Atraso na 2ª dose da Coronavac não garante proteção divulgada, dizem médicos

Eficácia do imunizante chinês contra o coronavírus é de até 73,8% com o intervalo entre as doses de até 28 dias; não há estudos sobre prazo estendido

Fila de vacinação no Rio de Janeiro, em 23/04/2021
Fila de vacinação no Rio de Janeiro, em 23/04/2021 Foto: CNN Brasil

Camila Neuman, da CNN, em São Paulo

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Ao menos 12 capitais brasileiras tiveram que suspender a vacinação contra a Covid-19 por falta de doses disponíveis da Coronavac. O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, afirmou em coletiva de imprensa, na semana passada, que não deve ter mais doses da vacina criada pelo laboratório chinês Sinovac Biotech e produzida no Brasil pelo Instituto Butantan a partir de 14 de maio.

Nesta segunda-feira (10),dois milhões de doses da Coronava foram entregues ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde. E mais um milhão de doses do imunizante devem ser entregues nesta quarta-feira (12), segundo o Instituto Butantan. A previsão do Butantan é entregar o total de 100 milhões de doses até 30 de agosto.

A paralisação na produção das doses se deu pela falta de IFA (Insumo Farmacêutico Ativo), vindo da China. A direção do Butantan está em tratativas com a Sinovac para a chegada de mais um carregamento de pelo menos mais 3 mil litros da matéria-prima, que devem chegar somente no dia 18 de maio. Se essa data se confirmar, não será possível entregar as novas remessas de doses antes do mês de junho. 

Carlos Lula, presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), afirmou em entrevista à CNN nesta segunda-feira (10) que os atraso na entrega desta e de outras vacinas podem ocorrer até julho no país.

Com isso, milhares de brasileiros devem receber a segunda dose com atraso, o que tem suscitado dúvidas sobre os possíveis prejuízos à imunização. Os estudos publicados sobre a Coronavac se referem a uma eficácia de até 73,8% contra o coronavírus se o intervalo entre as doses estiver entre 14 e 28 dias. Não há dados científicos sobre eficácia em relação a prazos maiores do que esse, ressalta Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

“Se não for possível receber a segunda dose até completar os 28 dias, o ideal é tomar o quanto antes, na primeira oportunidade, para completar o esquema vacinal”, explica Kfouri. 

Ele afirma ainda que não há estudos sobre a proteção oferecida pela Coronavac com apenas uma dose, por isso a necessidade do reforço. Por outro lado, verificou-se na própria Coronavac uma eficácia maior quando se estendeu o prazo da dose de reforço, mais um indicativo de que o atraso pode não ser negativo, neste caso, ele conclui.

O imunologista João Viola, presidente do Comitê Científico da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI), reitera a necessidade de tomar a segunda dose mesmo após os 28 dias. “As doses de reforço da maioria das vacinas são bem espaçadas. Sendo assim, mesmo se passar dos 28 dias, ainda estamos em um prazo muito razoável de ativação do nosso sistema imune para fazer a imunização”, afirma.

A seguir, os especialistas respondem às principais dúvidas sobre a questão:

Devo tomar a segunda dose da Coronavac mesmo com atraso?

Sim. O esquema vacinal completo da Coronavac é composto por duas doses. Conforme os estudos clínicos e a indicação na bula, o intervalo entre a primeira e a segunda dose deve ser de 14 a 28 dias. Após a aplicação da primeira dose, a pessoa será informada, no local, sobre a data de retorno.

E se o atraso passar de 28 dias, é preciso reiniciar a vacinação?

A recomendação é tomar a segunda dose, mesmo após os 28 dias da primeira aplicação. Não é preciso reiniciar o esquema, ou seja, começar do zero e tomar de novo a primeira dose de outra marca, por exemplo. Basta ir ao posto de saúde com o cartão vacinal que comprova a aplicação da primeira dose e pedir a segunda dose. 

O atraso de 28 dias na segunda dose pode causar algum prejuízo à imunização? 

Provavelmente não, mas faltam estudos para comprovar essa tese. Estudos clínicos da Coronavac mostraram que a vacina tem 50,7% de eficácia contra o coronavírus após a aplicação das duas doses em um intervalo de 14 dias, e de 73,8% quando o tempo entre as doses é de 28 dias. 

Não está definido qual será o nível de proteção entre aqueles que tomarem a segunda dose acima dos 28 dias, porque não há dados clínicos da administração da Coronavac em prazos maiores que este. Mas a recomendação é não deixar de tomar mesmo após esse período e continuar adotando as medidas de proteção como distanciamento social e uso de máscara.

 

 

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