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    Entenda por que os macacos não são um risco no atual surto de varíola

    Nome da doença tem origem na descoberta do vírus em macacos em um laboratório dinamarquês em 1958; transmissão acontece de uma pessoa para outra por contato próximo

    Investigação de caso de varíola dos macacos na Fiocruz.
    Investigação de caso de varíola dos macacos na Fiocruz. Foto: Josué Damacena/IOC/Fiocruz

    Lucas Rochada CNN

    em São Paulo

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    A varíola dos macacos é uma doença causada por um vírus chamado Monkeypox, semelhante ao da varíola comum (Smallpox), que pertence ao gênero ortopoxvírus da família Poxviridae.

    O nome da doença tem origem na descoberta inicial do vírus em macacos em um laboratório dinamarquês em 1958. No entanto, o reservatório animal permanece desconhecido, embora seja provável que esteja entre os roedores, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

    No surto atual da doença, que atinge múltiplos países a transmissão acontece principalmente de uma pessoa para outra por contato próximo com lesões, fluidos corporais, gotículas respiratórias e materiais contaminados, como roupas de cama e de banho.

    “A varíola dos macacos é uma doença causada por um vírus, que foi diagnosticada e identificada pela primeira vez no século passado, que não tem nada a ver com macacos. Na verdade, ela foi identificada primeira nos macacos e, por isso, ficou conhecida no mundo científico como ‘varíola dos macacos'”, afirma o secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Arnaldo Medeiros.

    Mudanças na nomenclatura da doença

    Para evitar que haja estigma e preconceito contra os indivíduos infectados e situações de maus tratos contra os animais, cientistas da área defendem que a doença seja nomeada no Brasil exclusivamente como “monkeypox” (mesmo nome do vírus), uma vez que o surto atual não tem relação com primatas.

    “Precisamos parar de nomear a varíola dos macacos dessa maneira, por que ela leva a um erro de correlação com os símios, com os macacos, e já foi nomeada como Monkeypox pela Organização Mundial da Saúde e pode sofrer nas próximas semanas uma atualização”, diz o presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), Nésio Fernandes.

    Nesta semana, quatro saguis-de-tufos-pretos e um filhote de macaco-prego foram mortos na cidade de São José do Rio Preto, em São Paulo, com sinais de intoxicação. Os ataques acontecem em meio ao aumento de casos de varíola dos macacos no estado de São Paulo e em todo o Brasil.

    “O nome monkeypox também é utilizado na Classificação Internacional de Doenças (CID-10). Todo esse movimento tem o intuito de se evitar desvio dos focos de vigilância e má ações contra os animais”, explica Maria de Lourdes Oliveira, vice-diretora do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).

    OMS estuda mudanças na nomenclatura da doença

    Em junho, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom, afirmou que a entidade estuda mudanças na nomenclatura da doença.

    “A OMS também está trabalhando com parceiros e especialistas de todo o mundo para mudar o nome do vírus da varíola dos macacos, seus clados e da doença que causa. Faremos anúncios sobre os novos nomes o mais rápido possível”, afirmou Adhanom à imprensa no dia 14 de junho.

    No entanto, até o momento ainda não foi emitido um comunicado oficial sobre a mudança pela OMS.

    Cerca de 30 pesquisadores de diversos países publicaram uma carta à comunidade científica global com um pedido urgente de alteração do nome do vírus causador da doença.

    “Embora a origem do novo surto global de MPXV ainda seja desconhecida, há evidências crescentes de que o cenário mais provável é que a transmissão humana entre continentes esteja em andamento por mais tempo do que se pensava anteriormente”, afirma o conjunto de especialistas, que inclui o virologista brasileiro Tulio de Oliveira.

    Na descrição da doença, a OMS afirma que existem dois grupos (clados) de vírus da varíola dos macacos: o da África Ocidental e o da Bacia do Congo (África Central).

    O grupo de especialistas afirma que a narrativa contribui para vincular o atual surto que atinge múltiplos países à África.

