Cientistas veem Mounjaro reduzir obsessão por comida diretamente no cérebro

Estudiosos fizeram primeiro registro cerebral direto da ação do Mounjaro e identificam um biomarcador neural que antecipa desejos compulsivos por comida

Jorge Marin, colaboração para a CNN Brasil
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Cientistas registraram pela primeira vez o efeito do Mounjaro no cérebro humano  • Lilly/Divulgação
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Enquanto testavam uma terapia experimental avançada para pessoas obesas com compulsão alimentar, pesquisadores da Universidade da Pensilvânia (EUA) conseguiram registrar, por pura coincidência, o primeiro registro cerebral direto do efeito da tirzepatida, o princípio ativo do Mounjaro, no núcleo accumbens.

Em outras palavras, é a primeira vez que cientistas conseguem observar — em tempo real e diretamente no circuito de recompensa do cérebro — um medicamento para obesidade agindo sobre neurônios reais. A estimulação cerebral profunda (ECP) usada na pesquisa é uma espécie de "marcapasso para o cérebro".

A ECP é, na verdade, um procedimento cirúrgico no qual eletrodos muito finos são implantados no núcleo accumbens, região que expressa o receptor GLP-1, hormônio imitado pelos modernos medicamentos para perda de peso. Esses fios se conectam a um gerador de pulsos que, sob a pele, envia correntes fracas e precisas para o cérebro.

Segundo o estudo, publicado na Nature Medicine, o experimento foi direcionado a pacientes que, após tentarem dietas, exercícios, medicamentos para perda de peso, terapias e até cirurgia bariátrica, continuaram com compulsão alimentar, preocupação obsessiva com comida e reganho de peso.

Entre os três participantes, uma mulher de 60 anos realizava tratamento para diabetes tipo 2 com Mounjaro. Mesmo não sendo o foco inicial do estudo, os pesquisadores aproveitaram a oportunidade única para observar diretamente como a tirzepatida modulava seu circuito cerebral de recompensa durante os episódios de forte desejo alimentar.

Alerta silencioso do cérebro antes das crises de recaída

Representação artística dos dois eletrodos de profundidade colocados no núcleo accumbens da participante e imagens de ressonância magnética • Wonkyung Choi et al., Nature Medicine, 2025/Reprodução
Representação artística dos dois eletrodos de profundidade colocados no núcleo accumbens da participante e imagens de ressonância magnética • Wonkyung Choi et al., Nature Medicine, 2025/Reprodução

Nos três meses seguintes ao de recuperação da cirurgia, que coincidiram com o aumento da dose de tirzepatida, a paciente 3 não só perdeu peso, mas também experimentou pouquíssimas crises de preocupação alimentar severa. A ausência de “ruído alimentar” impressionou o pesquisador líder, Casey Halpern, da UPenn.

"Também foi muito impressionante que isso tenha sido precedido por um profundo silêncio no núcleo accumbens, em termos da atividade elétrica registrada nessa área", afirmou o neurocirurgião, citando as medições silenciosas das ondas delta-theta que geralmente "gritam" durante crises de preocupação alimentar.

No entanto, após os três meses de “silêncio cerebral” e raros sintomas, o alarme cerebral retornou. A princípio, apenas em forma de sinal elétrico anormal, e só semanas mais tarde como sintomas de compulsão. Ou seja, o sinal cerebral prevê e antecipa as crises.

Curiosamente, cinco a sete meses depois do implante, os pesquisadores notaram que o padrão cerebral ligado à perda de controle alimentar, visto nos outros participantes, começou também a surgir na terceira, mesmo estando na dose máxima de tirzepatida. Como suspeitaram, tratava-se de um alerta de recaída.

Segundo os autores, embora o biomarcador neural tenha reaparecido no mês 5, foi somente no mês 7 — cerca de sete semanas depois — que o retorno da preocupação alimentar se tornou mais severo. Isso significa que o cérebro dá sinais de que o problema vai voltar antes mesmo que o paciente perceba.

Entendendo o efeito cerebral do Mounjaro e projetando novas terapias

No futuro, biomarcadores neurais poderão orientar tratamentos mais precisos • Lilly Brasil/Divulgação
No futuro, biomarcadores neurais poderão orientar tratamentos mais precisos • Lilly Brasil/Divulgação

Além de ser a primeira demonstração direta no cérebro humano de um medicamento moderno para obesidade alterando um circuito neural, o estudo também mostrou que o Mounjaro consegue agir diretamente em um centro de recompensa do cérebro, e reduzir os sinais que provocam a vontade intensa de comer.

Nesse sentido, a tirzepatida parece acalmar um padrão de atividade cerebral disfuncional que está por trás do impulso intenso de buscar comida. Isso significa que o medicamento não atua só no apetite, mas também no circuito cerebral que controla motivação, prazer e vontade de comer.

Essas descobertas sugerem que, no futuro, biomarcadores neurais poderão orientar tratamentos mais precisos para compulsão alimentar, permitindo ajustar doses de agonistas GLP-1/GIP antes das recaídas e identificar pacientes com maior tendência a desenvolver tolerância.

Além disso, conhecer o intervalo entre o surgimento do biomarcador e os sintomas permite intervenções preventivas, como terapia cognitivo-comportamental ou redução de gatilhos alimentares. Terapias personalizadas inéditas podem integrar manejo metabólico, suporte psicológico e medicina de precisão.

Para a neurocientista Amber Alhadeff, do Monell Chemical Senses Center, na Filadélfia, que não participou da pesquisa atual, “será necessário validá-la em mais pessoas", uma vez que a evidência veio de apenas um dos participantes de um estudo reduzido, afirmou a pesquisadora à revista Nature.