Coordenador da Conep vê “fortes indícios” de fraude científica da Prevent Senior

Segundo dia de depoimentos na Câmara Municipal de São Paulo foi marcado por protesto de funcionários da operadora.

Fachada de hospital da Prevent Senior
Fachada de hospital da Prevent Senior DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO CONTEÚDO

Matheus Meirellesda CNN

em São Paulo

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O coordenador da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), Jorge Venâncio, apontou fortes indícios de fraude científica em um estudo realizado pela Prevent Senior. Durante depoimento à CPI da Prevent Senior, na Câmara Municipal de São Paulo, nesta quinta-feira (21), o médico relatou uma pesquisa envolvendo medicamentos do chamado “kit covid”.

A pesquisa de 14 de abril de 2020, segundo ele, foi suspensa depois que a empresa apresentou resultados em pré-print três dias após o início do estudo, que envolveu 600 pacientes.

O caso foi enviado ao Ministério Público Federal de São Paulo, que abriu investigação em janeiro deste ano.

Segundo Venâncio, a Prevent Senior não recorreu da suspensão do estudo. Ele destacou os indícios de fraude porque, mesmo se houvesse um equívoco e os dados apresentados como artigo fossem de um outro estudo, o mesmo também não passou por autorização da Conep, ou seja, não poderia ter sido realizado.

Estudo com nanopartículas

A segunda a ser ouvida, Bruna Morato, advogada dos médicos que elaboraram um dossiê sobre a conduta da Prevent Senior, afirmou que a empresa fez pesquisa com nanopartículas sem autorização da Conep.

A CNN teve acesso a um dos termos de consentimento. Segundo ela, a mãe do empresário Luciano Hang, Regina Hang, e o médico Anthony Wong, que faleceram em hospitais da rede, foram submetidos aos experimentos.

O estudo utilizou o medicamento metotrexato enriquecido em pacientes com coronavírus. O remédio é utilizado em casos extremos de artrite reumatoide e em quimioterapias.

Bruna Morato citou ainda relato de uso de células-tronco em tratamento nos pulmões. Um dos pesquisadores do hospital tinha autorização apenas para utilização do procedimento em casos ortopédicos, especificamente nos joelhos.

Ela também citou a compra por parte da Prevent Senior, em abril de 2021, de 21.400 comprimidos de flutamida, utilizada no tratamento de câncer de próstata. No mês anterior, foram 200 comprimidos. Segundo a Conep, o hospital não tem autorização para utilização do medicamento em pacientes com Covid-19.

“Altas celestiais”

Bruna também falou que a direção da Prevent Senior cobrava “altas celestiais”, nome dado ao procedimento de liberar leitos o quanto antes. A orientação ocorria quando o internado se tratava de alguém publicamente conhecido.

Na CPI da Pandemia no Senado, ela havia citado outro termo, “óbito também é alta”, para descrever essa mesma conduta.

Manifestações

Pouco antes do início da sessão da CPI, funcionários e apoiadores da Prevent Senior fizeram uma manifestação em favor da operadora em frente à Câmara Municipal de São Paulo. Foram usados cartazes, faixas e ambulâncias no ato.

A pista do viaduto Jacareí no sentido Centro ficou interditada por cerca de 2 horas.

Posicionamento da Prevent Senior

Sobre a pesquisa suspensa em abril de 2020, a Prevent Senior disse em nota que não cometeu fraudes.

Afirmou que “meramente, publicou uma descrição da evolução de casos entre pacientes que haviam usado os medicamentos, comparando-os com aqueles que optaram por não utilizá-los.”

A Prevent alega também que comprovará a inexistência de ação fraudulenta.

E cita que no depoimento, o próprio Jorge Venâncio diz não haver “certeza absoluta” sobre o tema.

Quanto à Bruna Morato, a Prevent Senior alega que a advogada é autora de uma tese fantasiosa e será responsabilizada judicialmente por denunciação caluniosa e outros crimes.

Diz que o depoimento de hoje foi pródigo em mentiras e narrativas criadas somente depois que a advogada fracassou em tentar um acordo milionário com a empresa.

E destaca que a Prevent Senior tem total interesse que investigações técnicas, sem contornos políticos, sejam realizadas por autoridades como o Ministério Público.

Requerimentos

Após os depoimentos, a CPI aprovou diversos requerimentos para dar andamento aos trabalhos de apuração.

O supervisor geral do DEUSO, Departamento de Uso e Ocupação de Solo da Secretaria de sub-prefeituras, Carlos Roberto Candella, foi convocado. Ele havia sido convidado na primeira semana de depoimentos, mas não apresentou dados concretos sobre os alvarás de funcionamento de unidades da Prevent Senior.

Junto com ele, foram chamados os subprefeitos da Mooca, de Pinheiros, Santana/Tucuruvi e Sé.

Também foram convocados os pesquisadores e coordenadores de estudos da Prevent Senior Rodrigo Barbosa Ésper, Carla Morales Guerra Godoy e Rafael de Souza da Silva.

Ainda foram solicitados os termos de consentimento dos pacientes submetidos às pesquisas.

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