Dois anos de pandemia: quais são as perguntas ainda sem respostas

Após dois anos de pandemia, algumas questões sobre o coronavírus continuam sem respostas

Foto de ilustração do coronavírus
Foto de ilustração do coronavírus 29/01/2020 Alissa Eckert, MS; Dan Higgins, MAM/CDC/Divulgação via REUTERS

Ingrid Oliveirada CNN

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Após dois anos de pandemia, algumas perguntas sobre o coronavírus continuam sem respostas. Hoje a comunidade científica já sabe, por exemplo, como o vírus se espalha, que o SARS-CoV-2 sofre mutações, que as vacinas previnem contra casos graves, mas que são necessárias doses de reforço e outras coisas mais.

Apesar de algumas respostas já serem conhecidas, outras questões sobre  a origem do vírus, o Covid longa, sequelas da doença, reinfecção, surgimento de novas variantes e outros pontos continuam sem uma resposta fechada.

Para entender o contexto do que ainda não se sabe sobre o coronavírus, a CNN conversou com especialistas sobre o tema.

Onde o vírus pode ter surgido

A OMS divulgou um relatório apontando que o coronavírus provavelmente tem origem animal. De acordo com o documento, “todas as evidências disponíveis sugerem que o Sars-CoV-2 [nome do vírus causador da Covid-19] tem origem animal natural e não é um vírus manipulado ou construído”.

A cepa que causa a pandemia foi identificada inicialmente em 2019, na China. Os coronavírus são conhecidos há muito tempo, causando infecções respiratórias. O que a ciência tem informações hoje é que a mutação que causa a Covid-19 pode ter surgido em mercados de animais, na país.

O infectologista e pesquisador da Fiocruz, Julio Croda, falou à CNN que os dados filogenéticos mostraram que existe uma proximidade de identificação das cepas virais inicialmente vistas em hospedeiros definitivos de morcego. “Contudo, falta uma identificação do hospedeiro intermediário”, afirma.

Robson Reis, infectologista e professor da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (EBMSP), explicou que esse intermédio ocorre quando um morcego transmite o vírus para um outro animal, que, na sequência, transmite para algum humano.

Os mercados de animais na China são comuns. Esta é uma questão cultural da região, como explicou à CNN Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

“Muitos vírus da influenza nascem na China, inclusive gripe aviária. Essa é a maneira como eles se relacionam com os animais, são hábitos culturais. Não há certo ou errado”, disse.

O infectologista da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e professor da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Rodrigo Molina, disse à CNN que a mutação que causa a pandemia é recente.

“Ela ainda gera muitas dúvidas, a gente não sabe quanto tempo ela vai levar para a estabilização total para atingir um quadro de endemia.”

Por esse motivo, a OMS, junto a instituições e pesquisadores, monitora e avalia a evolução do SARS-CoV-2 desde janeiro de 2020.

O que o coronavírus pode causar a longo prazo

No início da pandemia, cientistas do mundo todo tentavam identificar quais as consequências o vírus poderia trazer ao organismo. O que aprenderam rapidamente é que o patógeno tem uma taxa de transmissão muito alta e que era de extrema letalidade.

Contudo, com o avançar da pandemia, a Covid-19, ou síndrome pós-Covid como a OMS denomina, ainda é um ‘buraco negro’ para os cientistas. O termo é utilizado para nomear sintomas do coronavírus que permanecem mesmo após um longo período da infecção — não necessariamente uma sequela que irá permanecer definitivamente.

“Agora que estamos vendo o que o coronavírus tem causado a longo prazo. Desde sintomas que demoram mais para passar, que a gente chama de Covid longa até um problema não só respiratório. Ele tende a levar problemas sistêmicos que podem causar, inclusive alterações mentais, e isso a gente ainda vai vir mais no futuro”, diz Molina.

Isabella explica que a Covid longa não significa que vá durar toda a vida. “A maioria dos casos vai regredindo com o tempo. Não dá para prever.”

Os pesquisadores também não sabem quanto tempo essa regressão dos sintomas pós-Covid pode durar. Num estudo publicado na revista The Lancet, pesquisadores descobriram que o tempo de recuperação da maioria dos pacientes perdurou por sete meses.

Codra diz que há poucos dados sobre o pós-Covid. “Então, a gente não sabe por quanto tempo a doença, os sintomas e as sequelas associadas à infecção permanecem.”

O mesmo é defendido por Isabella que explica que, no momento, a comunidade científica “tem muita observação na prática que as pessoas ficam com Covid longa, mas ainda estão aprendendo em relação a isso”.

Até pouco tempo, as observações da Covid longa eram pouco relatadas. No Reino Unido, por exemplo, o Escritório de Estatísticas Nacionais (ONS) estima que cerca de 1,5 milhão de pessoas no Reino Unido tenham Covid longa.

“Ainda temos muitas perguntas a serem respondidas em relação a Covid longa. Entre elas, quais os pacientes mais propensos. Ainda é importante termos um número maior de pacientes a serem estudados e artigos a serem publicados”, avalia Reis.

O que se sabe sobre o tema é que algumas respostas surgem, como pacientes mais idosos, pacientes com comorbidades podem ter um risco maior de apresentar a Covid longa, segundo o professor da EBMSP.

“Esses pacientes podem apresentar consequências físicas e comportamentais, cognitivas e emocionais. Sabemos que os pacientes com Covid longa podem ter fadiga crônica, aquela sensação de cansaço contínua, tosse mais persistente, falta de ar, arritmia, dores de cabeça”, explica Reis.

