"Efeito chicote": entenda qual tipo de lesão uma montanha-russa pode causar
Julia Rimoli Bossoni, de 28 anos, perdeu os movimentos do lado esquerdo do corpo após andar no brinquedo; especialistas alertam sobre complicações

Um passeio na montanha-russa ocasionou lesões neurológicas graves na brasileira Julia Rimoli Bossoni, de 28 anos, que perdeu os movimentos do lado esquerdo do corpo após uma volta no brinquedo do Hopi Hari, em Vinhedo, no interior de São Paulo.
O acidente aconteceu no dia 20 de abril, mas ganhou repercussão no último domingo (20). Segundo a defesa da família da jovem, Julia sofreu com hemorragias intracranianas, quadro que exigiu intervenção cirúrgica de emergência. Laudos posteriores constataram traumatismo craniano grave - uma das principais causas do edema cerebral.
O caso foi revelado pela Globo e confirmado pela CNN Brasil.
No caso de Julia não houve nenhuma pancada na cabeça. Durante a atração, ela sofreu com um efeito "chicote", também conhecido como whiplash, que ocorre quando o pescoço sofre uma aceleração ou desaceleração repentina.
Segundo especialistas entrevistados pela CNN Brasil, esses movimentos bruscos que ocorre em algumas atrações de parques de diversões, podem provocar lesões no cérebro e na coluna cervical.
"O cérebro, por estar suspenso dentro do crânio, sofre forças de translação e principalmente de rotação. Esse mecanismo pode provocar uma concussão, com alterações funcionais e metabólicas cerebrais, mesmo sem que a cabeça bata em uma superfície", explica o neurologista Victor Hugo Espíndola, membro da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia e Sociedade Brasileira de Neurorradiologia Diagnóstica e Terapêutica.
O risco e a gravidade da lesão depende da intensidade do movimento, da posição do corpo e das características individuais de cada pessoa. "Em situações raras, movimentos muito intensos também podem lesar artérias cervicais, como as carótidas e vertebrais, provocando uma dissecção arterial, que pode levar a um AVC", complementa o especialista.
Além do cérebro, a coluna cervical também recebe parte da carga gerada pelo movimento. Músculos, ligamentos, articulações e discos podem ser afetados. Em situações mais graves, também podem ocorrer lesões de raízes nervosas ou da medula espinhal.
"As mais frequentes tendem a ser musculoesqueléticas, como distensão muscular e lesões cervicais do tipo “chicote”, que podem provocar dor e limitação dos movimentos. Em dados recentes envolvendo menores de idade atendidos após montanhas-russas, as lesões cervicais predominaram e a distensão muscular foi o diagnóstico mais frequente", aponta o médico.
Por outro lado, complicações neurológicas graves como o que aconteceu com Julia são menos frequentes.
"Existem relatos médicos dessas complicações após atrações de alta velocidade e aceleração, mas é importante ressaltar que são eventos raros", conta o neurologista.
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Quais sintomas são sinais de alerta?
- Dor de cabeça intensa, súbita ou que piora progressivamente;
- vômitos repetidos;
- perda de consciência;
- confusão mental ou sonolência excessiva;
- convulsões;
- alteração da fala;
- fraqueza ou formigamento em um lado do corpo;
- alteração visual importante ou visão dupla;
- dificuldade para caminhar ou perda significativa do equilíbrio;
- dor cervical intensa; perda de força ou alteração da sensibilidade nos braços ou pernas.
A neurologista do Hospital Mater Dei, Lorena Bochenek, complementa a visão de Victor Hugo e explica que, os sintomas são muito importantes quando relacionados a lesões neurológicas. Neste caso, o lesionado precisa urgentemente de atendimento médico, pois a gravidade do quadro pode levar ao óbito.
"Nesses casos, não é recomendável simplesmente esperar os sintomas passarem. É necessária uma avaliação médica para determinar se houve traumatismo craniano, lesão cervical ou outra complicação neurológica".
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Quem pode ter maior vulnerabilidade?
Pessoas com alterações importantes na coluna cervical, instabilidade, histórico de cirurgia ou lesões prévias podem apresentar maior vulnerabilidade a determinados mecanismos traumáticos.
Crianças e idosos também possuem características anatômicas e biomecânicas diferentes das de adultos jovens. Quem teve recentemente um traumatismo craniano ou ainda apresenta sintomas de uma concussão também deve ter atenção antes de se submeter novamente a movimentos intensos.
"Mas é importante fazer uma ressalva: ter uma alteração prévia na coluna não significa que a pessoa necessariamente terá uma lesão ao realizar uma determinada atividade. O risco depende da intensidade da força, da direção do movimento, da posição do corpo e das características individuais", ressalta Lorena Bochenek.
Como reduzir os riscos?
Se o viajante insistir em andar em brinquedos desafiadores, como a montanha-russa, a principal recomendação dos especialistas é seguir as orientações de segurança das atrações, incluindo limites de idade, altura, peso e eventuais restrições relacionadas às condições de saúde.
"Pessoas com doença cervical importante, cirurgia recente de coluna, sintomas neurológicos ou outras condições que possam aumentar o risco devem conversar previamente com seu médico antes de se submeter a atrações com aceleração, desaceleração ou rotação intensas", aponta Lorena Bochenek.
Pessoas que já sofreram com problemas neurológicos precisam tomar ainda mais cuidado ao brincarem nos brinquedos.
"Quem sofreu recentemente uma concussão, traumatismo craniano ou cervical, quem está com dor significativa no pescoço ou sintomas neurológicos, ou quem possui doença relevante da coluna ou condição vascular conhecida deve buscar orientação médica antes de participar de atrações muito intensas", explica.
Desdobramentos do caso da Julia
Após as lesões graves, o caso começou a ser investigado pela Polícia Civil e pelo MPSP (Ministério Público de São Paulo).
O MPSP requisitou uma série de diligências para esclarecer as circunstâncias do acidente. Entre elas estão uma perícia técnica no carrinho e na estrutura da Montezum, a elaboração de laudo indireto de corpo de delito e a obtenção dos prontuários médicos completos dos hospitais que atenderam Julia.
O Ministério Público também pediu informações sobre o sistema de fotografia comercial da atração.
Ainda segundo a investigação, a advogada da família solicitou vistorias presenciais nos equipamentos responsáveis pela captação das imagens.
Por outro lado, o Hopi Hari afirmou que possui certificado internacional de segurança e que segue as normas da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas).
A empresa afirmou que manteve contato com a família de Julia para prestar suporte e disponibilizou o seguro para o tratamento médico.


