Sonhos bizarros nos treinam para momentos inesperados, diz nova teoria

“A vida pode ser entediante às vezes. Os sonhos existem para impedir que você se ajuste demais ao modelo do mundo”, diz o neurocientista Erik Hoel

Matheus Prado, da CNN, em São Paulo
15 de maio de 2021 às 13:00
sono, sonhos
Foto: Gregory Pappas/Unsplash

Avanços tecnológicos e científicos à parte, a mente humana ainda guarda uma série de mistérios. Especialistas não sabem, por exemplo, o que nos faz sonhar. Pensando nisso, o neurocientista Erik Hoel, da Universidade de Tufts, nos Estados Unidos, publicou um trabalho em que cria uma nova hipótese sobre o tema.

Ele afirma que a compreensão da evolução da função biológica do sono avançou consideravelmente na última década. No entanto, nenhuma compreensão equivalente dos sonhos surgiu. Pelo menos até agora.

"Embora várias hipóteses de por que os cérebros evoluíram com sonhos noturnos tenham sido apresentadas, muitas delas são contraditas pela natureza esparsa, alucinatória e narrativa dos sonhos, uma natureza que parece carecer de qualquer função específica", diz na introdução do paper. 

Mais profundamente, o questionamento que Hoel levanta tem a ver com sonhos bizarros, aqueles com narrativas ou elementos fantásticos e que não se encaixam na nossa realidade "normal". “A vida pode ser entediante às vezes. Os sonhos existem para impedir que você se ajuste demais ao modelo do mundo”, diz.

Inspirado por descobertas recentes sobre como as “redes neurais” de máquinas aprendem ao longo do tempo, Hoel propôs então uma teoria alternativa: a hipótese do cérebro superdimensionado.

"O recente advento das redes neurais profundas finalmente forneceu estrutura conceitual para entender a função evoluída dos sonhos. O objetivo deste artigo é argumentar que o cérebro enfrenta um desafio semelhante de sobreajuste e que os sonhos noturnos evoluíram para combater este mecanismo durante seu aprendizado diário", explica.

"Ou seja, os sonhos são um mecanismo biológico para aumentar a generalização por meio da criação de entradas sensoriais corrompidas da atividade estocástica (estado indeterminado, com origem em eventos aleatórios) em toda a hierarquia das estruturas neurais."

A relação é a seguinte: quando máquinas que possuem inteligência artificial estão aprendendo algum processo, elas tendem a captar um padrão e limitar seu conhecimento a essa familiaridade. Para superar este ajuste, cientistas costumam criar elementos caóticos nos dados para provocar adaptação.

Para Hoel, o mesmo pode ocorrer conosco quando sonhamos. Isso porque, conforme envelhecemos, a quantidade de dias e situações semelhantes que vivemos só aumenta, fazendo com que o cérebro adote postura mais simplista. Neste caso, os sonhos bizarros serviriam para nos manter atentos e preparados para momentos diferentes.

“É tudo plausível”, disse o Prof. Mark Blagrove, diretor do Laboratório do Sono da Universidade de Swansea, especializado no estudo do sono e dos sonhos, ao Guardian. “Essa teoria propõe que, a partir do que aprendemos durante o dia, generalizamos nos sonhos", diz. 

"Assim, ele se encaixa em várias outras teorias atuais, como a recente teoria do Nextup, que sustenta que os sonhos buscam novas associações com o que foi aprendido recentemente. No entanto, como acontece com tantas teorias de que sonhar tem uma função, ainda não há evidências de que sonhar seja mais do que um epifenômeno, um subproduto inútil da atividade neural."

Hoel disse que sua teoria é testável, mas "dadas as técnicas atuais de neuroimagem e a necessidade das pessoas relatarem seus próprios sonhos, encontrar evidências de apoio ou contraditórias para teorias é realmente muito difícil". Ele espera, no entanto, que a hipótese faça com que cientistas se aprofundem no estudo dos sonhos.

Ao longo dos anos, diversas teorias sobre o tema já foram apresentadas. Sigmund Freud, por exemplo, acreditava que os sonhos representam “realizações disfarçadas de desejos reprimidos”. Leia a íntegra do trabalho de Hoel aqui.