Covid-19 na Rússia: necrotérios lotados desmentem números oficiais

Registros amadores de hospitais em Moscou mostram uma realidade mais espantosa que os números oficiais da pandemia

Ônibus em Moscou
Ônibus em Moscou Foto: REUTERS

Matthew Chance, Zahra Ullah e Mary Ilyushina,

da CNN

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Os membros de um corpo sem vida pendurados para fora de uma maca são vistos em uma enfermaria de hospital, a poucos metros de distância de pacientes com coronavírus que lutam por suas vidas. Uma mulher idosa luta para conseguir ar e sua respiração ofegante e desesperada forma uma trilha sonora macabra num dos muitos vídeos perturbadores gravados por celulares em hospitais da Rússia.

“É assim que nossas noites parecem: aterrorizantes”, diz uma voz masculina narrando a filmagem, dada à CNN por um importante sindicato de médicos russos ligado à oposição, a Aliança dos Doutores. As imagens teriam sido gravadas em meados de outubro por um membro da equipe do hospital em Ulyanovsk, uma cidade a cerca de 750 quilômetros a leste de Moscou.

“Mais dois em nossa enfermaria”, aponta ele ao filmar um cadáver. “É assim que a Covid-19 está matando todo mundo”. 

O vídeo medonho é apenas um dos vários obtidos pela CNN que revelam condições terríveis em instalações superlotadas. Algumas imagens mostram necrotérios com corpos, nus, empilhados uns sobre os outros em pisos encardidos, em cenas que mais parecem zonas de guerra do que hospitais.

Na luta da Rússia luta controlar a pandemia, os vídeos são um dos vários sinais que apontam para um número real de mortos muito mais alto do que as cifras oficiais sugerem. 

Mulheres de máscara na Praça Vermelha em Moscou
Moscou é uma das cidades mais afetadas pela Covid-19 no mundo
Foto: REUTERS

A Rússia afirma que, até 16 de novembro, mais de 33 mil pessoas haviam morrido de Covid-19 no país. Mas esse número é contestado por críticos que dizem que o Kremlin (a sede do governo russo) está subestimando os números. 

“Acho que o número real é cerca de 130 mil pessoas”, afirmou Alexey Raksha, um ex-estatístico do governo que fez suas estimativas com base em dados oficiais sobre o excesso de mortes (o número de óbitos acima do que normalmente seria esperado) para avaliar o tamanho da pandemia. 

Usando dados de registros locais, Raksha estima que a Rússia atingiu cerca de 160 mil a 170 mil mortes em excesso de abril a novembro. Ele atribui cerca de 80% dessas fatalidades ao coronavírus, um número médio agregado de estatísticas semelhantes publicadas por países ocidentais. 

Entre abril e setembro de 2020, o número oficial de mortalidade excessiva da Rússia foi de aproximadamente 117 mil registros a mais, em comparação com o ano passado, de acordo com a Rosstat, a agência de estatísticas russa. O número oficial de óbitos por Covid-19 nesse período é de aproximadamente 21 mil pessoas. 

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Ainda não há dados da Rosstat disponíveis para outubro e novembro, mas, a julgar pelos registros oficiais divulgados pelo centro de resposta ao coronavírus do país, a propagação da pandemia acelerou rapidamente. 

Raksha explicou que saiu da Rosstat em julho, depois de falar publicamente sobre a forma como a agência contabiliza as vítimas da pandemia. Ele diz que a discrepância entre os números oficiais e seus cálculos se deve à maneira como a Rússia classifica suas baixas da Covid-19. 

Bartender usa máscara em estabelecimento em Moscou
Bartender usa máscara em estabelecimento em Moscou
Foto: REUTERS 

Segundo ele, a Rosstat usa um sistema de classificação de quatro camadas. De acordo com o site da agência, são eles: 1. o paciente teve teste positivo para Covid-19 antes da morte; 2. a Covid-19 for considerada a principal causa de morte, mas precisaria ser confirmada por autópsia ou pesquisa adicional; 3. o vírus contribuiu para a morte em pessoas com doenças subjacentes; 4. a Covid-19 for confirmada, mas não considerada um fator importante para a morte. 

“Apenas o primeiro nível de vítima, quando o paciente apresenta teste positivo para o coronavírus antes de morrer, é registrado como morte por Covid-19”, contou Raksha à CNN. De acordo com Raksha, as mortes em todas as outras três camadas não constam dos números oficiais. 

Nem o Ministério da Saúde russo, nem o órgão fiscalizador e saúde pública Rospotrebnadzor ou a Rosstat responderam aos pedidos de comentários da CNN

O método de contagem difere das diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), que afirmam que todas as mortes relacionadas à Covid-19 devem ser contabilizadas, a menos que haja “uma causa alternativa clara que não pode ser relacionada” à doença. 

Enquanto luta contra a pandemia, no entanto, a Rússia ainda sabe como fazer uma bela apresentação. Em agosto, em meio a muito alarde, ela se tornou o primeiro país a registrar uma vacina contra o coronavírus, a Sputnik V, antes mesmo do início dos testes cruciais de Fase 3. Recebida com ceticismo por cientistas externos, a vacina ainda não foi amplamente aplicada na população. 

A CNN também teve acesso raro a um hospital de campanha de coronavírus de última geração com 1.300 leitos em Moscou, instalado no local foi um estádio de patinação no gelo durante um campeonato mundial. Ele é chamado de Palácio do Gelo. 

Hospital de campanha em Moscou
Krylatskoye Ice Palace, uma arena de patinação no gelo, foi transformada em hospital de campanha em Moscou
Foto: CNN 

“A crise é complicada, mas administrável”, disse o médico-chefe, Andrey Shkoda, à CNN enquanto nos conduzia para uma visita no local. “Temos todos os equipamentos diagnósticos necessários aqui, ultrassom, anestesia e respiradores”. 

No alto, uma tela gigantesca que normalmente exibe os resultados de patinação ou hóquei no gelo para a multidão agora é usada para mostrar filmes aos pacientes durante o tratamento. 

O médico-chefe disse que o hospital é totalmente digital: cada paciente recebe uma pulseira com um código QR que se conecta a todos os seus registros médicos. 

“Este é o tratamento padrão”, contou o chefe à CNN, referindo-se ao padrão em Moscou e outras partes da Rússia. 

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No entanto, essa imagem otimista de um país em total controle da pandemia, com uma rede de amplas instalações médicas, parece cada vez mais em desacordo com as imagens fortes que emergem de hospitais, do exame mais profundo das estatísticas oficiais e do testemunho de alguns profissionais da área médica. 

No mês passado, o governo russo admitiu uma pressão crescente em suas instalações médicas, com a vice-primeira-ministra Tatyana Golikova dizendo que os leitos hospitalares em cinco das regiões mais afetadas já tinham mais de 95% da capacidade. 

Um motorista de ambulância na região de Saratov, no sudoeste da Rússia (que falou à CNN sob condição de anonimato por temer repressão no trabalho) disse que a situação em seu hospital é “uma bagunça”. 

“Os médicos até se recusam a admitir pacientes idosos com dificuldades respiratórias”, contou. “Eles dizem que não há necessidade de interná-los. Mas a verdadeira razão é que não há vagas suficientes na enfermaria”. 

Em outro vídeo dado à CNN, filmado em um necrotério lotado, uma voz masculina fala sobre as imagens horríveis: “Quase não conseguimos encontrar um lugar aqui. É como um filme de terror”. 

Anna Chernova em Moscou contribuiu para este relatório.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês). 

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