Mulheres que podem ter maior risco para Covid-19 e pouco tem sido falado sobre

Estudos relacionam o agravamento da infecção pelo novo coronavírus à síndrome dos ovários policísticos

Alessandria Masi, CNN
23 de maio de 2021 às 13:19
Mulher em consulta médica
Foto: Getty Images

Em julho de 2020, quando sua família testou positivo para Covid-19, Breanna Aguilar não se encaixou em nenhum grupo considerado de alto risco para a doença.

Ela tem 31 anos, é cuidadora de animais de estimação e ex-professora de fitness que já correu uma meia maratona. Ela era, na maioria das vezes, saudável.

Quando Aguilar pegou a Covid-19, ela perdeu o paladar, teve febre baixa e fraqueza muscular. Ela mal conseguiu manter nada no estômago, mas ganhou cerca de 13 quilos. Mais tarde, desenvolveu dor pélvica, acne cística, sensibilidade mamária, dores de cabeça, confusão mental e fadiga extrema.

Passaram-se meses desde então, mas ela diz que a falta de energia, a dor crônica e a confusão mental - sintomas prolongados da Covid-19 - permanecem e ela não consegue nem caminhar 15 minutos sem precisar de uma pausa. Ela também está lidando com a resistência à insulina e tomando vários medicamentos para manter seus níveis hormonais sob controle. Seu médico disse que ela provavelmente lidará com as consequências da Covid-19 pelo resto da vida.

Mais de um ano após o início da pandemia, um estudo descobriu que algumas mulheres correm um risco maior de contrair Covid-19 em comparação com outras na mesma faixa etária e sexo. Essas mulheres, geralmente jovens e saudáveis como Aguilar, têm uma doença subjacente que não é mencionada em nenhuma lista de comorbidades da Covid-19: síndrome dos ovários policísticos.

A síndrome que afeta cerca de 1 em cada 10 mulheres em idade reprodutiva, é um desequilíbrio dos hormônios reprodutivos que pode levar a ciclos menstruais irregulares, níveis elevados de andrógenos e cistos ovarianos. Mas também pode vir com uma série de outros problemas de saúde, quase todos os quais se sobrepõem às comorbidades da Covid-19.

"A síndrome é completamente subestimada em seu impacto. É uma espécie de problema reprodutivo que não é clinicamente relevante. Mas isso está completamente errado. As pacientes precisam ser vistas como uma população de alto risco", disse Wiebke Arlt, diretor do Instituto de Pesquisa em Metabolismo e Sistemas da Universidade de Birmingham, no Reino Unido.

Mais da metade das pessoas com a síndrome desenvolve diabetes antes dos 40 anos e até 80% estão acima do peso. Elas têm maior risco de resistência à insulina, doenças cardíacas e câncer endometrial, um câncer que começa no útero. Muitas têm pressão alta e baixos níveis de vitamina D. Essas complicações da síndrome também foram associadas a um risco potencialmente maior de Covid-19 grave.

Apesar de ser comum, a síndrome dos ovários policísticos, bem como as complicações sérias que podem surgir, especialistas em saúde dizem que a condição tem sido esquecida, mal compreendida e pouco pesquisada, deixando pacientes lutando sozinhos ou até mesmo educando os médicos para conseguir o tratamento. E com pouca pesquisa para determinar se as mulheres com a doença apresentam maior risco de Covid-19 mais grave ou sintomas de longo prazo, alguns temem que o mesmo esteja acontecendo com as políticas de saúde pública em torno da pandemia.

"Meu conselho seria incluir mulheres com a síndrome como potencialmente um grupo de alto risco", disse Katherine Sherif, chefe de Saúde da Mulher no Departamento de Medicina da Universidade de Jefferson e uma renomada especialista em síndrome dos ovários policísticos. Mas ela pontuou: "Estamos trabalhando em um sistema muito grande que está cheio de empecilhos. Ninguém vai chegar e dizer: 'Oh, bem, não se esqueça da síndrome dos ovários policísticos'".

"Se Anthony Fauci dissesse, 'você precisa olhar para os grupos de alto risco como a síndrome dos ovários policísticos', as pessoas prestariam mais atenção", disse.

Parte dos motivos pelos quais a doença passa despercebida em geral e em relação à Covid-19, de acordo com Arlt e Sherif, é porque muitas vezes é descartada como um problema de saúde da mulher - um obstáculo do ovário. No ano passado, aprendemos sobre vários problemas de saúde preexistentes que colocam uma pessoa em maior risco de contrair doenças graves por Covid-19, mas essa síndrome não é um deles.

Para Arlt, que foi coautor do primeiro grande estudo publicado em fevereiro no European Journal of Endocrinology, o nome síndrome dos ovários policísticos é um termo impróprio. Não é um distúrbio do ovário, disse Arlt, mas uma "doença metabólica vitalícia" e deve ser tratada como tal ao avaliar a vulnerabilidade da Covid-19.

