Atrofia cognitiva causada por IA: quais os riscos e como evitar?

CNN Brasil conversou com neurologistas que explicaram de que forma IA pode impactar ativação cerebral

Mariana Valbão, da CNN Brasil
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Um estudo do MIT Media Lab, publicado em 2025 e conhecido como “Your Brain on ChatGPT”, trouxe um novo conceito chamado “cognitive debt”, ou dívida cognitiva, que relaciona o uso de inteligência artificial com uma possível atrofia cognitiva.

A pesquisa dividiu os 54 participantes em três grupos diferentes. Todos participaram das sessões 1 a 3, enquanto apenas 18 concluíram a sessão 4. O resultado entre os grupos foi uma diferença significativa na conectividade cerebral entre quem usou o mecanismo de IA e quem recorreu apenas ao próprio cérebro.

A CNN Brasil entrou em contatos com médicos especialistas para entender se há riscos reais diante do uso de IA e se é possível manter o cérebro ativado mesmo com a ferramenta.

Juliana Khouri, neurologista da Oncoclínicas, explicou como o estudo funcionou na prática: "Um grupo utilizou apenas o próprio raciocínio, outro teve acesso à internet e um terceiro utilizou inteligência artificial. O resultado foi claro: quanto maior a ajuda externa, menor a ativação cerebral".

"O grupo que usou IA apresentou o nível mais baixo de atividade, indicando que o cérebro economiza energia, mas também deixa de se exercitar".

A neurologista destaca que a inteligência artificial não é vilã. O problema, segundo ela, não está em usar, mas em usar de forma passiva.

Hugo Dória, Neurocirurgião, MD, PhD da Beneficência Portuguesa de São Paulo, revelou que o resultado aponta que "indivíduos que utilizavam inteligência artificial para tarefas cognitivas complexas apresentavam menor ativação cerebral, especialmente em áreas relacionadas à memória, atenção e pensamento crítico".

"Além disso, ao longo do tempo, esses indivíduos passaram a demonstrar menor capacidade de retenção de informações e menor senso de autoria sobre o próprio conteúdo produzido", acrescenta.

No entanto, ele ressalta que isso não seria um "dano cerebral", e sim um "possível processo de redução do esforço cognitivo".

Segundo Dória, "o cérebro funciona por estímulo e adaptação" e portanto, quanto mais exigimos dele como, por exemplo, com raciocínio, memória e tomada de decisões, mais os circuitos neurais são fortalecidos.

"O problema não é a inteligência artificial em si, mas o fenômeno chamado de cognitive offloading, ou terceirização cognitiva. Quando passamos a delegar funções essenciais, como pensar, estruturar ideias ou resolver problemas, o cérebro reduz seu nível de ativação nessas redes", explica ele.

O neurologista revela que estudos recentes mostraram que essa dependência precoce pode impactar processos fundamentais como formação de memória, pensamento crítico e capacidade de síntese de ideias.

Dessa maneira, o uso seguro da inteligência artificial passa a depender da forma como ela é utilizada pelos usuários. "Se utilizada como substituição do pensamento, ela empobrece o processo cognitivo. Se utilizada como extensão do pensamento, ela pode potencializar o aprendizado", diz Hugo Dória.

Na prática, isso significa:

  • Usar a IA depois de tentar resolver o problema sozinho;
  • Utilizar como ferramenta de refinamento, não de criação primária;
  • Questionar, validar e reinterpretar as respostas.

"A neurociência mostra que o cérebro precisa de esforço, erro e repetição para consolidar conhecimento. Quando pulamos essas etapas, reduzimos a profundidade da aprendizagem", aponta o neurocirurgião.

Dicas para manter o cérebro ativo:

  • Pratique raciocínio sem auxílio tecnológico;
  • Escreva, organize ideias e argumente por conta própria;
  • Utilize a IA como segunda etapa, não como ponto de partida;
  • Mantenha estímulos cognitivos diversos, como leitura profunda e estudo estruturado.

"No fim, o cérebro funciona como qualquer outro sistema: aquilo que não é estimulado, enfraquece. Aquilo que é desafiado, se desenvolve", conclui Dória.