Brasil faz implante inédito de válvula no coração sem cirurgia aberta

Procedimento inédito foi acompanhado com exclusividade pela CNN Brasil e pode ampliar o acesso a um tratamento menos invasivo para pacientes com cardiopatias congênitas

Thomaz Coelho e Julia Farias, da CNN Brasil, São Paulo
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O Brasil realizou, na última segunda-feira (13), o primeiro implante da válvula pulmonar transcateter Harmony, tecnologia desenvolvida para tratar pacientes com insuficiência pulmonar grave causada por cardiopatias congênitas. A CNN Brasil acompanhou com exclusividade o procedimento, realizado no HCor, em São Paulo.

A primeira paciente submetida ao implante foi uma mulher de 44 anos com tetralogia de Fallot, uma das cardiopatias congênitas mais comuns. No mesmo dia, outros dois procedimentos também foram realizados utilizando a nova tecnologia.

A cirurgia foi conduzida pelo cardiologista pediátrico e intervencionista Dr. Carlos Pedra, com apoio de uma equipe médica dos Estados Unidos, e durou cerca de uma hora e meia.

Como funciona o procedimento

A válvula Harmony™ é indicada para crianças maiores, adolescentes e adultos que nasceram com cardiopatias congênitas e desenvolveram insuficiência da válvula pulmonar ao longo da vida.

Em muitos desses pacientes, a doença é corrigida ainda na infância. No entanto, anos depois, a válvula pulmonar pode deixar de funcionar adequadamente e passar a apresentar vazamento, comprometendo o funcionamento do lado direito do coração.

Até então, a principal alternativa era uma nova cirurgia cardíaca de peito aberto.

Segundo o Dr. Carlos Pedra, a nova tecnologia permite substituir a válvula por meio de um cateter, sem necessidade de abrir o tórax.

Normalmente essa cardiopatia é corrigida cirurgicamente na infância, entre 6 e 10 meses de idade. Entretanto, com o passar do tempo, esses pacientes apresentam uma lesão residual no local da válvula pulmonar.
Dr. Carlos Pedra, cardiologia pediátrica e intervencionista

O especialista explica que a válvula é implantada na posição da válvula pulmonar e passa a exercer imediatamente sua função.

"A gente consegue colocar uma válvula na posição pulmonar do coração e essa válvula passa a funcionar normalmente. Sem a necessidade de aberturas, de circulação extracorpórea. Esse é o primeiro procedimento feito no Brasil, feito com sucesso, com tranquilidade", disse.

Primeira paciente

A primeira paciente brasileira submetida ao procedimento tinha 44 anos e havia sido operada ainda na infância para corrigir a tetralogia de Fallot. Com o passar dos anos, ela desenvolveu insuficiência pulmonar, caracterizada pelo vazamento da válvula.

Segundo o médico, antes da intervenção a paciente apresentava sintomas como fadiga e cansaço durante esforços físicos: "Antes ela apresentava sintomas, principalmente fadiga, cansaço, a potência cardíaca aumentava nos exercícios e agora com a válvula pulmonar funcionando bem, ela vai ter uma performance, desempenho cardiovascular melhor, especialmente durante os exercícios e vai se sentir muito melhor."

Alta pode ocorrer no dia seguinte

O procedimento é considerado minimamente invasivo e dispensa cuidados intensivos prolongados. Após a cirurgia, a paciente não precisou ser encaminhada para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Segundo o cardiologista, a recuperação costuma ser rápida. Ele explica que a única recomendação é evitar atividades físicas intensas nas primeiras semanas: "nem parece que o paciente foi submetido a um procedimento cardíaco".

Como os pacientes são escolhidos

Nesta primeira etapa, quatro pacientes foram selecionados para receber a válvula Harmony™: dois adolescentes e dois adultos. Segundo Carlos Pedra, a indicação depende da presença de insuficiência pulmonar e da avaliação detalhada do coração por exames de imagem.

"Inicialmente nós selecionamos quatro pacientes, existem dois adolescentes e dois adultos com insuficiência pulmonar, nos quais nós vimos que o lado direito do coração estava muito inchado, por assim dizer, fora a presença de sintomas.
Dr. Carlos Pedra, cardiologia pediátrica e intervencionista

Tecnologia pode chegar ao SUS

A Harmony™ foi desenvolvida para pacientes com trato de saída do ventrículo direito nativo ou previamente reconstruído cirurgicamente.

O dispositivo possui uma estrutura autoexpansível de nitinol, material que se adapta à anatomia do paciente, e utiliza folhetos confeccionados com pericárdio suíno. A implantação é realizada por cateter, em uma única etapa, sem necessidade de cirurgia cardíaca aberta.

Segundo o Dr. Carlos Pedra, a expectativa é que a tecnologia seja incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS).

A expectativa dos especialistas é que o procedimento reduza a necessidade de novas cirurgias abertas, diminua o tempo de internação e acelere a recuperação de pacientes com cardiopatias congênitas que, ao longo da vida, frequentemente precisam passar por múltiplas intervenções.