Estudo publicado na Science aponta que pandemia de Covid-19 quase não aconteceu

Dois fatores foram cruciais para a proliferação do vírus: má sorte e superlotação do mercado de frutos do mar de Huanan

Maggie Fox, da CNN
19 de março de 2021 às 12:29 | Atualizado 19 de março de 2021 às 12:52
Mercado de frutos do mar de Huanan, em Wuhan
Mercado de frutos do mar de Huanan, em Wuhan, que foi fechado após surto de Covid-19
Foto: China News Service/ Global Times/ Reprodução

Pesquisadores de diversas universidades dos EUA, que estão estudando quando e como o vírus surgiu pela primeira vez na China, calculam que o primeiro contágio tenha sido no máximo até outubro de 2019 e que poderia não ter havido uma pandemia.

O estudo publicado na Science diz que dois fatores foram cruciais para a sua proliferação: má sorte e superlotação do mercado de frutos do mar de Huanan em Wuhan - o lugar onde a pandemia teoricamente começou.

"Foi uma tempestade perfeita. Se as coisas tivessem sido um pouquinho diferentes, se aquela primeira pessoa que trouxe isso para o mercado de Huanan tivesse decidido não ir naquele dia, ou apenas ficado em casa, isso tudo que estamos vivendo hoje pudesse não ter ocorrido”, disse à CNN Michael Worobey, professor de biologia evolutiva da Universidade do Arizona, um dos participantes do estudo.

A equipe realizou a datação molecular usando a taxa de mutações em andamento para calcular há quanto tempo o vírus existe. Eles também fizeram modelos de computador para mostrar quando e como isso poderia ter se espalhado e, claro, como isso acontecei.

"Nosso estudo foi elaborado para responder à questão de quanto tempo o SARS-CoV-2 pode ter circulado na China antes de ser descoberto", disse Joel Wertheim, professor associado da Divisão de Doenças Infecciosas e Saúde Pública Global da Universidade da Califórnia, Escola de Medicina de San Diego.

Para responder a esta pergunta, combinamos três informações importantes: uma compreensão detalhada de como o SARS-CoV-2 se espalhou em Wuhan antes do bloqueio, a diversidade genética do vírus na China e relatórios dos primeiros casos de Covid-19 na China.

Ao combinar essas linhas de pesquisa, os cientistas foram capazes de colocar como começo da circulação do SARS-CoV-2 o mês de outubro de 2019. "A evidência indica fortemente que o vírus não poderia ter circulado antes disso. Houveram relatos na Itália e em outros países europeus de que o vírus pode ter infectado pessoas lá antes de outubro, mas nosso estudo indica que apenas cerca de uma dúzia de pessoas foram infectadas entre outubro e dezembro”, disse Worobey.

"Diante disso, é difícil conciliar esses baixos níveis do vírus na China com alegações de que houveram infecções na Europa e nos EUA ao mesmo tempo", disse Wertheim em um comunicado. "Eu sou bastante cético em relação às alegações de COVID-19 fora da China naquela época."

O estudo também indica que o vírus surgiu na província chinesa de Hubei e não em outro lugar. "Nossos resultados também refutam as alegações de um grande número de pacientes que necessitaram de hospitalização devido ao COVID-19 na província de Hubei antes de dezembro de 2019", escreveram.

O estudo não mostra qual animal foi a fonte do vírus, mas evidências genéticas mostram que os morcegos carregam um vírus relacionado e também que outro tipo de animal, que tem mais contato com humanos, pode ter transmitido o vírus.

Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos rastreiam e relatam regularmente casos de novas cepas de influenza que infectam pessoas que participam de feiras municipais e interagem com porcos, por exemplo. Mas, até agora, nenhuma dessas infecções levou a uma epidemia ou mesmo a um surto.

De acordo com a Universidade Johns Hopkins, foram diagnosticados com covid 121,7 milhões de pessoas e quase 2,7 milhões mortes.

O que se sabe é que é necessário apenas uma pessoa infectada ter contato com outras pessoas - como no caso do mercado de frutos do mar – para o Sars-Cov-2 evoluir. "Se o vírus não tiver a sorte de encontrar essas circunstâncias, mesmo um vírus bem adaptado, pode desaparecer", disse Worobey.

"Isso nos dá alguma perspectiva:  esses eventos provavelmente estão acontecendo com muito mais frequência do que imaginamos. Nós só nunca ouvimos falar deles", disse Worobey. Os modelos que a equipe de pesquisa realizou mostra que o vírus só muta cerca de 30% das vezes que é transmitido. No resto do tempo, os modelos mostram que ele acaba sendo extinto.

"O que pode ter acontecido aqui é que o vírus estava espalhando-se por um número muito baixo de pessoas em outubro, novembro e dezembro e então entrou neste mercado de frutos do mar de Huanan", disse Worobey.

É provável que o mercado não tenha sido o local onde o vírus infectou as pessoas pela primeira vez, mas sim onde foi amplificado. “Dado o pouco tempo de vida que o vírus tinha é notável que ele tenha sido identificado tão rapidamente”, disse Worobey. "Foi muito claro que em dezembro houve um grupo grande o suficiente de pessoas infectadas para que houvesse uma chance de descobrir um novo vírus", disse.

Em janeiro de 2020, ele foi sequenciado e caracterizado. O primeiro vírus da SARS matou em torno de 10% de suas vítimas de 2002 a 2004, antes de ser interrompido por meio de um esforço global conjunto.

"Como comunidade científica, certamente estávamos cientes do potencial pandêmico de um patógeno altamente transmissível e moderadamente virulento. Mas nosso sistema de notificação de doenças depende da detecção de picos de hospitalizações e mortes. Obviamente, isso não foi suficiente para impedir a Covid-19 ", disse Wertheim à CNN.

(Texto traduzido, clique aqui e leia o original em inglês)