Covid: Após coma, homem levou meses até achar 116 pessoas que salvaram sua vida

Após acordar do coma, americano Jeff Gerson levou meses para poder agradecer os profissionais de saúde que o trataram das complicações do coronavírus

Jeff Gerson esteve à beira do morte por conta da Covid-19
Jeff Gerson esteve à beira do morte por conta da Covid-19 Foto: Acervo pessoal

Por Christina Zdanowicz, da CNN

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Após acordar de um mês de coma, um dos primeiros pensamentos do americano Jeff Gerson foi que ele queria agradecer às pessoas que salvaram sua vida.

Gerson, um homem de 45 anos de Manhattan, chegou ao Hospital Langone Tisch, da Universidade de Nova York,  em 18 de março com falta de ar, tosse incontrolável e febre alta. Um dia depois, ele foi diagnosticado com Covid-19 e colocado em um ventilador mecânico.

Gerson passou cinco meses tentando localizar todos os profissionais médicos que o ajudaram a se recuperar. A lista tinha 116 pessoas, disse ele.

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“Sinto-me imensamente grato e sortudo”, disse Gerson à CNN. “A história, se existe, não é necessariamente que eu sobrevivi, mas que essas pessoas salvaram minha vida. Eu realmente senti a necessidade de encontrá-los, saber seus nomes e agradecê-los.”

Ele escreveu uma carta em novembro para agradecer aos médicos, enfermeiras, terapeutas respiratórios e outros. Gerson enviou o agradecimento por e-mail a um administrador do hospital, que o repassou à equipe.

“Se você está recebendo esta carta, é porque tomei conhecimento de que você contribuiu para salvar minha vida”, escreveu Gerson. 

Longa busca

Demorou meses para encontrar todos os profissionais de saúde. Ele investigou os nomes de três maneiras. Começou com o aplicativo MyChart, que rastreia os exames de pacientes. Gerson viu quem pediu os mais de 750 exames que ele fez enquanto estava no hospital.

Um mês depois, uma enfermeira o ajudou a obter 60 nomes em uma planilha de quando ele recebeu alta no final de abril. O paciente também examinou relatórios de seguro para ver nomes vinculados a seus pedidos.

Ele sentia tinha que encontrar uma maneira de agradecê-los. Foi difícil dizer obrigado quando ele acordou do coma, pois o hospital limitou o número de funcionários que entravam e saíam de sua sala de UTI.

“Exceto pelas enfermeiras com quem eu estava interagindo diretamente, realmente não havia uma oportunidade de agradecer a ninguém. Isso deixou um vazio na minha recuperação emocional”, disse Gerson. “Aqui estou eu. Tendo sobrevivido, choro de alegria todas as manhãs e sinto uma enorme dívida de gratidão para com essas pessoas com quem nem consigo falar porque não entram no meu quarto.”

Uma enfermeira gentil deu-lhe as boas-vindas de volta e rapidamente se ofereceu para ajudá-lo a ligar para amigos e familiares que estavam tão preocupados com ele. Ninguém teve permissão para visitar o paciente.

Gerson acordou no dia 17 de abril. “Acordei bem a tempo de ligar para meu filho em seu sexto aniversário”, disse ele.

Uma semana depois, um “desfile emocionado pelo corredor do hospital” o saudou quando ele recebeu alta.

“Foi realmente uma festa e uma celebração para as pessoas no hospital”, disse Gerson. “Eles estavam em êxtase e muito felizes por enviar alguém vivo e com um bom prognóstico para a reabilitação.”

O profissional de finanças disse que queria dar uma grande festa para todos que o ajudaram. Porém, logo ele percebeu que o mundo havia mudado enquanto esteve sedado.

“Olhei pela janela e foi quando lentamente começou a me ocorrer: o mundo não era o mesmo mundo que deixei quando fui dormir”, disse ele.

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Médicos tentaram tudo que podiam

A equipe médica que cuidou de Gerson o manteve vivo, então com 44 anos, com dois tipos de intervenção mecânica.

O Dr. Luis Angel, pneumologista e especialista em cuidados intensivos, foi um dos médicos que o atenderam na UTI.

“Logo depois de ser internado em nosso hospital, ele desenvolveu insuficiência respiratória e pneumonia pela Covid-19″, disse Angel à CNN. “Ficou claro que não podíamos apoiá-lo inicialmente com o oxigênio e depois com a ventilação mecânica. Depois, tornou-se importante para ele usar o sistema de oxigenação por membrana extracorpórea”.

Esse sistema usa uma bomba para remover o sangue do paciente e fazer circulá-lo através de um pulmão artificial. O órgão artificial adiciona oxigênio ao sangue do paciente e remove o dióxido de carbono.

“Ele estava muito, muito doente e tivemos que mantê-lo sob sedação muito profunda de uma forma que ele não pudesse se lembrar de nada por pelo menos duas ou três semanas até que seus pulmões começassem a se recuperar com o tempo”, disse Angel.

Era meados de março e o início da pandemia. Não se sabia muito ainda sobre como tratar pacientes com Covid-19, exceto o que os médicos estavam fazendo na China e na Itália, dois dos primeiros epicentros.

O tratamento com pulmão artificial e traqueostomias, ambos realizados em Gerson, eram dois métodos “controversos” naquele momento, disse Angel. A ideia era que esses pacientes estavam tão doentes que não sobreviveriam ao tratamento.

“Jeff foi um dos quase 50 pacientes que colocamos nesse tratamento no hospital durante a pandemia”, disse ele.

Se não fosse pelas intervações, Angel disse que Gerson teria morrido.

Quando Angel viu a carta que Gerson escreveu para aqueles que cuidavam dele, ele disse que aquilo era “bom”, mas que a equipe estava apenas fazendo seu trabalho.

“No final das contas, não estamos procurando ninguém para agradecer particularmente ou algo assim”, disse Angel.

Depois de trabalhar longos turnos e não tirar folga por semanas e semanas, Angel disse que a carta era significativa.

“Você vê a quantidade significativa de trabalho que ele fez e alguém que muito provavelmente iria morrer no hospital, se recupera totalmente e então ele pode dizer obrigado é muito significativo para nós”, disse o médico.

Médico morreu lutando contra a Covid

Gerson, infelizmente, não conseguiu entrar em contato com uma pessoa: o Dr. Sydney Mehl, que estava tratando de pacientes com Covid-19 quando ele também adoeceu e morreu do vírus, confirmou uma porta-voz do hospital.

Mehl, um cardiologista, testou positivo para Covid-19 e foi internado no hospital em 20 de março.

“Ocorreu-me que este médico que deu sua vida lutando contra Covid, que eu fui um dos últimos pacientes, se não o último paciente que ele tratou”, disse Gerson.

Gerson tem entrado em contato com a esposa e a filha de Mehl por telefone e mensagem de texto e ele disse como ficou grato pela ajuda do médico. O paciente também fez uma doação para o fundo de memória do médico.

Desde que Gerson enviou a carta aos funcionários do hospital, ele disse que ouviu falar ainda mais de pessoas que ajudaram a cuidar dele.

“Continue fazendo o que você faz”, escreveu Gerson na carta. “Continue sendo os heróis que vocês são e saiba que terão para sempre a minha gratidão.”

 

 

 

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