Codra lembra também que os pacientes que ficam internados em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) são os mais suscetíveis a sequelas pós-Covid.

“Existem diversas sequelas, mas quem precisa de UTI tem mais sequelas após a infecção. Mas precisamos acompanhar a coleta desses dados e acompanhar a literatura científica para entender quanto tempo a Covid longa pode durar”, avalia o pesquisador da Fiocruz.

Vacinas para a Covid-19 e o comportamento do vírus

Hoje o mundo todo conta com três plataformas de vacinas: A vacina de vírus inativado, que a vacina Coronavac, do Instituto Butantan; a de vetor viral, como da Fiocruz/AstraZeneca, e Janssen. E as vacinas de mRNA, imunizante da Pfizer e da Moderna — não utilizada no Brasil.

Codra, da Fiocruz, afirma que ainda faltam dados, principalmente as vacinas de vírus inativado, por exemplo. “Faltam dados de efetividade, de proteção para hospitalização e óbitos, principalmente no contexto da Ômicron, e por quanto tempo essa proteção vai durar.”

Já Isabella, da SBIm, disse que sabemos muito sobre as vacinas. “É a ciência que estava mais preparada. Todas as plataformas que foram utilizadas para as vacinas já eram conhecidas. Foi um tempo curto, com muito esforço, mas um tempo adequado”, aponta.

Para Molina, o que está em aberto sobre as vacinas é por quanto tempo elas vão deixar a pessoa imune e contra quais variantes. “O que seria ideal é que houvesse uma vacina anual que desse uma cobertura ampla para novas variantes que ainda podem surgir”, avalia.

A Organização Mundial da Saúde avalia que as vacinas contra a Covid-19 foram testadas em grandes ensaios clínicos que incluem pessoas de uma ampla faixa etária, todos os sexos, diferentes etnias e pessoas com condições médicas conhecidas.

Reis, da EBMSP afirmou que já é sabido que todas as vacinas são seguras e eficazes.  “Algumas apresentam mais reações adversas, outras menos . Algumas são mais eficazes do que as outras, mas todas protegem, principalmente para evitar a forma grave da doença”, aponta.

Sobre os eventos adversos, Isabella afirma que a vacinação em larga escala global, com diferentes faixas etárias, etnias, e condições físicas foi eficiente para avaliar os eventos com clareza. Contudo, ainda não se sabe o que desencadeia os fatores raros.

“Nunca aplicamos tantas doses ao mesmo tempo, no mundo todo. O número de doses aplicadas dá uma robustez no que podemos esperar de eventos adversos raros. E quando falo raros, são raros, raros mesmo, não dá para saber”, diz a vice-presidente da SBIm.

Coronavírus e suas variantes

A grande dúvida é o comportamento de novas cepas caso elas venham surgir, como aponta Reis. “Não sabemos se essas variantes serão mais agressivas, mais contagiosas, a exemplo da Ômicron”, afirma o professor.

No final de 2020, as variantes que representavam um risco aumentado para a saúde pública global levou à caracterização de atenção das cepas.

A OMS as separou como Variantes de Interesse (VOIs) e Variantes de Preocupação (VOCs) específicas, com o objetivo de priorizar o monitoramento e a pesquisa global para informar a resposta do andamento em frente à pandemia.

A organização já identificou as seguintes variantes:

  • Alpha (B.1.1.7); notificada no Reino Unido, em setembro de 2020
  • Beta (B.1.351); notificada na África do Sul, em maio de 2020
  • Gamma (P.1); notificada no Brasil, em novembro de 2020
  • Delta (B.1.617.2); notificada na Índia, em outubro de 2020
  • Ômicron (B.1.1.529); notificada na África do Sul, em novembro de 2021.

Para Isabella Ballalai, da SBIm, o que ainda não é conhecido sobre o coronavírus é a capacidade de mutação. “Eu costumo chamar de roleta russa, não sabemos e nem temos como saber quando ou como vai surgir uma nova variante. Mas a gente sabe que enquanto estiver circulando em pessoas não vacinadas, as chances são maiores”, afirma.

O mesmo é defendido por Reis.“Sabemos o que predispõe o surgimento de novas variantes, mas sempre é uma incógnita como elas vão se comportar”.

Para Codra, da Fiocruz, duas questões fundamentalmente importantes que a comunidade científica ainda não sabe sobre o coronavírus são: qual a probabilidade de surgir novas variantes que escapem da proteção fornecida pelas vacinas e qual o tempo de proteção dos imunizantes, para evitar casos graves, hospitalização e óbitos.

“Ao longo dos anos da pandemia, fomos surpreendidos com elevada taxa de mutação e com o surgimento de novas variantes. A gente não sabe para onde vai caminhar a pandemia. Isso vai depender da velocidade do surgimento de novas variantes”, afirma Cobra.

Ballalai concorda e diz que “pode ser que surja uma mutação que vai vingar ou não, que vai ser diferente do vírus original ou não, então a gente precisa monitorar para saber o que vai acontecer”, diz Isabella.

Molina, em última análise, afirma que muitos outros pontos também ainda precisam ser desvendados. “Até quando teremos a formação de novas variantes, quando o vírus entrará em equilíbrio biológico com o ser humano, quando as vacinas terão efetividade total e quais sequelas a doença deixará nas pessoas, tudo isso ainda precisa ser respondido”, aponta.

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