Entenda o que é trombose e qual a associação entre a doença e a Covid-19

Neste 16 de setembro, Dia Nacional de Combate e Prevenção à Trombose, especialistas explicam os principais fatores associados à doença e como se prevenir

Existem dois tipos, a trombose venosa, que atinge as veias, e a trombose arterial, quando o bloqueio acontece em uma das artérias
Existem dois tipos, a trombose venosa, que atinge as veias, e a trombose arterial, quando o bloqueio acontece em uma das artérias Foto: Divulgação/Opas

Lucas Rochada CNN

em São Paulo

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Quando sofremos um corte ou uma lesão, o corpo humano conta com um mecanismo importante para auxiliar no controle de um sangramento ou uma hemorragia. Os coágulos sanguíneos são uma resposta fisiológica natural e importante para a manutenção da vida. O agrupamento das células sanguíneas, recobertas por uma proteína chamada fibrina, interrompe o fluxo e o sangramento.

No entanto, algumas pessoas podem apresentar a formação de coágulos sem que haja qualquer tipo de sangramento. A origem pode ser genética ou partir de outras doenças infecciosas, como a Covid-19. Nesse caso, temos uma doença chamada popularmente de trombose, que pode ser perigosa para a saúde.

Neste 16 de setembro, Dia Nacional de Combate e Prevenção à Trombose, especialistas explicam os principais fatores associados à doença e como se prevenir.

Qual a relação entre trombose e Covid-19?

A associação entre a Covid-19 e casos de trombose tem sido amplamente estudada pela comunidade científica global. Já é conhecido que algumas doenças podem desencadear a formação de coágulos, que podem atingir uma variedade de órgãos, incluindo o pulmão, o cérebro e o coração, além de provocar casos de infarto e acidente vascular cerebral (AVC).

Os pesquisadores investigam quais mecanismos utilizados pelo novo coronavírus durante a infecção podem favorecer a hipercoagulação do sangue.

Um dos fatores relacionados ao agravamento da Covid-19 é a reação exacerbada do processo de inflamação do organismo. A alta produção de substâncias inflamatórias e de uma enzima envolvida no processo de coagulação, chamada trombina, pode explicar a associação entre as duas condições clínicas.

Um levantamento realizado na Holanda identificou complicações ligadas à formação excessiva de coágulos em 16% dos 184 pacientes internados em UTIs, incluindo casos de embolia pulmonar, acidente vascular cerebral e trombose venosa. Um outro grupo de pesquisadores no país verificou que os riscos de complicação da trombose em pacientes com a Covid-19 dobram em relação às pessoas com gripe comum.

Em estudos realizados com pessoas que morreram devido à infecção, pesquisadores constataram danos significativos ao tecido que reveste os vasos sanguíneos, chamado endotélio. As análises apontam que o SARS-CoV-2 consegue invadir as células endoteliais, e a inflamação do tecido favorece um estado de hipercoagulação.

Um grupo de pesquisadores brasileiros defende que a Covid-19 seja classificada como febre viral trombótica. Hoje, a doença se encaixa na classificação de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Segundo os especialistas, as evidências de hipercoagulação em decorrência da doença estão presentes em diversos estudos. A recomendação foi realizada em um artigo publicado na revista científica “Memórias do Instituto Oswaldo Cruz”.

No início de 2021, com a ampliação das campanhas de vacinação contra a Covid-19 em todo o mundo, surgiram suspeitas de que diferentes vacinas poderiam estar relacionadas a casos raros de formação de coágulos sanguíneos. Os estudos permanecem em andamento e a maior parte revela que os riscos da formação de trombose são maiores em pacientes que adoeceram de Covid-19 do que em indivíduos vacinados.

Um dos mais amplos estudos sobre o tema, publicado no British Medical Journal, analisou dados de 29 milhões de pessoas vacinadas com a Pfizer ou AstraZeneca de dezembro de 2020 a abril de 2021. Os dados foram cruzados com as informações de cerca de dois milhões de pessoas diagnosticadas com a Covid-19.

Segundo o estudo, o risco de formação de trombose venosa é quase 200 vezes maior em decorrência da doença, do que um evento adverso da vacinação com a AstraZeneca, por exemplo.

O que é a trombose?