    “No contexto do atual surto global, a referência contínua e a nomenclatura deste vírus sendo africano não é apenas imprecisa, mas também discriminatória e estigmatizante”, afirmam os cientistas.

    Como alternativa, os cientistas propõem a classificação de três clados principais do vírus: os clados 1, 2 e 3, nomeados por ordem de detecção, incluindo os genomas virais da África Ocidental, África Central e eventos associados ao surto atual em diferentes países.

    No final de julho, o governo do estado de Nova York e a prefeitura da cidade declararam estado de emergência em saúde pública devido à doença. No dia 4 de agosto, os Estados Unidos também declararam emergência em saúde pelo surto do vírus.

    O Departamento de Saúde e Higiene Mental de Nova York enviou um ofício ao diretor-geral da OMS com pedido de mudança no nome da doença. O documento, assinado pelo comissário do departamento Ashwin Vasan, afirma que o termo “Monkeypox” pode contribuir para o estigma e a discriminação de comunidades de “pessoas de cor”.

    “NYC se junta a muitos especialistas em saúde pública e líderes comunitários que expressaram sua séria preocupação em continuar a usar exclusivamente o termo “monkeypox” devido ao estigma que pode gerar e à história dolorosa e racista na qual terminologia como essa está enraizada para comunidades de cor. ‘Monkeypox’ é um nome impróprio, pois o vírus não se origina em macacos e só foi classificado como tal devido a uma infecção observada em primatas de pesquisa”, diz o ofício.

    Como alternativa, o documento recomenda a adoção de linguagens neutras como “hMPXV” ou “MPV”. “Precisamos de liderança da OMS para garantir consistência na nomenclatura e para reduzir a confusão para o público”, diz o texto.

    Imagem de microscopia do vírus Monkeypox, que causa a varíola dos macacos / National Institute of Allergy and Infectious Diseases (NIAID)

    Impactos do vírus documentados em animais

    Vários mamíferos selvagens foram identificados como suscetíveis ao vírus da varíola dos macacos em áreas que relataram anteriormente a varíola dos macacos.

    De acordo com a OMS, a lista inclui esquilos, ratos gambianos, arganazes (pequeno animal que se parece com um esquilo), primatas não humanos, entre outros.

    Enquanto algumas espécies podem ter infecção assintomática, outras como macacos e grandes símios, apresentam erupções cutâneas típicas das encontradas em humanos.

    A OMS afirma que até agora, não há evidências documentadas de animais domésticos afetados pelo vírus Monkeypox. Além disso, também não há evidência documentada de transmissão de humanos para animais. “No entanto, este continua a ser um risco hipotético. Portanto, medidas apropriadas devem ser tomadas, tais como:

    Transmissão e sintomas da doença em humanos

    O vírus da varíola dos macacos é transmitido de uma pessoa para outra por contato próximo com lesões, fluidos corporais, gotículas respiratórias e materiais contaminados, como roupas de cama. O período de incubação é geralmente de 6 a 13 dias, mas pode variar de 5 a 21 dias.

    “A principal forma de proteção é evitar contato direto com pessoas infectadas. Lembrando que a principal forma de transmissão ocorre através do contato pele a pele, pessoal, ou obviamente através do contato com objetos pessoais de um paciente que está infectado com a varíola dos macacos”, afirma Arnaldo Medeiros, secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde.

    Na forma mais comum documentada da doença, os sintomas podem surgir a partir do sétimo dia com uma febre súbita e intensa. São comuns sinais como dor de cabeça, náusea, exaustão, cansaço e principalmente o aparecimento de inchaço de gânglios, que pode acontecer tanto no pescoço e na região axilar como na parte genital.

    Já a manifestação na pele ocorre entre um e três dias após os sintomas iniciais. Os sinais passam por diferentes estágios: mácula (pequenas manchas), pápula (feridas pequenas semelhantes a espinhas), vesícula (pequenas bolhas), pústula (bolha com a presença de pus) e crosta (que são as cascas de cicatrização).

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