Entenda a doença rara que quase tirou Messi dos gramados

Diagnosticado aos 11 anos com deficiência do hormônio do crescimento, argentino que decide a Copa neste domingo (19) dependeu de injeções diárias na infância

Manuella Dal Mas, da CNN Brasil, em São Paulo
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Enquanto Lionel Messi se prepara para disputar, neste domingo (19), contra a Espanha, aquela que deve ser a última partida de sua trajetória em Copas do Mundo, a história do camisa 10 argentino segue indo além dos títulos e recordes. Antes de se tornar um dos maiores jogadores da história do futebol, ele enfrentou um problema de saúde que poderia ter interrompido sua carreira ainda na infância: a deficiência do hormônio do crescimento (GHD, na sigla em inglês).

O diagnóstico veio em 1999, em Rosário, na Argentina, após mais de um ano de exames. Aos 11 anos, Messi não crescia desde os 9 e media cerca de 1,32 metro. Sem tratamento, a estimativa médica era de que ele alcançasse, no máximo, aproximadamente 1,40 metro de altura.

A condição exigia aplicações diárias de hormônio do crescimento sintético, que o próprio Messi aprendeu a administrar. O tratamento, iniciado ainda na infância, foi mantido por vários anos. Na fase adulta, o jogador atingiu 1,70 metro, altura próxima da média masculina argentina.

As informações constam de um trabalho do escritor norte-americano Marc Novicoff, publicado pelo Dartmouth College, que reuniu dados de biografias e reportagens sobre a condição médica e a trajetória do jogador.

O que é a deficiência do hormônio do crescimento

A GHD é considerada rara: atinge entre 1 em cada 3 mil a 1 em cada 10 mil crianças. Ela ocorre quando a hipófise, glândula localizada na base do cérebro, produz quantidade insuficiente do hormônio responsável por estimular o crescimento de ossos, músculos e órgãos por meio da produção do IGF-1 (fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1).

Além da baixa estatura, crianças com a deficiência podem apresentar tendência ao sobrepeso, problemas de pele e nos dentes, dificuldades de visão e redução da imunidade. O tratamento consiste, na maioria dos casos, na aplicação diária de somatotropina, versão sintética do hormônio, permitindo que a criança alcance um crescimento próximo do esperado para sua idade.

O diagnóstico precoce é decisivo: quanto antes o tratamento começa, maiores são as chances de a criança recuperar o ritmo de crescimento e de evitar impactos físicos e emocionais durante a infância e a adolescência.

No caso de Messi, o tratamento iniciado aos 11 anos permitiu que ele seguisse desenvolvendo as habilidades que já chamavam atenção nas categorias de base do Newell's Old Boys, clube de Rosário onde acumulava gols e títulos com a geração que ficou conhecida como "A Máquina de 87".

O custo, porém, pesava sobre a família. As injeções custavam cerca de US$ 1.500 por mês, valor elevado para o pai, operário da indústria do aço, e a mãe, que trabalhava como faxineira. O Newell's chegou a arcar com parte das despesas por um período, e a família recorreu a benefícios trabalhistas do pai, mas a continuidade do tratamento ficou ameaçada.

A solução veio da Espanha. Aos 13 anos, Messi fez um teste na base do Barcelona e convenceu os avaliadores em minutos. O acordo inicial, firmado sobre um guardanapo de papel durante um jantar, previa que o clube catalão assumiria os custos do tratamento em troca da transferência do jovem para suas categorias de base.

Por que o tratamento não é considerado doping

Como o hormônio do crescimento também pode ser utilizado de forma ilícita para melhorar o desempenho esportivo, a substância é proibida pelas regras antidoping. Por isso, o tratamento de Messi já foi alvo de debates ao longo dos anos.

A resposta está na chamada Isenção para Uso Terapêutico (TUE, na sigla em inglês), mecanismo previsto no Código Mundial Antidoping, da Agência Mundial Antidoping (Wada), e aplicado por entidades como a Fifa. Na prática, a isenção funciona como uma autorização formal para que o atleta use uma substância proibida quando há necessidade médica comprovada.

Para obtê-la, o atleta precisa demonstrar que o medicamento é indispensável para tratar uma condição de saúde diagnosticada, que não existe alternativa terapêutica permitida e eficaz, e que o tratamento apenas restabelece condições fisiológicas normais — ou seja, devolve o organismo ao estado esperado, sem gerar vantagem competitiva além disso.

É o caso de quadros como o de Messi: sem o hormônio sintético, haveria prejuízo comprovado à saúde, e as injeções não elevaram sua condição física acima do padrão — apenas permitiram que ele crescesse como qualquer outra criança.