transbordo de Carga (ETC) do Tapajós -- principal rota de escoamento agrícola da região, localizada no distrito de Miritituba.

'Extremo do cansaço'

Wadson primeiro subiu em um morro para pedir a uma ambulância do outro lado da rodovia que fizesse a remoção da paciente. Para isso, no entanto, a dupla precisava mover a maca pelo acostamento de terra da Transamazônica.

“Foi muito complicado fazer o trajeto, porque eu estava correndo de EPI, com bota pesada e máscara. Me senti sufocada. Eu já estava no extremo do cansaço”, contou a enfermeira, que relata uma rotina de trabalho extenuante na linha de frente da atuação contra a Covid-19.

Segundo Rebeka, a região sudoeste do Pará vive um agravamento da pandemia com o surgimento de casos graves da doença.

“Estou muito cansada. Minha vida está resumida a dormir, comer e trabalhar. Não faço nada além disso. A carga de trabalho tem sido bem exaustiva. São muitos pacientes com casos graves”, disse a enfermeira à CNN.

O motorista Wadson contraiu Covid-19 e defende a adoção dos protocolos sanitários de prevenção. "Eu não acreditava nessa doença. Mas eu contraí Covid-19, descobri que ela é grave sim, mata e as pessoas precisam se conscientizar”, afirmou.

Solidariedade

A enfermeira e o motorista contaram com a ajuda dos caminhoneiros em diversos pontos do caminho.

“Por um momento nós ficamos desesperados, porque não dava para passar entre as carretas. Precisamos colocar a paciente em uma canaleta da estrada”, afirmou o motorista.

Quando estavam próximos do fim do engarrafamento, os motoristas de caminhão moveram os veículos para facilitar a passagem da ambulância e da viatura da polícia que acompanhava a ocorrência.

A dupla se tornou celebridade na cidade onde ambos vivem, Rurópolis, no Pará, graças à projeção nacional que o caso teve.

“Eu e o Wadson recebemos muitas mensagens. Estamos muito agradecidos. A minha família em Monte Alegre (PA) está muito orgulhosa. Minha mãe grava todas as entrevistas e me manda”, contou Rebeka.

Segundo os socorristas, uma das mensagens mais impactantes veio de duas crianças que estavam na balsa de transporte até a cidade de Tapajós, onde fica o hospital.

As meninas Yasmin e Rebeca entregaram um bilhete de agradecimento à dupla. A mensagem escrita em uma pequena folha de papel reconhece a coragem que a enfermeira e o motorista tiveram.

"O mundo precisa de mais pessoas assim", diz um trecho da mensagem. 

Crianças entregaram carta de agradecimento aos socorristas
Foto: Crianças entregaram carta de agradecimento aos socorristas

"Segurei as lágrimas quando li a carta. Foi muito gratificante receber essa mensagem, ainda mais quando estávamos chegando ao hospital. Todo o esforço que valeu a pena”, disse Rebeka.

Rebeka e Anderson também foram parabenizados pelo governador do Pará, Helder Barbalho (MDB).

O político convidou a dupla para participar da reinauguração de um hospital de campanha em Santarém. O evento está previsto para ocorrer na próxima quinta-feira (18).