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    Câncer: técnicas menos invasivas ganham espaço e reduzem efeitos colaterais

    Tecnologia CAR-T usa células do sistema de defesa humano que combatem microrganismos nocivos, como alternativa ao tratamento contra o câncer

    Reajuste dos planos de saúde foi aprovado nesta semana por unanimidade pela ANS
    Reajuste dos planos de saúde foi aprovado nesta semana por unanimidade pela ANS bymuratdeniz/Getty Images

    Lucas Rochada CNN

    em São Paulo

    O avanço no estudo do câncer levou ao desenvolvimento de inúmeras terapias, com foco tanto na busca pela cura quanto na redução dos impactos da doença para o organismo humano.

    Os tratamentos tradicionais, como a quimioterapia e radioterapia, permanecem eficazes no combate a diferentes tipos de tumor.

    Atualmente, cientistas se dedicam ao aperfeiçoamento das técnicas e ao desenvolvimento de terapias menos invasivas e com efeitos colaterais reduzidos.

    No encontro anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO, em inglês), foram apresentadas inovações na área.

    CAR-T no Brasil

    A tecnologia CAR-T utiliza células do sistema de defesa humano, chamadas linfócitos T, que combatem microrganismos nocivos, como alternativa ao tratamento contra o câncer.

    A técnica, considerada um tipo de imunoterapia, retira e isola as células do sistema imunológico em um primeiro momento. Em seguida, elas são “reprogramadas” para identificar as células do câncer e, por fim, colocadas de volta no organismo do paciente. As células de defesa modificadas conseguem, então, combater as células tumorais.

    No Brasil, a tecnologia é alvo de amplos estudos pelo Instituto Butantan, em São Paulo. O método será produzido pelo instituto, pela Universidade de São Paulo (USP) e pelo Hemocentro de Ribeirão Preto. O objetivo do projeto é ampliar o acesso à CAR-T e disponibilizá-la no Sistema Único de Saúde (SUS).

    Descoberta relativamente recente, a CAR-T não está disponível em larga escala devido à complexidade associada à produção e insumos. Além disso, o tratamento deve ser aplicado em hospital e o paciente permanece em observação durante alguns dias.

    “Hoje, para produzir as células CAR-T, levamos de 10 a 15 dias. Se conseguirmos otimizar a produção para cinco dias, por exemplo, é melhor para o paciente, que receberá o tratamento mais rápido, e teremos um gasto menor, pois usaremos menos insumos. Estamos estudando vários planos para reduzir o custo da terapia”, aponta o diretor médico do Laboratório de Terapia Celular do Hemocentro de Ribeirão Preto, Gil Cunha De Santis, em comunicado.

    No Butantan, os principais alvos do uso da nova terapia são o linfoma e a leucemia. Em 2022, o instituto divulgou resultados do tratamento de uma estudante de ciências contábeis, de 25 anos, diagnosticada com leucemia em 2019.

    Aline Luiz Oliveira, de São Lourenço, em Minas Gerais, havia sido submetida a nove meses de quimioterapia, sofreu com efeitos colaterais e passou por um transplante de medula óssea. Apesar dos esforços, o câncer retornou em 2021.

    A estudante recebeu o tratamento com células CAR-T em fevereiro de 2022. “Depois de uma semana, a gente já viu excelentes resultados. Os exames começaram a mostrar que estava dando tudo certo, foi sensacional”, disse Aline, em comunicado do Butantan.

    O tratamento foi conduzido no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP. Segundo o Butantan, a jovem se recuperou e voltou às atividades de rotina.

    Os próximos passos da pesquisa incluem o desenvolvimento de células CAR-T para outros tipos de câncer no sangue, como mieloma múltiplo e leucemia mieloide aguda, e também para o combate a tumores sólidos, como glioblastoma e melanoma.

    “Já existem pesquisas em fases avançadas no exterior, principalmente nos Estados Unidos e Europa, com células CAR-T para outras neoplasias. Nós podemos reproduzi-las inicialmente em pequena escala, como fizemos com o CD-19, e depois ampliar para testes em pacientes. A previsão é que comecemos a trabalhar com novos alvos até o final de 2023”, diz de Santis.

    Medicação reduz risco de retorno do câncer de mama

    Resultados do estudo clínico Natalee mostraram um aumento significativo na taxa de sobrevivência de pessoas diagnosticadas com câncer de mama sensível ao bloqueio hormonal.

    Segundo os dados apresentados, a redução pode chegar a 25% no risco de recorrência em pacientes diagnosticadas com tumor em fase inicial classificado como receptor hormonal positivo e HER2-negativo, o subtipo mais comum da doença, representando cerca de 70% de todos os casos.

    “No cenário do câncer de mama inicial sabemos que, apesar da eficácia bem estabelecida da terapia endócrina, a chance de recidiva da doença em 20 anos é de aproximadamente 30% para as pacientes estadio II e pouco maior que 50% nas pacientes estadio III”, diz Luciana Landeiro, oncologista do Grupo Oncoclínicas.

