Defensoria cobra posição do Estado do Rio sobre abastecimento do kit intubação

Diversas unidades de saúde apontam escassez dos medicamentos que compõem o kit; 32 cidades do RJ estão com o estoque crítico

Iuri Corsini, da CNN, no Rio de Janeiro
18 de abril de 2021 às 09:41 | Atualizado 18 de abril de 2021 às 09:56

 

A Defensoria Pública do Rio de Janeiro entrou com uma ação civil pública em face do Estado do Rio de Janeiro cobrando explicações e medidas em relação ao abastecimento do chamado "kit intubação". O órgão solicita a adoção e divulgação de um cronograma de entrega dos medicamentos.

Vários hospitais enfrentam escassez no estoque, como constatado pela própria Defensoria em vistorias realizadas em diversas unidades de saúde.

Conforme a defensora responsável pela ação, Thaísa Guerreiro, umas das principais reclamações nas unidades de saúde é a falta de previsibilidade quanto à reposição dos estoques, o que, segundo a Defensoria Pública, dificulta a organização e o planejamento das assistência prestada aos pacientes.

“É de fundamental importância que seja elaborado e publicizado um cronograma de abastecimento que confira o mínimo de previsibilidade às unidades de saúde de modo a garantir a continuidade e qualidade da assistência de saúde prestada aos pacientes com Covid-19. Assim como de todas as medidas que vêm sendo adotadas pelo Estado para garantir o fornecimento desses medicamentos estratégicos aos municípios fluminenses”, aponta Thaisa Guerreiro.

Após as vistorias realizadas, a Defensoria oficiou dezenas de unidades de saúde para saber sobre o estoque de medicamentos que compõem o "kit intubação". Das 32 que receberam o documento, até a última sexta-feira (16), 19 unidades responderam.

Taxas de ocupação de leitos de UTI aumentam no Brasil devido à Covid-19 (28.fev.2021)
Foto: Reprodução / CNN

Destas, 14 disseram que estão “em dificuldade” em relação ao estoque; uma respondeu que há risco de desabastecimento do kit intubação; uma informou não estar em situação crítica, “mas receosa” diante das circunstâncias; outra unidade respondeu estar em situação “razoável”; e outra ainda ressaltou “não haver desabastecimento, mas estar em risco, considerando o cenário”.

Apenas uma unidade de saúde garantiu estar abastecida, com bloqueadores para 72h e demais medicamentos para os próximos dez dias. As unidades oficiadas fazem parte das redes municipal, estadual e federal. A Defensoria não divulgou quais foram as unidades de saúde oficiadas e quais responderam ao ofício.

O "kit intubação" é composto por três classes de medicamentos: analgésicos, hipnóticos e bloqueadores neuromusculares. Juntos, eles permitem que uma pessoa seja sedada para ser intubada sem qualquer tipo de sofrimento enquanto estão acometidas por um caso grave, como os de Covid-19.

Segundo uma fonte que trabalha na linha de frente em um centro de referência no tratamento da Covid-19 na Baixada Fluminense, o Hospital Geral de Nova Iguaçu, conhecido como Hospital da Posse, também já enfrenta escassez de alguns medicamentos – além da própria unidade, diversos hospitais estão com falta ou na iminência de ficar sem medicamentos do kit.

A CNN apurou com essa mesma fonte, um profissional de saúde que atua na emergência do Hospital da Posse, que sua equipe já trabalha sem o Midazolam e que em hospitais nos quais relaxantes musculares e analgésicos mais importante já acabaram, as equipes estão fazendo combinações com medicamentos menos indicados, como a morfina.

Nos casos mais críticos, pacientes são intubados sem sedação ou, depois de intubados, correm o risco de ficar sem o medicamento, o que faz que fiquem acordados com o tubo na traqueia.

O Midazolam é um remédio indutor de sono e sedação. O profissional de saúde do Hospital da Posse também alertou que, na última sexta-feira (16), o Fentanil, que promove a analgesia durante o período de intubação para que o paciente não sinta dor, estaria no fim. Também estaria prestes a acabar o Pancurônio, que faz o relaxamento da musculatura, facilitando a intubação.

Enfermeira trata paciente com Covid-19 na UTI de hospital
Foto: Amanda Perobelli/Reuters (3.jun.2020)

Questionado sobre a real situação do estoque dos medicamentos para o chamado "kit intubação", até o momento da publicação desta reportagem, o Hospital Geral de Nova Iguaçu não havia se pronunciado.

Nova remessa de medicamentos

Por meio de nota, a Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro (SES-RJ) informou que faz a entrega, neste fim de semana, de 47.400 unidades de medicamentos para intubação para abastecer as unidades de saúde que atendem pacientes com Covid-19.

“A Secretaria de Estado de Saúde (SES) esclarece que está empenhando todos os esforços visando buscar alternativas viáveis para resolver o abastecimento dos medicamentos do chamado ‘kit intubação’ em municípios e unidades de saúde que atendem pacientes em tratamento de Covid-19, problema que ocorre em todo o Brasil. A SES ressalta que aderiu a uma ata do Ministério da Saúde (MS) para aquisição dos medicamentos, ampliando ainda a solicitação com um aditivo de 50%, e realiza um processo de compra para suprir a necessidade do estado nos próximos três meses”, informou a pasta.

Questionada em relação ao pedido da Defensoria sobre a divulgação de um cronograma de entrega de medicamentos, a SES-RJ ainda não se pronunciou.

Em recente levantamento feito pelo Conselho de Secretarias Municipais de Saúde do Estado do Rio de Janeiro (Comsems-RJ), obtido pela CNN, das 92 cidades do Estado do Rio, 32 têm risco de ficar sem os remédios necessários para intubar pacientes sem sofrimento.