"Quanto maior for o risco metabólico, maior será o risco de pegar Covid-19", disse Arlt. “As pessoas analisaram a obesidade, o diabetes tipo 2, a hipertensão e as doenças cardíacas, mas não analisaram a síndrome sistematicamente antes de nós. Porque simplesmente não consideram isso um fator de risco metabólico. Isso é algo que gostaríamos de mudar”.

'Algo na síndrome está realmente conduzindo isso'

Arlt e pesquisadores da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, descobriram que mulheres com a síndrome tinham 51% mais chances de infecção confirmada ou suspeita de Covid-19 do que mulheres sem. Usando registros de atenção primária de janeiro a junho de 2020, eles identificaram mais de 21.000 pacientes com a doença e um grupo de controle de mais de 78.000 sem, pareados por idade e localização.

Os pesquisadores então "queriam entender se o aumento da incidência de Covid-19 era apenas por causa da síndrome, ou também por causa dos fatores de risco subjacentes que as mulheres com a doença têm?", disse o autor principal, Anuradhaa Subramanian, à CNN. Em outras palavras, se uma mulher tem a síndrome e diabetes tipo 2, qual delas a coloca em maior risco de contrair Covid-19?

Em um modelo totalmente ajustado que levou vários fatores de risco em consideração, as mulheres com a síndrome ainda tinham um risco 28% maior de infecção confirmada ou suspeita de Covid-19, de acordo com o estudo.

Subramanian diz que os resultados não surpreenderam. No entanto, "isso nos deu mais confiança de que não se trata apenas dos fatores de risco associados à síndrome, mas algo na doença está realmente conduzindo isso", disse.

Mas, como as informações foram extraídas de bancos de dados de saúde primária, os pesquisadores não conseguiram verificar se as pacientes com a síndrome tinham sintomas de Covid-19 mais graves ou de longo prazo. Além do mais, a doença não é um transtorno de dimensão única e a Covid-19 pode ou não ter um impacto ou nível de risco diferente dependendo da pessoa. Há muitas perguntas para as quais ainda não temos respostas definitivas, diz Anuja Dokras, diretora do Centro de Síndrome do Ovário Policístico da Penn Medicine.

"Precisamos obter essas informações agora que [Covid-19 já] durou um ano inteiro", disse Dokras. "Está afetando tantas pessoas que seria bom olhar para trás nesta literatura e apenas investigar, porque esses são fatores de confusão".

Procura por respostas

Até agora, se as pessoas com síndrome dos ovários policísticos têm complicações mais graves da Covid-19 é anedótico, deixando algumas mulheres apenas com especulações sobre como o Covid-19 afeta a síndrome.

No caso de Aguilar, ela foi diagnosticada com a síndrome depois de ter sido exposta à Covid-19, apesar de provavelmente ter a doença há anos, mas sem reconhecer os sintomas. "Eu tive alguns desses sintomas subjacentes, meu corpo foi capaz de controlá-los até um ponto durante a maior parte da minha vida, e então contrair Covid realmente acabou com todas as defesas do meu corpo e a capacidade de regular qualquer coisa", disse ela, relatando as informações passadas pelo médico.

Mas ela ainda não sabe por que ou se seus sintomas irão melhorar.

Kris Nealon também passou grande parte do ano passado procurando respostas.

Ela foi diagnosticada com a síndrome aos 12 anos, e o distúrbio a deixou lutando com seu peso e com resistência à insulina. Esses fatores, segundo ela, preocuparam, pois poderia ter sintomas graves de Covid-19 e talvez até precisar de hospitalização. Então, no verão passado, fez o que a maioria fez durante a pandemia: pesquisou no Google. Ela se lembra de ter pesquisado "'devo me preocupar ... resistência à insulina COVID?' ou 'síndrome dos ovários policísticos COVID?'"

Nealon não encontrou respostas. Ela teve Covid-19 em outubro e diz que seus sintomas eram leves. Mas quando se transformaram em dores musculares e articulares, fadiga extrema, depressão, insônia e confusão mental, ela fez o que foi recomendado: conversar com seu médico.

No caso de Nealon, ela falou com vários. Tendo vivido com a síndrome por mais da metade da vida, estava ciente das complicações e queria saber como isso poderia afetar seus sintomas de Covid-19 de longo prazo.

Ela diz que o primeiro médico afirmou que sua única comorbidade que poderia influenciar os sintomas de longo prazo da Covid-19 era o peso.

"Ele tem sido bom e compreensivo, mas ... você pode vê-lo ficar tipo, 'Problemas de mulher, não se preocupe com isso. Este é o seu pulmão'", disse. Ela disse a ele que a síndrome está ligada à ansiedade e à depressão e perguntou se isso poderia estar relacionado à fadiga e à insônia pela Covid-19. Ela também perguntou sobre seu coração, explicando que a síndrome e a Covid-19 podem causar complicações.

Mas, além de sugerir que perder peso pode ajudar, Nealon se lembra de seu médico dizendo "não tem nada a ver com a síndrome.