    A especialista acrescenta que nesse cenário existe uma necessidade de otimizar o tratamento complementar com o intuito de reduzir o risco de recorrência. “A redução percentual de recidiva da doença em um quarto dos casos a partir dessa adição de ribociclibe à terapia hormonal abre novas frentes importantes no tratamento das pacientes com câncer de mama”, afirma.

    A pesquisa contou com a participação de 5.101 mulheres na pré e pós-menopausa com câncer de mama em risco de recorrência. Metade delas receberam ribociclibe em combinação a terapia endócrina e a outra parte apenas terapia endócrina.

    Após um acompanhamento médio de quase 28 meses, 189 pessoas no grupo de ribociclibe (7,4% dos pacientes) tiveram recorrência do câncer, em comparação com 237 pessoas no grupo de terapia hormonal isolada (9,3% dos pacientes).

    “O estudo mostrou um ganho absoluto de 3,3% na redução do risco de doença invasiva a distância a favor do braço do ribociclibe”, explica a médica.

    A especialista destaca que os resultados são promissores, mas pondera que ainda é necessário aguardar a aprovação dessa nova indicação para que esse protocolo seja recomendado às pacientes.

    “Esse foi o resultado da segunda análise interina, pré-planejada, do estudo com seguimento mediano de 27,7 meses. Vale lembrar que 80% das pacientes ainda estava recebendo ribociclibe quando a análise apresentada foi realizada. É muito importante acompanharmos como as curvas vão se comportar no seguimento”, diz.

    Mamografia permite a identificação do câncer de mama / Cristine Rochol/PMPA

    Câncer de mama metastático

    Durante o congresso internacional, a Beneficência Portuguesa (BP), de São Paulo, apresentou resultados de um estudo sobre o câncer de mama.

    Foram avaliados pacientes com câncer de mama do tipo HER2 positivo no cenário metastático, quando há espalhamento para outras partes do corpo, que fizeram tratamento na BP com o medicamento T-DM1, um anticorpo conjugado à droga, utilizado geralmente em segunda linha.

    De acordo com a médica Daniella Audi, na prática clínica observou-se que uma parcela significativa de pacientes que atingiram boa resposta com T-DM1, mas que em algum momento tiveram que interromper o tratamento por alguma toxicidade limitante (como, náuseas, vômitos, fadiga, neuropatia periférica ou pneumonite), mantiveram essa resposta a longo prazo, apesar da suspensão do medicamento.

    O estudo retrospectivo com 73 pacientes indiciou que 13% deles, que apresentaram resposta completa ou parcial com T-DM1 mas precisaram interromper o tratamento por toxicidade limitante, ficaram pelo menos 12 meses sem evidência de progressão de doença ou morte.

    Em relação ao total de pacientes analisados no estudo, cerca de 7% que receberam tratamento com T-DM1 e tiveram sua suspensão por toxicidade mantiveram resposta clínica por mais de 3 anos.

    “Esse estudo sugere que o T-DM1 pode apresentar um benefício a longo prazo no tratamento do câncer de mama metastático HER2 positivo e abre portas para novas pesquisas para avaliar esse efeito duradouro com outros anticorpos conjugados à droga”, diz a médica.

    Terapia celular contra o mieloma múltiplo

    O mieloma múltiplo é um tipo raro de câncer que afeta células da medula óssea. A doença pode provocar anemia e aumentar o risco de infecções.

    Esse tipo de câncer corresponde a cerca de 1% dos tumores malignos e 10% a 15% dos cânceres relacionados ao sangue. No Brasil, há poucos dados epidemiológicos disponíveis.

    De acordo com o Hospital A.C.Camargo, os tratamentos disponíveis atualmente não curam a doença, mas permitem que o paciente tenha saúde e qualidade de vida por longos períodos.

    Um estudo conduzido pela Faculdade de Medicina de Wisconsin, nos Estados Unidos, apresentou resultados positivos ao frear em 76% a progressão do mieloma múltiplo.

    A pesquisa Cartitude-4 avaliou o uso da tecnologia CAR-T que reprograma geneticamente as células de defesa do tipo T do próprio paciente.

    “O Cartitude-4 é, sem dúvida, impactante. Eu diria que ele é um estudo que traz, de fato, algo novo no tratamento dos pacientes com mieloma múltiplo. A célula responsável por toda a manifestação clínica da doença é o plasmócito, uma das células do nosso sistema de defesa cuja principal função é a produção de anticorpos, o que torna essa célula extremamente resistente aos tratamentos. Por isso, tratar o mieloma múltiplo é um desafio”, destaca o onco-hematologista Renato Cunha, líder do programa de Terapia Celular do Grupo Oncoclínicas.

    O estudo fase 3, apresentado no encontro anual sobre o câncer, avaliou a segurança e a eficácia da terapia celular em 419 pacientes que não responderam à lenalidomida e haviam passado, anteriormente, por até três outras linhas de terapia.

    Desses, 208 indivíduos receberam tratamento com uma substância chamada ciltacabtagene autoleucel (Cilta-cel), baseada na infusão das células CAR-T, enquanto os demais receberam o medicamento padrão.

