Da emergência às telas: como funciona consultoria médica em filmes e séries

Médicos atuam atrás das câmeras para garantir maior verossimilhança às séries e filmes

Laura Toyama, colaboração para a CNN Brasil
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Séries médicas são um sucesso de audiência desde os anos 1990, como "Plantão Médico", estrelada por George Clooney, a atemporal "Grey's Anatomy" e até sucessos recentes como "The Pitt", da HBO. Os espectadores se sentem parte da rotina de um hospital e acabam aprendendo nomes de procedimentos, doenças e até materiais cirúrgicos devido à representação fiel nas telas. Mas como o cinema consegue representar de forma verídica uma ciência complexa como a medicina?

A maioria das produções audiovisuais que têm como tema central a área da saúde conta com consultores médicos: profissionais que trabalham ao lado de roteiristas e atores, oferecendo seu conhecimento para garantir maior veracidade às cenas.

A CNN Brasil conversou com Gerson Salvador, médico infectologista, escritor e professor da USP, que realiza esse trabalho. Ele também é autor de projetos autorais como roteirista, além de ter participado de produções para streamings como a Netflix e Globoplay.

Preparação técnica estabelece relação entre mundo do entretenimento e da saúde

Gerson explica que, mesmo com a complexidade dos procedimentos e o uso dos jargões no dia a dia da medicina, a adaptação para as telas ocorre de forma natural, e o público acaba aprendendo os termos pelo contexto da história que está sendo retratada. "A linguagem vai da escolha de quem está contando a história", explica.

Dependendo da complexidade da execução dos procedimentos, como cirurgias, médicos podem ser "escalados" para executar. Gerson relata que colegas de equipe já foram convocados para trabalhos do gênero, para que fique o mais verossímil possível: "Houve uma cena que precisava da colocação de campos estéreis; um médico que trabalha comigo foi quem colocou", conta ele.

O médico também falou sobre a preparação do elenco e como atores "mergulham" no ambiente de hospitais para dar vida aos personagens. As imersões vão desde atividades com alunos de medicina, conversas com residentes e até oficinas específicas. Se vão interpretar personagens com alguma condição de saúde, dialogam com pacientes sob a mediação de especialistas.

"A Olívia Araújo, do elenco do filme 'Caramelo', foi comigo participar de uma oficina de comunicação de más notícias", relata Gerson. Ele foi consultor do filme, lançado pela Netflix em 2025. "É muito bonito esse encontro, e me surpreende positivamente porque flui de uma maneira bastante natural", reflete.

Verossimilhança tem potencial didático

A realidade retratada nas situações vividas pelos profissionais da saúde pode ser uma janela pela qual o público pode ver, ainda que em recortes específicos, uma perspectiva incomum da rotina de hospitais e emergências. Os consultores médicos participam não só do roteiro, mas opinam na cenografia e na direção de arte para criar um contexto que se aproxime da realidade.

"Todo mundo já foi marcado por algo que aconteceu no hospital", comenta Gerson. "A verossimilhança pode dialogar com a experiência das pessoas, uma cena de nascimento, um diagnóstico difícil ou uma notícia de cura".

O médico também aponta a importância dessa realidade, sobretudo quando se trata da saúde pública. A representação das condições de funcionamento de hospitais e unidades de saúde pode servir de alerta para as pessoas.

Como uma de suas produções prediletas, ele cita a série "Sob Pressão", dirigida por Andrucha Waddington e inspirada no livro homônimo do cirurgião Marcio Maranhão. A produção da Globoplay conta com cinco temporadas e retrata a realidade da saúde pública no município do Rio de Janeiro. "É a representação de uma condição muito particular do Brasil, de uma emergência do SUS", relata Gerson. "E o que me interessa [na série] não é tanto este lugar de falar sobre a doença, mas sim sobre os encontros humanos."

Consultores são a interface entre a saúde e as narrativas

Gerson falou sobre sua relação com narrativas e, apesar de sua paixão pela medicina, sua maior aptidão, desde a infância, é contar histórias. Ele é autor do livro "O Pior Médico do Mundo", publicado em 2014. A obra retrata o processo de formação de médicos, o questionamento dos próprios limites de atuação e a capacidade de dar esperança aos pacientes.

"Fico contente de falar sobre essa perspectiva [de contar histórias], e as consultorias estão neste lugar também", declara o médico. "Os meus trabalhos no audiovisual estão nesse lugar, na interface da medicina e da saúde pública", conta.

Ele relata que se encontrou neste universo depois que se envolveu em alguns pequenos projetos, chegando até a fazer curso de roteiro. Foi neste ambiente que surgiram as primeiras oportunidades de atuar como consultor, unindo suas duas paixões: a medicina e as narrativas.

Apesar de ainda atuar como clínico, ele enxerga na rotina uma aproximação com este universo. Ele cita o médico e dramaturgo russo Anton Pavlovitch Tchekhov, que também se dedicou a essa "vida dupla". "Não me interessa muito falar aí sobre a doença em si, mas sobre como enfrentar o adoecimento, sobre como se dão as relações entre as pessoas nesse cenário; isso me interessa muito", contou ele.