Alzheimer pode ser prevenido? 14 fatores que ajudam a reduzir o risco
Dr. Renato Anghinah explica quais fatores modificáveis ao longo da vida podem contribuir para reduzir o risco de Alzheimer e outras demências, da escolaridade e atividade física ao controle da pressão, colesterol, diabetes e perda auditiva

Uma das perguntas que mais ouço no consultório é: “Doutor, o que eu posso fazer para prevenir o Alzheimer?”. A resposta exige algum cuidado. Não existe uma fórmula capaz de garantir que uma pessoa nunca desenvolverá a doença. Entretanto, hoje sabemos que uma parcela importante do risco de demência está relacionada a fatores que podem ser modificados ao longo da vida.
Em 2024, a Comissão Lancet sobre prevenção, intervenção e cuidados em demência atualizou a relação de fatores potencialmente modificáveis, que passou de 12 para 14. Isso significa que temos diferentes frentes nas quais podemos atuar para diminuir a probabilidade de desenvolver Alzheimer e outros quadros demenciais. Não é uma garantia, mas é uma oportunidade concreta de prevenção.
Educação e a construção da reserva cognitiva
O primeiro fator é a baixa escolaridade. Existe um conceito importante em neurologia chamado reserva cognitiva. Podemos imaginá-la como uma espécie de poupança que construímos durante a vida. Quanto mais aprendemos e estimulamos nosso cérebro, maior tende a ser essa reserva.
E isso não significa apenas educação formal. Ler, estudar, assistir a bons filmes e documentários, aprender coisas novas e manter atividades intelectuais são formas de estimular continuamente o cérebro. Essa construção começa na infância e deve continuar durante toda a vida.
Colesterol, diabetes, hipertensão e obesidade
Vários dos fatores associados à demência também são velhos conhecidos da prevenção cardiovascular. O colesterol LDL elevado, especialmente na meia-idade, integra atualmente a lista de fatores modificáveis. Por isso, alimentação equilibrada, acompanhamento médico e controle dos níveis de colesterol são importantes não apenas para o coração e os vasos, mas também para a saúde cerebral.
O mesmo vale para a hipertensão arterial, muitas vezes silenciosa, e para o diabetes. Alterações vasculares e metabólicas podem contribuir para lesões cerebrais e aumentar o risco de comprometimento cognitivo. A recomendação é simples: medir a pressão, acompanhar glicemia e colesterol e tratar adequadamente essas condições quando presentes.
A obesidade também precisa ser encarada como uma questão de saúde, e não apenas estética. Ela está frequentemente associada à hipertensão, diabetes e alterações metabólicas. Para uma pessoa com obesidade, reduzir o peso e passar para uma condição de sobrepeso já pode representar um avanço importante. Quando é possível atingir e manter um peso adequado, melhor ainda.
Atividade física e contato social também protegem o cérebro
Outro fator fundamental é a inatividade física. Não importa necessariamente se a pessoa prefere caminhar, correr, nadar ou praticar algum esporte. O importante é manter o corpo ativo. A atividade física favorece a saúde cardiovascular e cerebral e, em muitas modalidades, também exige coordenação, planejamento, estratégia e tomada de decisões.
Da mesma forma, precisamos prestar atenção ao isolamento social. Vivemos uma época em que podemos ter centenas ou milhares de contatos nas redes sociais e, ao mesmo tempo, poucos relacionamentos presenciais. Encontrar amigos, conversar, participar de atividades comunitárias, culturais ou religiosas e manter vínculos reais significa também trocar informações e estimular o cérebro.
Depressão e consumo excessivo de álcool
A depressão, principalmente quando não diagnosticada ou adequadamente tratada, também aparece entre os fatores associados ao risco de demência. Ainda existe preconceito em relação à saúde mental, embora isso esteja diminuindo. Diante de sintomas persistentes, é importante procurar avaliação profissional e realizar o tratamento indicado, que pode envolver acompanhamento médico, psicológico e, quando necessário, medicamentos.
O consumo excessivo de álcool é outro ponto de atenção. A expressão “beber com moderação” pode ser vaga, porque cada pessoa pode interpretar moderação de uma maneira. O mais importante é evitar o consumo frequente e, principalmente, quantidades capazes de produzir intoxicação. O uso abusivo e prolongado de álcool pode causar danos importantes ao sistema nervoso.
Audição e visão não devem ser negligenciadas
A perda auditiva e a perda de visão não tratada merecem atenção especial. Quando alguém começa a ouvir ou enxergar mal, pode progressivamente reduzir atividades que estimulam o cérebro. Lê menos, acompanha menos conversas, evita determinados ambientes e pode se isolar socialmente.
Por isso, dificuldades auditivas não devem ser tratadas como algo que simplesmente precisa ser aceito com o envelhecimento. Se houver indicação, usar aparelho auditivo é uma medida de cuidado com a saúde. O mesmo raciocínio vale para problemas de visão que podem ser diagnosticados e tratados.
Tabagismo, poluição e traumatismos cranianos
O tabagismo continua sendo um importante fator modificável. Houve no passado interpretações equivocadas de estudos que sugeriam uma possível proteção da nicotina contra Alzheimer. O problema é que fumantes muitas vezes apresentavam menor ocorrência da doença simplesmente porque tinham menor expectativa de vida e não chegavam às idades em que sua incidência aumenta. O cigarro compromete vasos sanguíneos, coração, pulmões e oxigenação, com consequências também para a saúde cerebral.
A poluição do ar é outro fator reconhecido. Evidentemente, quem mora em uma grande cidade não consegue simplesmente eliminar essa exposição. Parte da solução depende de políticas públicas, mas reduzir a exposição sempre que possível e buscar ambientes menos poluídos e mais arborizados pode fazer parte dos cuidados com a saúde.
Por fim, estão os traumatismos cranianos. Uma lesão cerebral importante sofrida décadas antes pode repercutir na saúde cognitiva futura. Isso torna fundamental adotar medidas de segurança no trânsito, no trabalho e na prática esportiva e reduzir situações que aumentem desnecessariamente o risco de traumatismos.
Prevenção começa muito antes da velhice
Os 14 fatores modificáveis são, portanto: baixa escolaridade, perda auditiva, hipertensão, tabagismo, obesidade, depressão, inatividade física, diabetes, isolamento social, consumo excessivo de álcool, traumatismo craniano, poluição do ar, colesterol LDL elevado e perda de visão não tratada.
Talvez o ponto mais importante seja compreender que prevenção de demência não começa aos 70 ou 80 anos. Ela acontece ao longo de toda a vida. Educação na infância, hábitos saudáveis na vida adulta, controle dos fatores cardiovasculares na meia-idade e manutenção da atividade física, intelectual e social no envelhecimento fazem parte de uma mesma estratégia.
Não podemos controlar todos os fatores envolvidos no desenvolvimento da doença de Alzheimer. Idade e genética, por exemplo, não podem ser modificadas. Mas existe uma parcela sobre a qual podemos agir. Cuidar do coração, dos sentidos, da saúde mental, das relações sociais e manter cérebro e corpo ativos é uma forma concreta de investir hoje na saúde cognitiva que teremos no futuro.
*Texto escrito por Dr. Renato Anghinah (CRM/SP 67144 | RQE 22960 / 4925), Neurologista e Head Nacional de Neurologia da Brazil Health