Depois da Covid-19, Nealon também notou que seus sintomas da síndrome dos ovários policísticos "enlouqueceram". Ela diz que sentiu uma dor extrema na parte inferior do abdômen. Um ultrassom mostrou que suas trompas de falópio "de repente pareciam muito preocupantes", segundo avaliação, e ela teve um cisto estourado no ovário.

Ela foi ao ginecologista, o médico que primeiro a diagnosticou com a síndrome, e perguntou: "Isso tem alguma coisa a ver com [que] eu acabei de ter Covid?"

Ela diz que seu médico afirmou: "Não, não há literatura sobre isso."

E não havia. Semanas após o teste de Nealon dar positivo, Allison Roach e Chitra Gotluru, duas estudantes de medicina da Florida International University, terminaram seu artigo explorando o risco potencialmente mais alto de mulheres com a síndrome para morbidade relacionada à Covid-19. Nenhum conjunto de dados de pacientes com ambos os diagnósticos existia, disseram.

Risco 'óbvio, mas não comprovado'

A pesquisa de Roach e Gotluru, publicada na edição de março da revista Obstetrics and Gynecology, mostra que o risco potencialmente maior para pacientes com a síndrome dos ovários policísticos se resume a "comorbidades, andrógenos e lipotoxicidade".

Pessoas com a doença geralmente apresentam níveis e sensibilidade mais elevados de andrógenos, hormônios sexuais masculinos. Isso poderia "afetar diretamente a suscetibilidade à Covid-19", escreveram Roach e Gotluru. Os andrógenos funcionam como um "portal", em termos muito simples, para permitir a entrada da Covid-19, diz Roach.

Além do mais, é comum que as pessoas com a síndrome tenham inflamação crônica - um sistema imunológico que está em um estado quase constante de luta contra os danos. A regulação deficiente da insulina e a obesidade podem levar a um acúmulo tóxico de ácidos graxos no tecido, conhecido como lipotoxicidade, potencialmente danificando órgãos.

Isso também pode desencadear a secreção de células de sinalização imunológica chamadas citocinas. Embora as citocinas sejam uma parte vital da resposta imunológica do corpo, o excesso pode causar o que é conhecido como uma tempestade de citocinas. Adicionar uma infecção por Covid-19 a isso pode causar mais secreção de citocinas, potencialmente desencadeando uma dessas tempestades e fazendo com que o sistema imunológico ataque as células do corpo, não apenas o patógeno. E há pesquisas que sugerem que isso pode ocorrer "esteja você acima do peso ou não", disse Gotluru à CNN.

Para Sherif da Jefferson University, o risco de sintomas mais graves de Covid-19 para pacientes com a síndrome é "óbvio, mas não comprovado". Óbvio porque "Se a testosterona aumenta a inflamação, e se ... os homens que estão no hospital com complicações de Covid e têm altos níveis de testosterona, faz sentido que isso coloque as mulheres com a síndrome em maior risco".

Isso não está provado, diz ela, porque existem muito poucas pesquisas.

Com base em sua própria pesquisa sobre a síndrome e doenças cardíacas, Sherif disse: "O que é importante que as pessoas entendam é que isso independe da obesidade".

"É o alto nível de insulina e de testosterona que confere um risco maior para Covid em comparação com controles de peso equivalente", disse ela. "Então, você tem duas mulheres que pesam 100 quilos. Aquela com síndrome tem mais probabilidade de se tornar diabética ou ter apneia do sono, ou ficar doente por causa de Covid".

Sem esses dados, alguns médicos e pesquisadores dizem que isso é algo que as pacientes com a síndrome devem estar cientes, mas não devem entrar em pânico. Se você tiver Covid-19, é importante informar ao seu médico que você tem síndrome dos ovários policísticos e todos os medicamentos que está tomando, disse Gotluru.

"Avise seu especialista ... que existem pesquisas que são preocupantes sobre a síndrome e que você gostaria de ser cautelosa", disse.

Enquanto isso, mulheres como Aguilar e Nealon ainda buscam respostas. Nealon diz que seus médicos ainda não estabeleceram uma conexão entre as consequências da Covid-19 e sua síndrome. Ela não está surpresa.

"É assim que funciona, apenas com a síndrome, nada de falar sobre a relação com a Covid", disse Nealon. "Você vai a um médico com uma lista de sintomas e escuta 'você está gorda' ou 'você está pensando demais nas coisas'".

Aguilar diz que ter que educar constantemente as pessoas tem sido exaustivo por causa de seus dois novos diagnósticos.

"Muitas pessoas gostam de falar que a taxa de sobrevivência é tão alta e a taxa de mortalidade tão baixa, mas o que eles não estão levando em consideração é o grau em que vidas estão mudando por causa de doenças que estão surgindo, ou os sintomas prolongados que são tão debilitantes", disse Aguilar. "É difícil superar." 

Este é um texto traduzido, para ler o original, em inglês, clique aqui.