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    Endometriose: por que é importante tratar a doença o mais rápido possível?

    Enfermidade exige rápido tratamento, mas seu acesso ainda é um problema de saúde pública

    Mulher com cólica menstrual
    Mulher com cólica menstrual Psodaz / Freepik

    Nicoly Bastosda CNN São Paulo

    Doença mais comum do que muita gente imagina, a endometriose acomete uma em cada dez mulheres em idade fértil no Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde. Ainda pouco difundida perto da necessidade de informação que ela requer, a enfermidade possui diagnóstico ainda difícil, mas exige tratamento rápido.

    Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), a endometriose afeta cerca de 176 milhões de mulheres no mundo, sendo mais de 7 milhões no Brasil. A doença ganha destaque este mês com o “Março Amarelo”, sendo protagonista de campanha nacional que visa a maior conscientização sobre a enfermidade.

    A doença é caracterizada pelo crescimento do tecido endometrial, que reveste o útero, para fora do órgão reprodutor, atingindo regiões como ovários e tubas uterinas.

    A endometriose, se não identificada e tratada, compromete a qualidade de vida da mulher e pode causar danos à saúde, como infertilidade

    À CNN, Mariana Rosário, ginecologista e obstetra do Hospital Albert Einstein, explica que a endometriose pode começar pequena, em apenas um órgão, como intestino, trompas, ovário ou no próprio útero (chamada de adenomiose).

    “Sem tratamento, os focos podem aumentar de tamanho e em áreas atingidas”, diz Rosário.

    Doença exige rápido diagnóstico

    Segundo a profissional, as mulheres precisam, o mais rápido possível, se atentar para os sintomas da doença, já que quanto mais o tempo passa e a mulher não tem o tratamento correto para a doença, mais ela pode se multiplicar e afetar outros órgãos, de acordo com a ginecologista.

    Dores menstruais e na hora de relações sexuais são os sintomas mais comuns da endometriose, podendo até mesmo passarem “despercebidos” pelas mulheres com a doença, por ainda serem consideradas “normais” pelo senso comum. Outros sintomas mais complexos podem ser marcados por alterações intestinais e urinárias na fase da menstruação.

    Além de dores incapacitantes, a enfermidade pode trazer danos temporários ou permanentes a eles. “Uma endometriose no intestino pode bloqueá-lo, necessitando de cirurgia de remoção de parte do órgão. Nas trompas, bem como nos ovários, pode causar infertilidade. E há casos raros, bem mais graves, que atingem pulmões, cérebro e até coração, então, é preciso diagnosticar a doença cedo e iniciar o tratamento”, explica Mariana.

    A maioria dos casos de endometriose, porém, está restrita à cavidade abdominal, diz Mariana.

    A médica ainda alerta que o rápido diagnóstico é importante para a saúde mental da mulher e que a doença pode, muitas vezes, exigir um acompanhamento médico multidisciplinar, com a presença de um psiquiatra.

    “A endometriose é uma doença que leva a mulher à depressão. Ninguém aguenta passar por dores todos os meses, se isolar do mundo, faltar ao trabalho, enfim, é uma doença incapacitante. Quanto mais cedo for diagnosticada e tratada, menos grave ficará”, ressalta.

    Infertilidade x endometriose

    Segundo dados da Associação Brasileira de Endometriose, mais de 30% dos casos levam à infertilidade.

    Em entrevista à CNN, Natalia Pimentel, especialista em Reprodução Assistida, explica que as alterações pélvicas causadas pela endometriose podem impedir a fertilização do óvulo pelo espermatozoide.

    “Em outro momento, dificulta a implantação do óvulo que foi fertilizado, podendo danificar o revestimento do útero, o que torna mais difícil a implantação de um embrião saudável”, diz.

    Tratamento precisa ser rápido, mas seu acesso ainda é um problema

    Segundo Mariana, ainda falta muita conscientização para diagnosticar a doença, já que a dor no período menstrual não deve ser considerada de um todo normal, em nenhuma idade.

    “Apenas a informação levará as mulheres a quebrarem o paradigma de que o período menstrual é naturalmente marcado por cólicas e que algumas mulheres sofrem com isso a vida toda. Isso não é normal e deve ser investigado imediatamente. Muitas jovens, logo ao menstruarem, já apresentam a endometriose e a carregam por toda a vida fértil, tendo muitos prejuízos”, defende a profissional.

    Além disso, o acesso das mulheres ao diagnóstico e ao tratamento ainda é um desafio.

    Mariana Rosario comenta que a endometriose pode ser diagnosticada em exame clínico, após uma boa conversa com a paciente. Depois, exames de imagem e de marcadores específicos são solicitados, para saber o tamanho do foco da doença.

    “Em casos graves, apenas a videolaparoscopia, consegue determinar a extensão da doença”, explica, falando sobre o exame próprio de imagem para identificar o foco da doença.

    No entanto, grande parte da população não tem acesso a esses procedimentos.

    “É importante saber onde estão os focos da doença, por isso é preciso também completá-lo com exames e o acesso a tudo isso ainda é um desafio.”

    Mariana ainda complementa dizendo que a paciente com endometriose precisa ser tratada individualmente, porque essa doença nunca é igual, de uma mulher para a outra.

    O tratamento é realizado de forma que a paciente evite, ao máximo, a cirurgia. A profissional aponta que atualmente existem drogas antiestrogênicas para combater o problema, que trazem excelente resultado para dor e lesão.

    “Essa doença depende do hormônio estrógeno para se manifestar, então, os implantes hormonais bioidênticos antiestrogênicos são excelentes neste tratamento”, ressalta.

    O tratamento médico multidisciplinar volta a aparecer para cuidar da alimentação e manutenção do corpo, que também pode ajudar na recuperação.

    “A prática de atividade física regular, uma alimentação regrada e especializada, a meditação e o tratamento psicológico, sempre que possível, completam o pacote, porque não adianta tratarmos o corpo, se a alma está doente”, diz a especialista.

    “Apenas o tratamento multidisciplinar surte efeitos na endometriose. Essa doença tem componente emocional envolvido e mulheres com tendência à depressão são naturalmente mais propensas a desenvolvê-la. Por isso, é necessário eliminar a inflamação crônica do organismo, por meio da redução do glúten e da lactose, adotar uma rotina fixa de atividades físicas e investir no apoio psicológico”, alerta.

    Políticas públicas sobre a endometriose

    Segundo a Agência Câmara, o projeto de Lei 1069/23 inclui a endometriose com manifestação incapacitante no rol de doenças que independem de carência para a concessão de auxílio-doença e até mesmo de aposentadoria por invalidez.

    O texto do projeto determina que a mulher diagnosticada pela endometriose tenha tratamento integral pelo SUS (Sistema Único de Saúde), isso inclui: atendimento multidisciplinar, acesso a exames complementares, assistência farmacêutica e acesso a modalidades terapêuticas reconhecidas, como a  fisioterapia e atividade física.

    O projeto está em andamento na casa e deve seguir para a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher.