Entre burocracia e denúncias de corrupção, Rio aguarda abertura de 3.131 leitos

No final de março, o governador Wilson Witzel (PSC) anunciou que oito hospitais de campanha seriam abertos até a semana passada. Apenas um saiu do papel

Leitos no hospital municipal Moacyr do Carmo, em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro 
Leitos no hospital municipal Moacyr do Carmo, em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro  Foto: Prefeitura de Duque de Caxias (27.abr.2020)

Leandro Resende,

da CNN, no Rio

Documentos levantados pela CNN revelam razões para a demora na entrega de hospitais de campanha e dos leitos exclusivos para tratar pacientes com coronavírus no Rio de Janeiro. Em meio à burocracia do Estado e a gestores da saúde acusados de corrupção, presos nesta quinta-feira (7) em uma operação do Ministério Público, a Secretaria Estadual de Saúde aguarda abertura de 3.131 leitos, de acordo com planilha interna do órgão. 

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No final de março, o governador Wilson Witzel (PSC) anunciou que oito hospitais de campanha seriam abertos até a semana passada. Apenas um saiu do papel. Juntos, os que ainda não foram inaugurados preveem mais 1.900 leitos para o estado do Rio. Enquanto isso, 1.115 pessoas aguardam por um leito para tratamento da COVID-19. O Rio tem 1.394 mortes e 14.156 casos confirmados de coronavírus. 

São vários os motivos, que vão do atraso das entregas de kits de UTI por parte do Ministério da Saúde à demora para asfaltamento de áreas para estacionamento de ambulâncias. No caso do hospital de campanha do Maracanã, por exemplo, foram 19 dias entre o pedido da Secretaria Estadual de Saúde para pavimentar uma área de 1.880 metros quadrados e a efetiva autorização para que a obra seja feita.  

Segundo a planilha de controle da Secretaria Estadual de Saúde, a expectativa era de que ali, no templo do futebol brasileiro, já estivesse funcionando o maior hospital de campanha do estado, com 400 leitos, sendo 160 para pacientes em estado grave.  

O mesmo atraso se repete na obra para o hospital de campanha de Duque de Caxias. Apenas no dia 5 de maio, cinco dias depois da primeira data prevista para inauguração do hospital, o secretário estadual de Saúde, Edmar Santos, mandou ofício para pedir que seja pavimentada a área demarcada para acesso das ambulâncias e viaturas de serviço à unidade — que ainda não saiu do papel.  

Demora

Outra razão para demora na disponibilização de leitos de saúde é a espera por equipamentos. A CNN levantou que 25 hospitais do estado aguardam a chegada de materiais para que pacientes possam ser atendidos. No total, essa demora na chegada dos kits de equipamentos embargam a entrega de 973 leitos de UTI espalhados em 21 cidades do estado.  

Em um documento interno enviado ao Tribunal de Contas do Estado, a Secretaria de Saúde informou, no dia 29 de abril, que até aquela data só havia recebido 40 respiradores, quando a necessidade mínima do estado é de pelo menos 800 ventiladores mecânicos, equipamento fundamental para pacientes em estado grave. 

Procurada na quarta-feira (7) sobre as razões da demora na entrega dos leitos, a Secretaria de Saúde do Rio não respondeu aos questionamentos da reportagem até o momento. Também não informou um novo cronograma para inauguração dos hospitais. 

Já o Ministério da Saúde informou que entregou, até o momento, quatro kits de equipamentos ao estado do Rio de Janeiro. Cada kit permite o funcionamento de 10 leitos de UTI e traz equipamentos como ventilador pulmonar e desfibrilador, fundamentais para pacientes em estado grave.