Atletas de alto rendimento desafiam os limites da gravidez e do pós-parto

Pesquisas recentes apoiam atletas que mantêm treinos intensos durante a gestação, contrariando antigas recomendações médicas de redução de atividade física

Starre Vartan, da CNN
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A bicampeã olímpica de atletismo Molly Huddle estava grávida mesmo após a data prevista para o parto em maio. Como ela havia mantido a corrida durante toda a gravidez, recorreu ao que sabia fazer melhor: "Tentando fazer o bebê sair no sprint", brincou no Instagram.

Huddle já tinha experiência nisso. Tanto ela quanto a também corredora profissional Kellyn Taylor haviam retornado às competições após o nascimento de seus primeiros filhos, participando da Maratona de Nova York em 2023. Taylor terminou em primeiro lugar entre as americanas, com uma média impressionante de 5 minutos e 43 segundos por milha (cerca de 3 minutos e 32 segundos por quilômetro), 10 meses após o parto. Huddle chegou logo em seguida, conquistando o segundo lugar.

Um ano antes, Chelsea Sodaro venceu o Campeonato Mundial de Ironman em Kona, Havaí, apenas 18 meses após ter sua filha. Ela foi a primeira americana a conquistar o título em 25 anos, a primeira estreante a fazê-lo desde 2007 e a primeira mãe de primeira viagem a vencer.

Essas mulheres não são mais exceções. Elas estão na vanguarda de um movimento crescente de atletas que estão redefinindo os limites do que é possível durante a gravidez, pós-parto e amamentação. E essa mudança está sendo reconhecida nos mais altos níveis do esporte, como a adição dos primeiros espaços para berçário e amamentação nas Olimpíadas de Paris 2024.

Huddle correu durante toda sua gravidez, assim como Taylor, que completou uma corrida de 5 km quando estava com 32 semanas de gestação. Elas fazem parte de uma onda mais ampla de atletas que rejeitam décadas de orientações ultrapassadas que instavam mulheres grávidas — independentemente de sua condição física ou perfil de risco — a reduzirem a intensidade e duração dos exercícios.

Desafiando as regras da gravidez

Quando essas mulheres e suas predecessoras romperam com as recomendações anteriores de reduzir sua atividade física durante a gravidez, isso permitiu que pesquisadores argumentassem pela necessidade de respaldo científico.

A maioria das recomendações anteriores para a gravidez não era baseada em ciência sólida, disse a Emily Kraus, que lidera o programa FASTR (Ciência e Pesquisa Translacional para Atletas Femininas) da Universidade Stanford.

"Devido a todos os desafios éticos em realizar estudos reais com mulheres grávidas, muitas dessas diretrizes passadas não eram fundamentadas em estudos de pesquisa, mas sim no melhor julgamento dos médicos", acrescentou Kraus por e-mail.

Agora, a ciência finalmente está alcançando os atletas que ultrapassaram os limites.

Um estudo histórico de 2022 realizado por uma equipe de pesquisadores canadenses acompanhou 42 corredoras de elite a nível mundial durante a gravidez e o período pós-parto. Essas atletas mantiveram volumes de corrida duas a quatro vezes maiores do que as diretrizes atuais de exercícios recomendam para a gravidez.

Em média, essas corredoras retornaram aos treinos dentro de seis semanas após o parto e atingiram 80% dos volumes de treino pré-gravidez em três meses. Mais da metade teve desempenho melhor após o parto do que antes. Para aquelas que visavam retornar à competição de elite, seus tempos de corrida permaneceram estatisticamente inalterados.

"O que estamos descobrindo é que há melhorias nos resultados de saúde quando você mantém seus níveis de treino. Além disso, também estamos observando uma redução no risco de lesões no período pós-parto", disse Margie Davenport, professora de fisiologia do exercício na Universidade de Alberta, sobre sua pesquisa mais recente.

Davenport descobriu que seus dados apontavam todos na mesma direção: se você está acostumada, o treinamento físico intenso durante a gravidez pode ser benéfico, incluindo atividades que anteriormente não eram recomendadas, como esportes de contato e treinamento de força pesado, ambos os quais ela estudou. "A menos que, é claro, você desenvolva uma contraindicação ou uma razão médica pela qual não deva, ou se simplesmente escolher não fazer, o que eu acho que é inteiramente prerrogativa de cada uma", disse Davenport.

A resistência é uma característica definidora da gravidez, que impõe demandas sustentadas e de longa duração aos sistemas cardiovascular, muscular e metabólico do corpo. Como se descobriu, o ultrarunning tem um impacto semelhante.

Um estudo de 2019 descobriu que o limite fisiológico para o gasto energético sustentado — o limite visto em eventos como o Tour de France ou o Ironman — é cerca de 2,5 vezes a taxa metabólica de repouso de uma pessoa. A mulher grávida média sustenta quase isso (2,2 vezes a taxa de repouso) por semanas seguidas. Quando se adiciona a amamentação, o investimento metabólico do corpo aumenta ainda mais.

"As mudanças fisiológicas que acompanham a gravidez espelham muito de perto — com apenas algumas exceções — as alterações do treinamento de resistência que todos os corpos experimentam", disse Cara Ocobock, coautora do estudo e atual antropóloga biológica e professora associada da Universidade de Notre Dame em Indiana.

A gravidez é uma proeza atlética por si só, e o conjunto de processos metabólicos que a tornam possível pode ser o motivo pelo qual os corpos femininos têm vantagens poderosas em resistência.