    “Entramos em um momento novo, com uso e emprego de células geneticamente modificadas em laboratório para aumentar a sua eficiência e a sua especificidade na destruição de células do câncer. O CAR-T Cell anti BCMA, testado no estudo Cartitude-4, é um dos grandes exemplos do quão importante esse avanço é para a realidade dos nossos pacientes”, afirma.

    Enfrentamento do câncer de bexiga

    A cada ano, cerca de 10 mil novos casos de câncer de bexiga são diagnosticados no Brasil, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca). A doença afeta mais homens do que mulheres e a detecção precoce possibilita maior chance de tratamento.

    O estudo Thor, apresentado na conferência, apontou uma redução em 36% do risco de morte em casos de câncer de bexiga. A pesquisa avaliou o tratamento de tumores uroteliais com o erdafitinibe, medicação que tem como alvo a molécula FGFR, relacionada ao crescimento do câncer.

    “Essa pesquisa avaliou 266 pacientes que não tiveram resposta em até duas terapias anteriores. Os dados mostram que o tratamento reduziu em 36% o risco de morte em dois anos de acompanhamento, comparado ao padrão, o que traz evidências que irão contribuir para indicação de tratamento para esses casos”, diz Denis Jardim, líder da especialidade de Uro-oncologia do Grupo Oncoclínicas.

    Bolsas intravenosas com tratamento contra o câncer / Mike Blake/Reuters

    Novos tratamentos para tipo mais comum de câncer de pulmão

    Estudos apresentados no encontro da Sociedade Americana de Oncologia Clínica também apontam novas possibilidades no tratamento do câncer de pulmão em estágios iniciais. Entre eles estão o Keynote 671 e Adaura.

    “São pesquisas com técnicas de imunoterapia e terapia alvo que já eram muito usadas no tratamento, mas apenas para pacientes com doença avançada, uma situação na qual as chances de cura são muito pequenas ou inexistentes. Agora, conseguimos aplicar para aqueles que estão em estágios iniciais, o que aumenta exponencialmente a possibilidade de cura”, afirma William Nassib William Jr., líder da especialidade de tumores torácicos do Grupo Oncoclínicas.

    O estudo Adaura, do grupo, investigou o uso de terapia alvo no período pós-operatório para pacientes com câncer de pulmão localizado e que apresenta mutação em um gene chamado EGFR.

    “Já sabíamos, por dados apresentados do próprio estudo anteriormente, que o uso de osimertinibe por três anos após a cirurgia evitava a recorrência da doença”, explica.

    A pesquisa apontou que os benefícios são mais amplos. Os dados foram apresentados na conferência, incluindo informações de sobrevida global, com aumento robusto da sobrevida nos pacientes. Foram selecionados 682 pacientes de modo aleatório: 399 receberam a droga terapia alvo osimertinibe e 343 receberam placebo, uma substância sem efeito ao organismo.

    Em pacientes com doença em estágio II–IIIA, a taxa de sobrevivência em 5 anos foi de 85% com osimertinibe contra 73% com placebo. A partir do estágio II, o câncer se torna mais grave e agressivo.

    “A droga demonstrou um benefício sem precedentes, altamente significativo estatisticamente e clinicamente em pacientes em estágio IB–IIIA”, comenta o especialista.

    “Os dados recém-divulgados do estudo Adaura confirmam o potencial de osimertinibe no tratamento neste cenário, prolongando a vida desses pacientes, e pela primeira vez, mostrando um tratamento adjuvante oral capaz de reduzir o risco de morte destes pacientes”, ressalta Anouchka Chelles, diretora médica da área de oncologia da AstraZeneca, que também participa do estudo.

    Já no estudo Keynote 671, pacientes com câncer de pulmão localizado e operável receberam tratamento com quimioterapia mais imunoterapia (pembrolizumabe) antes da cirurgia. Após a cirurgia, os pacientes também receberam imunoterapia adjuvante por aproximadamente um ano.

    Esse grupo foi comparado com outro que recebeu quimioterapia pré-operatória (sem imunoterapia) seguida de cirurgia. Os pacientes que receberam a imunoterapia tiveram maior chance de eliminação completa do tumor durante a cirurgia e uma menor chance de recorrência do tumor ao longo do tempo.

    “Este estudo vem corroborar o papel da imunoterapia pré-operatória e esta estratégia passa a se tornar mais uma opção de tratamento para esses pacientes. Pelo menos três outros estudos reportados recentemente com estratégias semelhantes porém com outras drogas imunoterápicas, nivolumabe, durvalumabe e toripalimabe, demonstraram efeitos benéficos muito parecidos”, diz William.

    O especialista pondera que, apesar dos avanços, outras perguntas permanecem. “Não sabemos se uma destas drogas é melhor do que a outra, não sabemos qual é a verdadeira necessidade do uso de imunoterapia por um ano após a cirurgia e não sabemos como devemos proceder com os pacientes que não tiveram eliminação completa do tumor pelo tratamento pré-operatório”, afirma.

    (Com informações de Aline Tavares, do Instituto Butantan)