Covid-19: estudo identifica padrões de danos cerebrais em pacientes

Pesquisa revelou que 58,5% dos casos graves com impacto neurológico apresentavam anormalidades cerebrais, sendo o AVC (acidente vascular cerebral) isquêmico o mais frequente

Gabriela Maraccini, da CNN Brasil
Pesquisadores encontraram padrões de danos cerebrais em pacientes que tiveram Covid-19 com manifestações neurológicas  • Tunvarat Pruksachat/GettyImages
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Pesquisadores de universidades e hospitais da Europa e da América Latina, incluindo brasileiros, desenvolveu um sistema padronizado para descrever padrões de dano cerebral em pacientes que tiveram Covid-19 com sintomas neurológicos agudos. O estudo foi publicado recentemente na revista Neuroradiology.

O trabalho analisou exames de ressonância magnética de 458 pacientes atendidos em 25 centros de cinco países, incluindo o Brasil, e revelou que 58,5% dos casos apresentavam anormalidades cerebrais, sendo o AVC (acidente vascular cerebral) isquêmico o mais frequente (25,6%), seguindo por micro-hemorragias (15,9%).

A pesquisa foi liderada por especialistas da Universidade de Estrasburgo, da França, e do UCL Queen Square Institute of Neurology, do Reino Unido, com colaboração de instituições e de profissionais da Itália, da Espanha e do Brasil, como o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e Grupo Fleury.

A equipe utilizou métodos estatísticos bayesianos (sistema usado para descrever a incerteza epistemológica usando a linguagem matemática da probabilidade) para identificar padrões de imagem e sua relação com a gravidade da infecção. O novo modelo de classificação conseguiu abranger 94% das alterações observadas, tornando-se uma ferramenta de referência para estudos futuros e para a prática clínica.

Entre os achados, os pacientes internados em unidades de terapia intensiva apresentaram mais frequentemente lesões hemorrágicas e microssangramentos cerebrais, enquanto os demais mostraram predominância de eventos isquêmicos. As lesões na substância branca (10,9%) foram mais comuns que as da substância cinzenta (8,1%), e o realce leptomeníngeo (indicativo de inflamação) foi identificado em 8,3% dos pacientes.

Qual a relação entre Covid-19 e lesões neurológicas?

Segundo Leandro Tavares Lucatto, neurorradiologista do Fleury Medicina e Saúde, manifestações neurológicas relacionadas à infecção por Covid-19 foram identificadas desde o início da pandemia em alguns pacientes, principalmente entre aqueles que apresentaram quadros mais graves da doença.

"O acometimento neurológico pela Covid-19 está relacionado a mecanismos como dano indireto ao encéfalo causado por distúrbios da coagulação, hipoxemia (redução da oxigenação dos tecidos), alteração nos eletrólitos e uma desregulação do sistema imunológico", explica Lucatto.

"Pacientes com quadros clínicos mais graves têm maior risco de desenvolver manifestações neurológicas da Covid-19. Em pacientes com infecções menos severas, o distúrbio da coagulação contribui para manifestações de isquemia ou de hemorragia cerebral", completa.

Segundo o especialista, os padrões identificados pelo novo estudo permitem compreender melhor a diversidade das manifestações neurológicas associadas à Covid-19.

"A padronização da análise dos exames de ressonância magnética é um avanço importante para entendermos melhor como o coronavírus afeta o cérebro, sendo de grande valia para identificar rapidamente os padrões mais comuns e para tomar decisões mais precisas e personalizadas no cuidado dos pacientes", explica.