A formação de coágulos que entopem os vasos sanguíneos e impedem o fluxo de sangue é chamada de trombose. Existem dois tipos, a trombose venosa, que atinge as veias, e a trombose arterial, quando o bloqueio acontece em uma das artérias.

Segundo o médico angiologista César Amorim Neves, Presidente da Associação Bahiana de Medicina (ABM), a formação da trombose venosa está associada a três fatores preponderantes: hipercoagulação do sangue, lesões na parede das veias e  imobilização dos pacientes.

A hipercoagulação, condição que favorece a formação de coágulos do sangue, pode estar relacionada a diferentes causas. Entre elas estão predisposição genética, alterações na quantidade ou no funcionamento de proteínas do sangue que controlam a coagulação, como deficiência de proteína C, S ou Z, entre outros distúrbios.

“Outro fator responsável pela trombose venosa são lesões na parede dos vasos. O vaso é formado por substâncias que evitam a coagulação. Às vezes, lesões nas paredes dos vasos alteram essas substâncias e levam à formação do coágulo”, explica César.

Por fim, a imobilização de longa duração também é um fator importante para a formação da trombose. Pessoas que permanecem internadas por longos períodos em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) podem ter um risco aumentado para o desenvolvimento da doença.

O médico Caio Focássio, assistente da Cirurgia Vascular da Santa Casa de São Paulo, explica que a trombose arterial apresenta quadros clínicos mais agressivos, mas é menos prevalente na população em relação à trombose venosa.

“A trombose arterial acontece principalmente em indivíduos com colesterol alto, diabéticos, tabagistas, hipertensos, por que formam mais aterosclerose, que são placas de que endurecem as artérias”, explica Focássio. “Essas artérias vão fechando, e o indivíduo pode ter risco de perda de membro, muita dor na perna para andar. Ela ocorre em 4% da população, principalmente acima de 50 ou 60 anos”, completa.

Quais são os sinais e sintomas?

O local mais frequente da trombose é nas pernas, principalmente na região da panturrilha. Os pacientes podem apresentar dor no local, inchaço, vermelhidão e sensação de calor na região acometida. O angiologista César Amorim Neves explica que o diagnóstico é realizado a partir dos exames físicos e de imagem, como a ultrassonografia.

Riscos de complicações

Quando não é tratada, a trombose pode evoluir para um quadro grave chamado embolia pulmonar. O coágulo pode se desprender e seguir o fluxo da corrente sanguínea, até se alojar nos pulmões. Os sintomas incluem dor no peito, falta de ar, tosse repentina, suor e tontura. A condição pode levar à necrose dos tecidos da região afetada, devido à interrupção da circulação sanguínea.

As lesões nos pulmões somadas à dificuldade de respirar provocam a diminuição da quantidade de oxigênio no sangue, que pode afetar o funcionamento dos órgãos em todo o corpo e levar à morte.

Tratamento

Em geral, o tratamento é realizado com o uso de medicamentos que evitam o aumento e reduzem as chances de formação de novos coágulos, sob acompanhamento médico. “Feito o diagnóstico, existem anticoagulantes orais. O paciente já sai do consultório com a medicação para tomar e evitar tanto o aumento da trombose venosa como a evolução para a embolia pulmonar, que pode ser fatal. Pode ser recomendado também o uso de meias elásticas medicinais específicas, para evitar o inchaço”, explica César.

O especialista ressalta que os remédios devem ser utilizados a partir da prescrição médica e que o prazo pode variar de três a seis meses, dependendo das condições de cada paciente. O acompanhamento deve ser feito a partir de consultas regulares com o médicos cardiologistas, cirurgiões vasculares ou angiologistas.

“A trombose é uma doença grave que deve ser tratada imediatamente para evitar tanto sequelas futuras como complicações imediatas, como a embolia pulmonar”, afirma César.

Como prevenir a trombose?

De acordo com os especialistas, a adoção de hábitos saudáveis pode reduzir as chances de desenvolvimento de trombose. “A prevenção envolve atividade física regular, ter uma alimentação balanceada, hidratação adequada, evitar o sedentarismo, não fumar e manter o peso, não ficar muito tempo sentado e usar meias elásticas devidamente recomendadas por um cirurgião vascular, se for o caso”, pontuou Focássio.

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