Acompanhando atletas grávidas

Canadá, Reino Unido e Austrália atualizaram recentemente suas recomendações para gestantes, com significativamente mais atividade sugerida do que antes, bem como muito mais latitude para atletas. Nos Estados Unidos, o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas recomenda pelo menos 150 minutos por semana de exercício de intensidade moderada.

O grupo também recomenda reduzir a intensidade mantendo a frequência cardíaca abaixo de 140 batimentos por minuto, menor do que o típico para muitas atletas.

Para atletas grávidas, esse nível de atividade está "essencialmente as destreinando", disse Davenport.

Conversas sobre gravidez e atividade física ainda se concentram em limitações e riscos, dizem as atletas.

"As pacientes podem receber informações muito diferentes sobre o que fazer durante a gravidez e pós-parto, com base no nível de conforto e familiaridade do obstetra com esses estudos", disse Kraus. Infelizmente, ela acrescentou, pode haver uma verdadeira "cultura do medo" em torno do esforço durante a gravidez.

Shefali Christopher, especialista clínica em fisioterapia esportiva e professora associada da Universidade Tufts, lembra-se da falta de orientação durante sua primeira gravidez. Embora ela estivesse fazendo o treinamento desafiador necessário para competição Ironman, a escassez de orientação clara baseada em evidências a levou a errar pelo lado da cautela e se tornar sedentária.

Quando estava pronta para voltar a treinar após ter o bebê, "recebi conselhos terríveis dos profissionais de saúde. Me disseram para seguir em frente e me exercitar sem qualquer orientação sobre frequência ou duração ou qualquer coisa", disse ela. A recuperação foi difícil. Foi então que ela dedicou sua própria pesquisa de doutorado, e seu trabalho desde então, ao assunto.

Trabalhando com pesquisadores no Reino Unido, EUA, Canadá e Europa, Christopher e sua equipe entrevistaram especialistas que tratam corredoras no pós-parto e criaram orientações em 2024 sobre triagem e etapas para retornar aos esportes. Sua pesquisa mais recente também acompanhou corredoras no pós-parto por mais de um ano, estudando função do assoalho pélvico, padrões de lesão, manutenção da força e mudanças biomecânicas.

"Tentamos incluir muito neste estudo, porque há uma grande falta de dados longitudinais para apoiar a maioria das alegações que são os conselhos atuais", disse ela.

Aos seis meses do estudo, sua análise inicial não publicada mostra resultados variáveis dependendo da atleta. No geral, Christopher levanta a hipótese de que a diferença nos resultados variou porque atletas mais ativas permaneceram mais fortes do que aquelas que tiveram que — ou escolheram — diminuir sua atividade.

"Estamos segurando as mulheres. Se a gravidez e o parto foram sem complicações, elas se mantiveram ativas durante a gravidez com descondicionamento mínimo, e seu corpo está pronto para voltar ao esporte, elas deveriam voltar", disse Christopher.

Consequências da confusão na vida real

A falta de protocolos padronizados específicos para atletas deixa muitas em um limbo, forçadas a escolher entre cautela vaga e sua própria intuição. E as redes sociais, alerta Christopher, frequentemente preenchem esse vácuo com anedotas e opiniões, amplificando a confusão e às vezes o medo. Sem evidências claras, os mitos persistem — e as atletas hesitam.

Orientação médica inadequada pode levar a lesões, esgotamento ou aposentadoria prematura dos esportes, e o mito persistente de que a gravidez é uma limitação atlética pode desencorajar patrocínios e cobertura da mídia.

Essas consequências ganharam atenção pública em 2019, quando a Nike enfrentou críticas por reduzir a compensação para atletas grávidas. Várias corredoras proeminentes, incluindo Allyson Felix e Alysia Montaño, compartilharam suas experiências de perder renda e apoio institucional no momento em que seus corpos estavam passando por algumas de suas mais extraordinárias proezas físicas.

A reação negativa provocou mudanças na política da Nike: "Em 2018, padronizamos nossa abordagem em todos os esportes para apoiar todas as nossas atletas durante a gravidez. Embora os detalhes de cada situação sejam únicos, a política suspendeu as reduções de desempenho por 12 meses. Além disso, a política foi expandida em 2019 para cobrir mais 6 meses, totalizando 18 meses", escreveu um representante da Nike em um e-mail.

O episódio destacou uma questão mais ampla: instituições atléticas frequentemente não reconhecem a gravidez como parte de um arco de desempenho. Em vez disso, tratam-na como uma interrupção.

Atletas como Huddle estão trabalhando ativamente para mudar isso, assim como os pesquisadores as apoiam com mais dados Em uma postagem no Instagram compartilhada no Dia Nacional das Mulheres no Esporte, alguns meses antes do nascimento de seu segundo filho, ela escreveu sobre como espera que os esportes evoluam para se adequar a todas as facetas da vida da atleta feminina.

"Como atleta profissional feminina, sempre senti muita tensão entre minha carreira e meu "corpo de atleta" e a ideia de planejar uma família e meu "corpo de mulher". A questão é que eles são o mesmo corpo incrível, mas parecia que a expectativa era ser um, depois se aposentar e ser o outro", escreveu Huddle. "Teria me sentido menos estressada se tivesse mais informações, recursos, apoio e modelos visíveis sobre todas as maneiras de prosperar tanto na carreira atlética quanto na maternidade. Gostaria que o futuro do esporte feminino permitisse que você se sentisse apoiada como ser completo o tempo todo."

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