Aquecimento global causa 37% das mortes por calor no mundo, diz estudo

No Brasil, mudanças climáticas respondem por 1% de mortes “naturais” associadas ao tempo quente, segundo pesquisador brasileiro que participou do levantamento

Edison Veiga, colaboração para a CNN
31 de maio de 2021 às 17:19 | Atualizado 31 de maio de 2021 às 17:26
Calor bate recorde em São Paulo em virtude de massa de ar quente
Calor afeta saúde pública e de indivíduos: pacientes com diabetes, problemas cardíacos e renais podem sofrer complicações
Foto: ALOISIO MAURICIO/FOTOARENA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO

Um estudo liderado por cientistas da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres e da Universidade de Berna, dentro da rede de pesquisa colaborativa Multi-Country Multi-City (MCC), mostra que as agressões ambientais infligidas pelo ser humano estão colocando a vida da própria espécie diretamente em risco: de todas as mortes ocorridas entre 1991 e 2018 em consequência de calor, 37% não foram por sazonalidades ou ocorrências naturais, mas sim pelo chamado aquecimento global. Em outras palavras: culpa da própria ação humana.

No Brasil, as mudanças climáticas já respondem por 1% das mortes chamadas “naturais”, conforme explica o médico patologista Paulo Saldiva, professor e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e um dos integrantes do estudo, que foi publicado nesta segunda-feira (31) pelo periódico científico "Nature Climate Change", publicação mensal sobre clima da revista "Nature".

“A estimativa foi realizada baseando-nos na premissa de que variações de temperatura têm relação com o aumento da mortalidade. No estudo, calculamos quanto foram as contribuições antropogênicas para as variações de temperatura e subtraímos as mortes devido a variações causadas por sazonalidade anual”, explica Saldiva à CNN. “É um número relativamente pequeno [o 1%], mas que tende a se agravar de forma inevitável”, completa.

Trata-se do maior estudo do tipo já realizado, a partir de dados de óbitos de 732 cidades de 43 países ao redor do globo. “A proporção de mortes relacionadas ao calor vai continuar crescendo se não fizermos algo para conter as mudanças climáticas ou nos adaptarmos”, afirma, em comunicado à imprensa, a pesquisadora Ana Vicedo-Cabrera, principal autora do trabalho. “A temperatura média global aumentou apenas cerca de 1 grau, que é uma fração do que poderemos enfrentar se as emissões [de carbono] continuarem a crescer sem controle.”

Do que se morre

São várias as maneiras como o aquecimento global afeta a saúde pública. Há impactos diretos, como a mudança na propagação de vetores de doenças, por conta de condições climáticas que expandem ou transferem seus habitats. Incêndios florestais também repercutem negativamente na qualidade do ar. Mas, sem dúvida, o principal problema é como calores extremos interferem em situações de comorbidade.

Saldiva explica que, com o aquecimento, o organismo humano pode sofrer complicações cardíacas, renais e circulatórios, entre outros. Pacientes com diabetes também podem apresentar mais dificuldade de controlá-la. E os mais afetados são as crianças menores de 5 anos e os idosos com mais de 70. 

“Temos mecanismos fisiológicos para controlar nossa temperatura, mas crianças muitas vezes ainda não amadureceram [essa capacidade]. Conforme a idade avança, também perdemos a eficiência desses mecanismos termorreguladores, como a sudorese”, contextualiza o pesquisador.

Desta forma, a saúde humana acaba funcionando como um termômetro sensível dos estragos ambientais. 

Uma situação típica que ocorre com o organismo em temperaturas altas é a tendência de queda da pressão arterial. Isso precisa ser compensado com uma aceleração dos batimentos cardíacos. Uma pessoa jovem e saudável consegue se adaptar. Mas alguém com predisposição a problemas cardíacos ou com um quadro um pouco mais debilitado pode não suportar. 

Outro efeito colateral do calor exagerado é a perda de muitos líquidos pelo suor. Isso pode acarretar duas consequências para a saúde, conforme explica o patologista: o aumento da viscosidade do sangue, o que acaba favorecendo a formação de trombos e, com isso, a obstrução de vasos importantes; e um comprometimento do rim, propiciando a ocorrência de infecções urinárias ou mesmo problemas renais crônicos. 

 

CEP como fator de risco

Em suas pesquisas, Saldiva já vinha observando o aumento de internações hospitalares em quase 2 mil cidades brasileiras por problemas associados ao calor. “Sem nenhuma catástrofe pontual, simplesmente por conta de estarmos saindo da zona de conforto térmico”, explica. “Os extremos de temperatura já estão ocorrendo com mais frequência e estamos enfrentando alterações no regime de chuvas e grandes ondas de calor”, completa.

O organismo humano é capaz de se adaptar, mas não na velocidade como a mudança vem ocorrendo. Ao longo da história da humanidade, tais mecanismos ocorreram, inclusive com mudanças físicas — como maior ou menor presença de melanina — e com invenções como roupas específicas para cada clima e casas com melhor isoalmento térmico em regiões mais frias. 

Para Saldiva, há adaptações de longo prazo e também aquelas da vida de cada um — quando uma pessoa se muda de uma região para outra. E isso explica como uma onda de calor de 27 graus já pode impactar na vida de um paulistano com comorbidade, mas ainda não afetar a saúde de um morador de Teresina, habituado a temperaturas mais altas. 

“Existe uma capacidade de adaptação, mas ela é lenta. E a velocidade das mudanças climáticas está certamente ultrapassando a capacidade adaptativa tanto dos nossos organismos como da estrutura urbana em geral. Há um descompasso”, alerta o cientista.

O Brasil figura entre os locais mais afetados, principalmente nas regiões centro-oeste e sudeste — no norte e nordeste, por conta da aclimatação ao calor, as pessoas tendem a sofrer menos os impactos do aquecimento global. 

Pesa também sobre o brasileiro, segundo Saldiva, a menor capacidade de controle das doenças crônicas, pelo deficitário sistema de saúde pública associado ao cenário de vulnerabilidade socioeconômica. “Em São Paulo, por exemplo, o risco de morrer por doenças cardiovasculares varia substancialmente pela cidade, tolhindo principalmente as pessoas que trabalham demais, comem pior, têm menos tempo e condições para cuidar de si, menos acessos aos serviços de saúde. É como se o CEP tivesse um peso maior do que o código genético no futuro da pessoa”, aponta ele.

Placa com mensagem contra as emissões de CO2 em protesto na Itália contra o aquecimento global
Foto: Nicolò Campo/LightRocket via Getty Images

 Alerta global

Os pesquisadores acreditam que a grande importância desse estudo é justamente trazer para as implicações sobre a saúde do indivíduo a preocupação com a redução do aquecimento global. “Este é o maior estudo de detecção e atribuição dos riscos reais das mudanças climáticas para a saúde”, afirma, em comunicado à imprensa, o pesquisador Antonio Gasparrini, um dos autores do trabalho. “A mensagem é clara: as mudanças climáticas não terão apenas impactos devastadores no futuro, mas todos os continentes já estão experimentando as terríveis consequências das atividades humanas em nosso planeta. Devemos agir agora.”

É como se o problema da tragédia climática fosse trazido para perto. Deixa de ser o fato das geleiras estarem se desprendendo em enormes icebergs nas calotas polares e passa a implicar sobre a saúde de cada um. “Isso pode servir de instrumento poderoso para fortalecer as políticas de mitigação das mudanças climáticas”, acredita Saldiva. “Não pelo idealismo da causa ambiental, mas pelo egoísmo que permeia a alma humana.”