Mesmo com escalonamento, especialistas alertam para riscos no transporte público

Especialistas ouvidos pela CNN acreditam que essa deve ser uma medida somatória, e não única, para evitar a propagação da Covid-19

Camille Couto, da CNN, do Rio de Janeiro 
12 de março de 2021 às 16:01 | Atualizado 12 de março de 2021 às 16:12
Passageiros em ônibus no Rio de Janeiro em meio à pandemia de Covid-19
Passageiros em ônibus no Rio de Janeiro em meio à pandemia de Covid-19
Foto: Ricardo Moraes/Reuters (11.ago.2020)

A situação do transporte público no Rio de Janeiro, em meio ao cenário mais crítico da pandemia de Covid-19 apontado pela Fiocruz, preocupa os órgãos de saúde e acendeu um alerta para as autoridades. 

Nesta quinta-feira (11), o prefeito da cidade, Eduardo Paes (DEM) explicou que o escalonamento dos horários de atividades econômicas do município foi sugerido pelo Comitê Científico para reduzir aglomerações nos coletivos. Porém, especialistas ouvidos pela CNN acreditam que essa deve ser uma medida somatória, e não única, para evitar a propagação do vírus. 

À medida que o número de casos de Covid-19 aumenta, cenas de aglomeração em transportes de massa, como o BRT, se repetem todos os dias. Essa semana, mesmo com a restrição nos horários do comércio, a equipe da CNN recebeu vídeos do BRT que mostram lotação até fora dos horários de pico, com janelas fechadas e muitos passageiros sem máscaras de proteção. 

As imagens foram gravadas por volta de 12h45, no articulado que liga Jardim Sulacap ao terminal do metrô Jardim Oceânico, na Barra da Tijuca. 

Na manhã desta sexta-feira (12), após os anúncios do endurecimento das medidas restritivas, a plataforma do terminal Olímpico estava lotada. Passageiros se aglomeravam para entrar nos ônibus, sem qualquer tipo ação de fiscalização no local. 

Procurado pela CNN, o BRT, por meio de sua assessoria de imprensa, garantiu que “segue com toda a sua frota operante em circulação, seguindo o planejamento para os horários de pico”. 

Fiscalização

Para o infectologista José Pozza Júnior, professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), o escalonamento nos horários dos serviços evita a procura do sistema de transporte, mas ele se tornaria mais eficaz contra aglomeração se associado ao aumento da frota e a ações de fiscalização, como do uso de máscara e do distanciamento dentro do coletivo.  

Já para o virologista Rômulo Neris, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), há necessidade das autoridades de desenvolver estratégias de adaptação e locomoção adequadas nessa fase da pandemia. 

O virologista ainda lembra do estudo feito em Wuhan, na China, em coletivos, a partir do primeiro caso positivo, no início da pandemia. A pesquisa mostra que, em ambientes onde os indivíduos se locomovem de maneira ordenada e com proteção, o risco parece ser mínimo: de 0,01% em metrôs. 

Já no outro, com mais movimentação, sobe para 10%. A limitação desses estudos é que eles não utilizam modelos ou casos de meios de transporte superlotados, que já eram uma constante nas metrópoles brasileiras, e que se tornou ainda mais frequente durante a pandemia. 

Riscos aumentam

Segundo Neris, nesse cenário, o risco de exposição ao vírus em um ambiente com pouca circulação de ar, isolado, superlotado e sem o devido respeito a medidas de proteção coletiva podem aumentar consideravelmente.  

O tema também foi destaque no último boletim do Observatório Covid-19 da Fiocruz, que destaca a foto de um articulado do BRT lotado e passageiros desrespeitando o uso obrigatório da máscara. 

A fundação ressalta que é momento de reforçar as medidas preventivas e aconselha até o uso de mais de uma máscara de proteção durante o uso dos transportes coletivos.

“Além das medidas de distanciamento físico e social, dentre as quais as envolvendo supressão e bloqueio, o uso de máscaras em larga escala social deve ser ampliado e estimulado, pois apresentam grandes impactos na redução da transmissão e por conseguinte no número de casos e óbitos”, diz um trecho do boletim. 

Outros dados do boletim: 

  •  Máscaras de pano multicamadas podem diminuir entre 70%-80% o risco de infecção;

  • Com 80% ou mais da população utilizando máscaras há uma redução muito acentuada da transmissão. Se somente 50% da população utilizar máscaras, a redução será mínima;

  • A combinação de elevados percentuais de uso de máscaras combinadas com medidas de distanciamento físico e social tem resultado em maior controle da transmissão;

  • Se regulamentações governamentais sobre o uso de máscaras são importantes, sozinhas são insuficientes, devendo ser realizadas campanhas sobre a importância do uso e de como usar, além da distribuição gratuita de máscaras em larga escala.