Entenda como a luz ultravioleta pode ser usada contra o coronavírus

Radiação UVC presente na luz do Sol é capaz de inativar o vírus, segundo especialistas

Foto: Getty Images (Mixmike)

Lucas Rocha, da CNN, em São Paulo

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A luz do sol é formada por diferentes categorias de luz ultravioleta, que atinge a Terra em maior ou menor intensidade. Uma delas é a radiação UVC, filtrada em grande parte pela camada de ozônio e cientificamente reconhecida por sua capacidade de destruição de microrganismos.

Diversos segmentos da indústria têm desenvolvido equipamentos que emitem a radiação UVC com o objetivo de descontaminar ambientes e superfícies do SARS-CoV-2, causador da Covid-19, e de outros microrganismos causadores de doenças, como vírus e bactérias.

Segundo especialistas consultados pela CNN, a estratégia tem eficácia comprovada. No entanto, o uso deve ser feito com cautela. Entenda como funciona a tecnologia.

Radiação degrada material genético do vírus

O microbiologista Luiz Almeida, do Instituto Questão de Ciência, explica que a luz ultravioleta inativa microrganismos devido à sua capacidade de degradação do material genético (DNA ou RNA).

“A frequência dessa luz promove uma quebra na cadeia de DNA. No caso do coronavírus, que tem outro tipo de material genético, que é o RNA, a luz também quebra essa molécula, impossibilitando que o vírus produza novas partículas virais. Funciona da mesma forma para bactérias e outros microrganismos”, explicou Luiz.

Segundo o pesquisador, o tempo necessário para a desinfecção varia de acordo com o ambiente e a potência da luz utilizada. “A luz ultravioleta é muito eficaz, desde que aplicada por cerca de 10 a 20 minutos. A aplicação precisa ser constante, e o tempo de exposição grande”, explicou o pesquisador.

Um estudo desenvolvido por pesquisadores da USP investigou os mecanismos envolvidos na inativação do SARS-CoV-2 pela radiação ultravioleta. Nos ensaios realizados in vitro (ambiente controlado de laboratório), os especialistas verificaram que lâmpadas com luz UVC foram capazes de inativar 99% das partículas virais.

Como a tecnologia pode ser usada

Segundo os especialistas, a luz ultravioleta pode apresentar melhores resultados quando utilizada em ambientes com circulação restrita de pessoas e com maiores chances de dispersão do vírus, como quartos hospitalares que receberam pacientes com a Covid-19.

“No ambiente hospitalar, onde não tenha um fluxo grande de pessoas entrando e saindo, principalmente dos quartos onde estavam sendo tratados pacientes com a Covid-19, faz mais sentido fazer essa esterilização. Para a população em geral, não é muito prático fazer toda hora, porque seriam necessárias muitas aplicações por conta do fluxo grande de pessoas, como no metrô”, explicou Luiz, reforçando que o uso da tecnologia ultravioleta deve ser complementar ao de outras estratégias, como a higienização das mãos e a utilização de máscaras.

Segundo o professor do Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP), Vanderlei Salvador Bagnato, para que aconteça a eliminação do vírus é necessário que o microrganismo seja diretamente exposto à radiação. Ele explica que toda a superfície a ser esterilizada precisa ser iluminada e que a luz nem sempre consegue atravessar materiais como vidro, plástico e fibras de tecidos.

“A luz UVC é um dos métodos físicos mais eficientes para a destruição de microrganismos que conhecemos. Para ter uma boa eficiência do uso do ultravioleta é preciso garantir que a luz está incidindo diretamente sobre os microrganismos ou que boa parte da luz passe pela estrutura onde eles estão”, explicou.

Riscos e cuidados para a utilização da luz ultravioleta

A exposição direta à radiação ultravioleta é nociva ao organismo, podendo provocar queimaduras e levar ao desenvolvimento de doenças como o câncer de pele e a catarata. Segundo os especialistas, alguns cuidados devem ser observados durante a aplicação para evitar os riscos.

“Quem aplica tem que usar os equipamentos de proteção individual, como luvas, óculos de acrílico e evitar a exposição da pele à luz. O equipamento não deve ser ligado com pessoas no ambiente, mesmo com equipamento de proteção”, afirmou Luiz.  

Já o pesquisador da USP reforçou que alguns objetos podem se degradar quando expostos por tempo prolongado à luz ultravioleta. “Alguns plásticos ficam quebradiços e trincam, tecidos podem perder a pigmentação e plantas podem ser queimadas”, disse.

Produtos disponíveis no mercado

No Brasil, a empresa Signify (antiga Philips Lighting) oferece três produtos com a tecnologia ultravioleta, incluindo câmaras, luminárias e veículos de desinfecção. Segundo comunicado da Signify, os testes da tecnologia realizados pela empresa em parceria com a Universidade de Boston, nos Estados Unidos validaram a eficácia das fontes de luz na inativação do novo coronavírus.

O material inoculado com o vírus foi tratado com diferentes doses de radiação UVC de uma fonte de luz Signify. Os especialistas avaliaram a capacidade de esterilização em diferentes condições. Os resultados indicaram que uma dose de 5mJ/cm2 (unidade derivada de energia) provocou uma redução de 99% do vírus em 6 segundos.

A empresa de tecnologia Biolambda também conta com três métodos à base de UVC contra a Covid-19. Além de câmaras de higienização e luminárias, há ainda um purificador que suga o ar do ambiente através de um filtro, realiza a esterilização por uma câmara espelhada com lâmpadas de alta potência UVC e devolve o ar limpo ao ambiente, com capacidade para locais com até cinco pessoas.

Já a empresa Meister Safe System oferece planos personalizados de sistemas de biossegurança de acordo com um conjunto de ambientes, como consultórios, clínicas e hospitais; hotéis e pousadas; bares e restaurantes, além de escolas e universidades. A empresa realiza a esterilização do ambiente e oferece um selo de segurança.

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