AstraZeneca reconhece erro em teste da vacina, mas diz ser ‘irrelevante’

Para vice-presidente da farmacêutica, evento foi um 'acaso', já que os resultados se mostraram positivos

Jéssica Otoboni,

da CNN, em São Paulo

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A farmacêutica AstraZeneca reconheceu a ocorrência de um problema durante os testes clínicos da vacina contra a Covid-19 que desenvolve em parceria com a Universidade de Oxford, mas ressaltou ser algo sem importância para o desenvolvimento das pesquisas. 

O vice-presidente da companhia, Menelas Pangalos, afirmou nessa quarta-feira (25), em uma entrevista ao jornal The New York Times, que houve um erro de dosagem na substância, mas que este é um fator irrelevante para a conclusão dos estudos. 

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“Não vou fingir que não é um resultado interessante, porque é, mas definitivamente não o entendo e acho que nenhum de nós entende”, disse ele. “Foi surpreendente para nós.”

Aplicação de meia dose da vacina

Na segunda-feira (23), a AstraZeneca anunciou que sua potencial vacina apresentou eficácia média de 70% na proteção contra o vírus, considerando testes de voluntários nas fases 2 e 3 dos estudos no Reino Unido e no Brasil.

No entanto, a farmacêutica destacou que as taxas variam dependendo da quantidade de doses que certos grupos receberam. A eficácia observada foi de 62% entre os que foram vacinados com duas doses completas, e de 90% no grupo que recebeu uma dose inteira um mês depois de ter recebido meia dose.

Em um primeiro anúncio a respeito, a AstraZeneca disse que menos de 2,8 mil participantes receberam a dose pela metade, e cerca de 8,9 mil voluntários que receberam duas doses completas.

Os pesquisadores britânicos que lideraram os testes deveriam ter dado uma dose completa aos participantes, mas um erro de cálculo da dosagem fez com que alguns recebessem apenas metade. 

Descoberta do erro

Em entrevista à agência de notícias Reuters na segunda-feira, horas após o anúncio, Pangalos afirmou que a companhia não tinha a intenção de aplicar meia dose. O plano previa que os voluntários receberiam duas doses completas, mas os pesquisadores ficaram perplexos quando identificaram que os efeitos colaterais, como cansaço, dor de cabeça e nos braços, eram mais moderados do que se esperava.

“Então, voltamos e checamos, e descobrimos que eles haviam previsto a dose da vacina pela metade”, afirmou Pangalos. Mesmo assim, segundo ele, a farmacêutica optou por seguir com o grupo em questão e administrar a segunda dose (desta vez, completa) na hora programada.

Com os resultados considerados positivos, ele descreveu o evento como um “acaso”. “A razão pela qual tivemos a meia dose é acaso”, contou à Reuters.

Pesquisadores disseram que a dose mais baixa pode ter sido mais eficaz porque reflete com mais precisão a resposta imune natural aos vírus, mas que eles teriam de investigar mais para saber com certeza. A AstraZeneca ainda planeja testar o regime de meia dose em um grande estudo em andamento nos EUA que deve envolver mais de 30 mil voluntários, disse Pangalos.

‘Erro irrelevante’

À imprensa, a AstraZeneca disse que o regime de meia dose foi resultado de um erro de fabricação, que não foi mencionado inicialmente nos comunicados à imprensa nos quais os resultados foram anunciados.

“O erro é realmente irrelevante”, disse Pangalos ao NYT. “Qualquer que seja a forma de corte dos dados, mesmo se você acreditar apenas nos dados de dose completa, dose total, ainda temos eficácia que atende aos limites para aprovação com uma vacina que é mais de 60% eficaz.”

A Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA, em inglês) determina que uma potencial vacina precisa apresentar ao menos 50% de eficácia na prevenção ou redução da gravidade da doença. De acordo com os resultados, a substância desenvolvida pela AstraZeneca superou esse padrão nos dois grupos de voluntários.

As vacinas desenvolvidas pela Moderna e pela Pfizer também mostraram eficácia superior a 90%. Todas essas substâncias exigem armazenamento em temperaturas abaixo de zero. Contudo, a da AstraZeneca pode ser armazenada em um refrigerador mais comum, o que a tornaria mais atraente para países de baixa e média renda.

Críticas recebidas

Apesar dos resultados positivos anunciados pela AstraZeneca, ela enfrenta críticas de parte da comunidade científica, que alega falta de transparência. A revista norte-americana Wired chegou a publicar um artigo nessa quarta listando diversos problemas relacionados à vacina da companhia.

Alguns cientistas criticaram o fato de a farmacêutica não revelar dados importantes dos resultados dos estudos, como o número de infecções que ocorreram nos grupos de pacientes e discriminadas por idade e gravidade da doença. Apesar disso, a AstraZeneca afirmou que nenhum paciente que recebeu a vacina desenvolveu doença grave ou precisou ser hospitalizado.

“A AstraZeneca forneceu poucas informações reais para avaliar de forma independente como estão os testes de vacinas”, disse Shane Crotty, pesquisador de vacinas e doenças infecciosas do Instituto La Jolla de Imunologia.

Pangalos anunciou que os pesquisadores só receberam os dados no último fim de semana e estão trabalhando para liberar rapidamente os dados completos. “A maneira certa de publicar e documentar os resultados é em uma revista científica, e todos esses dados serão publicados na próxima semana ou depois”, afirmou ele.

(Com Estadão Conteúdo e Reuters)

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