Exército tem 298 mil comprimidos de cloroquina e não distribui desde janeiro

Entre setembro de 2020 e janeiro de 2021, o governo federal distribuiu 482 mil comprimidos de cloroquina para tratar pacientes em estado grave de Covid-19

José Brito, da CNN, em São Paulo
21 de maio de 2021 às 20:58 | Atualizado 21 de maio de 2021 às 23:00
Comprimidos de cloroquina produzidos pelo Exército brasileiro
Comprimidos de cloroquina produzidos no Laboratório Químico Farmacêutico do Exército brasileiro
Foto: LQFex/Exército Brasileiro (31.mar.2020)

O Exército Brasileiro revelou à CNN, nesta sexta-feira (21), que há atualmente 298.090 comprimidos de Cloroquina 150 mg em estoque, armazenados no Laboratório Químico e Farmacêutico do Exército (LQFEX), no Rio de Janeiro. Entre setembro de 2020 e janeiro de 2021, o governo federal distribuiu 482 mil doses do medicamento para tratar pacientes em estado grave de Covid-19. 

Questionado sobre novos envios de cloroquina, sem comprovação científica como tratamento contra o novo coronavírus, o Exército disse à reportagem, no dia 7 de maio, que não houve novas distribuições de cloroquina aos estados e municípios brasileiros desde janeiro deste ano. 

Desde março do ano passado, quando a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) divulgava que o medicamento estava aprovado para casos graves da doença, o Ministério da Defesa anunciava o aumento da produção do medicamento nos três laboratórios das Forças Armadas e o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) defendia o uso em reunião do G-20.

Documentos obtidos pela reportagem por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) mostram que, entre abril e agosto, o Ministério da Saúde solicitou aos militares 1,5 milhão de comprimidos de cloroquina para serem distribuídos às Secretarias Estaduais de Saúde. 

De acordo com os documentos, o objetivo do envio dos medicamentos era para "combater a pandemia Covid-19" com base no número de casos suspeitos em cada estado. 

Em setembro de 2020, a CNN revelou que o Exército pagou preços superfaturados em insumos para a fabricação da cloroquina. Um contrato a que a reportagem teve acesso mostra que o LQFEX gastou R$ 782,4 mil com a matéria-prima necessária para a produção da cloroquina, pagando 167% acima do valor de mercado -- uma compra que foi sinalizada como suspeita pelo Escritório de Contabilidade Geral Federal. 

Na época, o Exército não contestou formalmente esse aumento do valor da compra e só cobrou explicações por escrito à empresa depois da negociação, já finalizada, ter virado alvo de uma investigação no Tribunal de Contas da União (TCU). A justificativa dada foi de que os preços subiram por causa das oscilações da taxa de câmbio e do aumento da demanda internacional.

No ano de 2020, 19 unidades de saúde de municípios do Rio de Janeiro devolveram 19 mil comprimidos de cloroquina 150 mg enviados pelo governo federal ao estado. O total corresponde a 45% dos 42 mil comprimidos recebidos pelas unidades

Em fevereiro deste ano, o Ministério da Saúde afirmou que o governo federal não ampliou a produção de cloroquina e nem tampouco a de hidroxicloroquina.